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As Lagrimas do minino

As Lagrimas do minino
Vilancete publicado em Villancicos que se cantarão na See do Illustrissimo Senhor Antonio de Vasconcellos e Souza. Bispo Conde nas Matinas, & festa do Natal de 1707 (como Villancico III).


Coplas.

As Lagrimas do minino
Que correm de monte a monte
Olhe là que parecem fonte,
Do criſtal mais puro, & fino.
     Ay Jeſus apanhai apanhemos,
     As lagrimas do minino.

Eſſas lagrimas de prata,
Que meu amor chora em fio,
Olhe là que parecem rio,
Que em perolas ſe dezata.
     Ay Jeſus apanhai apanhemos,
     Eſſas lagrimas de prata.

Lagrimas que o ſol derrama,
Neſſe portal amilhares,
Olhe là que parecem mares,
Que acendem de amor a chama.
     Ay Jeſus apanhai apanhemos,
     Lagrimas que o ſol derrama.

Lagrimas que o meu bem chora,
Por ſer ferido de amores,
Olhe là que parecem flores,
Sobre o regaço da aurora.
     Ay Jeſus apanhai apanhemos,
     Lagrimas que o meu bẽ chora.

Lagrimas tambem naſcidas,
Mais brilhantes que as Eſtrellas,
Olhe là que parecem ellas,
Que vem do Ceo deſpididas.
     Ay Jeſus apanhai apanhemos,
     Lagrimas tam bem naſcidas.

Lagrimas de hum namorado,
Que morre por bem querer,
Olhe là que parecem ſer,
Rayos do Sol abrazado.
     Ay Jeſus apanhai apanhemos,
     Lagrimas de hum namorado.

Eſtribillo.

Que linda traça,
Que linda moda,
Que quando chora o menino
A todo o mundo namora.

II. Coplas.

Se por amor chora
Meu minino baſta
Que eſſe pranto amores, he,
Feitiſſo das almas.
     Que linda moda,
     Que linda traça,
     Que lhe chove nos olhos a graça.

Neſſa dos ſeus olhos,
Corrente amoroza,
Toda a liberdade, dis,
Amor que priziona.
     Que linda traça,
     Que linda moda,
     Que nos olhos a graça lhe ſobra.

Oh quanto lhe cuſta
De Adaõ a diſgraça
Pois levarlhe a culpa quer,
Dos olhos nas aguas.
     Que linda traça,
     Que linda moda,
     Que nos olhos a graça lhe ſobra.

Tão grande fineza
Ninguem a ignora,
Por que no ſeu pranto, ſei,
Que eſtà a gloria toda.
     Que linda moda,
     Que linda traça,
     Que lhe chove nos olhos a graça.

Cale o ſentimento,
Que tanto o mal trata,
Sofra meu minino, que,
Aſſim faz quem ama.
     Que linda traça,
     Que linda moda,
     Que nos olhos a graça lhe ſobra.

Socegue o ſeu pranto,
Minino de rozas,
Jà que tanto exceſſo fes
Por ventura noſſa.
     Que linda moda,
     Que linda traça,
     Que lhe chove nos olhos a graça.