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Aos 55
por Manuel de Oliveira Paiva
Publicado originalmente no jornal O Libertador de Fortaleza em 1884.


Deputados gerais negreiros que negaram menção honrosa à província do Amazonas

Dói aos republicanos! Dói a um brasileiro,
Como se a mão queimasse, viva, num brazeiro,
Ter de arregimentar as tropas da Idéia
Para mandar bater com ríspidas refadas
As costas dobradiças, tísicas safadas.
De quem ficava bem no alto da boléia
De um carro de barão; mas que não dá certo
Pra sentar-se ou votar num parlamento aberto.
 
Que tempos, oh meu Deus, que tempos e que gente!
Como não doera num coração ardente
Que só palpita e sente pela pátria sua
Espalhar com rancor nos ângulos da rua
Que o único poder que na brazilea ferra
Filho do povo é que sempre ao rei faz guerra
Linfamou-se desceu e tanto de seus brios
Que nega, a quem merece os justos elogios!
 
Mas, não! Eu não reúno as tropas do Ideal
Que são dignas de mais para falar em tal!...
Eu reúno a canalha, ajunto as prostitutas,
E mando-os insultar as vossas frontes brutas
Oh! Excelentes servos dos escravocratas!
Mando lançar-vos já em pleno Parlamento
O que houver de mais negro e vil no sentimento
E croas de capim e pútridas batatas!
 
Dói muito, meus senhores a Democracia
Ver-se infamada assim à luz do meio dia!
Dói ver cinqüenta e cinco livres deputados

Aos lodos do interesse tristes afastados
Hoje vende-se tudo, oh tempo, tempo ignoto!
Vende-se a Consciência, quando foi-se o voto
Vende-se a Liberdade, vende-se o pudor.
Anda de braço dado o Ódio com o Amor!
 
Não há vida melhor, oh judas deputados
Do que essa que levais assim acorrentados
Um cão vive também ao peso da coleira
Digere, dorme, ladra: a serpe traiçoeira
Ondula sobre as flores. Mas o assassino
Cedo ou tarde há de vir cumprir o seu destino
— Pedantes, impostores, ignorantões
Além de preguiçosos, baixos e vilões.
 
Negai a liberdade ao brasileiro escravo.
Que o povo sabe dá-la, o povo enorme e bravo
Mas não negueis a croa de uma boa ação
Que isso demonstra até nenhuma educação
— Porém ficai sabendo, oh flácidos canalhas,
Que o Amazonas tem o que não tereis nunca!
Só não tem para dar-vos fétida espelunca
Nem negro pelourinho e nem bastantes palhas!