Cancioneiro de João de Lemos/Flores e Amores/Introdução

Cancioneiro de João de Lemos por João de Lemos
Flores e Amores: Introdução

Em duas diversas epochas, com dois titulos differentes, annunciei a publicação dos meus versos, e de ambas as vezes deixei o annuncio por mentiroso.

Não me arrependo; ainda me não arrependi até hoje.

De annunciar a publicação, sim; de deixar de publicar, não.

Quando deitei o primeiro pregão, estava ainda nos bancos da Universidade. Incitaram-me a isso applausos e instancias de amigos, talvez cegos pela amizade e de certo tão inexperientes como eu, que os attendi, ao principio, porque tambem a vaidade de criança me andava seduzindo para lhes dar ouvidos.

Por fortuna, depois, ora com a preguiça ora com a reflexão, resisti a mim e a elles.

D’elles me lembra, entre outras, uma batalha em forma que me deu o meu excellente e particular amigo A. X. Rodrigues Cordeiro, em um dos caes do Mondego, com aquelle fogo que a sua organisação accende em todos os affectos generosos. Arrufamo-nos até. Outro meu bom amigo, que tambem estava presente, Augusto José Gonçalves Lima, foi quem deitou agua na fervura d’aquelles amigaveis enfados.

Permittam ambos que aqui lhes cite os nomes para desafogo da saudade d’esse tempo, e para solemne tributo de agradecimento.

Mas ainda bem que não publiquei tudo quanto então publicaria! Nessa parte morro impenitente.

Sabem do que me tenho arrependido? É da publicidade que dei nos jornaes a muitos versos de então. Verdade, verdade, a fogueira estava chamando por grande parte d’elles.

Entretanto a indulgencia do publico, que foi grande, os gabos com que, pela imprensa, me animaram pessoas, que já não faziam declinar a competencia por suspeitas, visto que, a esse tempo, ou eram pouco, ou não eram, do meu conhecimento, tudo isto me ia fazendo mandar mais versos para os jornaes, e authorisava novas instancias. O amor-proprio já se sabe que repetia, e com maior força, as suas lisonjeiras persuasões.

Não posso deixar de me referir principalmente ao senhor Antonio Feliciano de Castilho, que na Revista Universal me coroou por tantas vezes com um favor mais que generoso. Tome para si a culpa que lhe cabe, que não a teve pequena, no segundo annuncio da collecção dos meus versos, alguns annos depois do primeiro.

Metteu-se, porém, a politica de permeio a levar-me o tempo, foi-se-lhe ainda reunindo novamente a reflexão, e faltei outra vez á promessa.

Poucas coisas terei que agradecer á politica, mas a parte que n’isso teve, de todo o coração lh’a agradeço. Dos versos que então publicaria, já atirei muitos ao lume.

Aqui tem, pois, o publico como me desculpo dos annuncios a que não satisfiz. E penitenciando-me, diante d’elle, pela parte em que cedi á vaidade, e applaudindo-me d’aquella em que lhe escapei.

Mas agora? Agora, já que não tive mão em mim que não fosse sempre publicando, mais ou menos, aqui e além; já que tanto cresceu o numero d’esses filhos dispersos, que não posso nem devo enjeitar, muito mais quando no Brasil tiveram a caridade de lhes dar casa em um volume, onde os reuniram, e que me está accusando de pae desnaturado; já que o juizo publico tem continuado tão benevolo, no reino, e até fora d’elle, não havia outro remedio.

Collegi o que achei nos jornaes e nas minhas gavetas, e em tudo emendei alguma coisa.

Os meus receios são os mesmos; supponho, porem, que os aleijões já não serão tantos nem tão grandes.

Com a divisão que fiz nos tres volumes, quiz separar, até certo ponto, as epochas a que correspondem, embora em todos elles haja composições que, pelo rigor das datas, não lhes pertenciam. Mas são poucas, e, em todo caso, o genero de idéas exigia aquella collocação.

Procurei, quanto pude, que as correcções não alterassem as feições caracteristicas. No que, em vez de physionomia, me pareceu deformidade, cortei sem dó; o resto, onde ainda havia bastante que podar, cuidei que era de minha obrigação deixal-o. Intendi que no pequenissimo logar que os meus versos hajam de tomar, se tomarem, nas lettras patrias, fazia mais serviço em assignalar o caminho com as minhas quedas, do que em pôr-me agora, com as minhas idéas de hoje, a querer endireitar de todo corcovas, que já me pareceram bellezas, que pertencem de nascença ao corpo em que estão, e que Deus sabe se por fim não ficariam como aquella gambia de que falia Bocage — tortas para o outro lado.

Tem-se dito que introduzi, ou fiz correr, certa forma nova nas composições lyricas, e até com esta prioridade me argumentavam alguns para eu me não ficar atraz em reunir o que andava pelas folhas politicas e litterarias, receiando que tambem assim ficasse atraz dos mais na historia que se fizesse da nossa poesia moderna.

Não sei se se ha-de fazer tal historia, nem se lá hei-de ou devo entrar, como não sei se fui adiante ou atraz de ninguem.

Mas se fui adiante em alguma coisa; e se n’isso fiz bem; o que me podia dar cuidado, era que o bem se perdesse. Como se não tenha perdido, se com effeito se não devia perder, isso é que importa.

O mais para que serve? Pois eu, que não tenho senão que agradecer e confundir-me pelo constante obsequio dos contemporaneos, pelo logar de honra que, com demasiada deferencia, me teem dado collegas que valem muito mais, havia de andar ahi a correr para apanhar o futuro e metter-lhe na cabeça as minhas presumpcões? Deus me livre.

Tomara eu merecer devéras, o que o presente me tem concedido com mais liberalidade que justiça.

Fallo aqui n′isto para dizer, que algumas formas novas que se encontrarão n’este volume e nos seguintes, foram simples ensaios, com que pretendi experimentar, se a nossa lingua se prestava, com naturalidade, e com proveito da poesia, a composições similhantes ás que eu via applaudir e admirar em linguas estranhas.

Posso ter sido infeliz na execução; mas se a tentativa mostrar que a lingua portugueza é docil, para quanto d’ella se exija, não quero mais nada. Outros farão melhor. O ponto está em ficar sabido, que se póde fazer. Ganham os fóros da linguagem patria, e ganha a poesia, com se enriquecer de maior numero de moldes, onde possa vasar o pensamento.

Tenho dado, franca e singellamente razão de mim.

Agora, os meus pobres versos que vivam ou morram como poderem.


Pedrouços 5 de Setembro
                 de 1838