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Artigo de Euclides da Cunha de 9 de setembro de 1897

Diário de uma expedição
por Euclides da Cunha
Publicado no Estado de São Paulo em 27 de setembro de 1897.


Nada ainda de novo sobre a luta.

Partiu ontem mais um comboio que deve ser escoltado pelo 33 batalhão de Jueté para cima, ao entrar na zona perigosa. Não partiu ainda o general Carlos Eugênio e é possivel que se prolongue a sua demora.

A nossa situação, os destinos da guerra estão, agora, em função de mil e não sei quantos burros indispensáveis para o transporte de munições.

Esta circunstância bizarra caracterisa as condições especiais da campanha. Ainda quando houvéssemos aqui, em Monte Santo, cem mil homens não melhoraríamos de sorte. Pode-se mesmo dizer peiorariamos consideravelmente. Não nos faltam homens que se disponham a morrer pela República varados pelas balas.

A República é que não lhes póde exigir o sacrificio da morte pela fome.

Todas estas dificuldades, promanam em grande parte da base de operações adotada, encravada no deserto e já de si mesma de acesso penoso.

Os comboios que seguem são o pão de cada dia das nossas forças e são insuficientes. Os dois mil homens prontos a partir, por uma inversão notável imposta pelos acontecimentos, ao invés de auxiliares serão concorrentes prejudiciais num combate surdo com a penúria.

Esse é o aspecto horroroso e dificilmente atenuado da luta. E por isto que entendo oportuna agora uma tática mais vertiginosa que a de Cesar — chegar, lutar, vencer, voltar...



Nas longas investigações diàriamente feitas pelos arredores, tenho estudado, com dificuldades embora, essa região ingrata que é idêntica; com ligeiras variantes, à que circunda o arraial conselheirista. É uma das partes mais modernas talvez do nosso contínente e surgiu das águas provàvelmente depois da lenta ascensão da cordilheira dos Andes, como um fenômeno complementar.

A falta de matas, de vegetação opulente, além das causas que resultam da natureza geognóstica do solo e dos agentes meteorológicos, tem como motivo preponderante essa idade recente.

O lichen ainda está decompondo a rocha; a natureza inteira ainda se prepara para a organisação superior da vida.

Tudo indica — (e fora longo enumerar as razões em que me baseio) o fundo, descoberto por uma lenta sublevação, de um mar geológicamente moderno, terciario talvez, em cujo amplidão aponta culminante de Monte Santo despontava como um chachopo de quartzito.