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Carta de Rosseau (10 de agosto de 1755)

Carta de Rosseau dirigida a Voltaire
por Jean-Jacques Rosseau


Sou eu, senhor, quem tenho de vos agradecer por tanta consideração. Em resposta à generosa oferta que fizestes aos esboços de meus devaneios, eu não creio que tenha uma colocação digna, mas me desembaraço de um dever, e vos presto uma homenagem, que todos nós vos devemos, como nosso líder. Mesmo distante, fico comovido pela honra que concedeis à minha pátria, e compartilho o reconhecimento aos meus concidadãos. Tenho a expectativa que ele tão somente aumentará, enquanto eles se beneficiarem das instruções que vós podereis lhes ceder. Enfeitas o refúgio que vós escolhestes, esclareceis um grupo digno de vossas lições, e sabereis que, se pintar bem as virtudes e a liberdade, aprenderemos à amá-las pelos costumes assim como amamos pelos vossos escritos. Tudo que de vós se aproxima aprende convosco o caminho da glória e da imortalidade.

Vereis que eu não aspiro nos fazer regressar à animalidade, embora eu, de minha parte, muito lamente o pouco que dela perdi. Ao vosso respeito, senhor, este retorno seria um milagre tão grande que somente Deus poderia fazê-lo, e tão prejudicial que somente o Diabo poderia querê-lo. Não tente, então, recair nas quatro patas, pois nenhuma pessoa no mundo teria menos sucesso que vós. Vós nos endireitais muito bem sobre nossos dois pés para cessar de se manter sobre os vossos. Eu concordo que todas as desgraças perseguem os homens célebres na literatura, e concordo também acerca dos males inerentes à humanidade, que parecem independentes do nosso vão conhecimento; os homens abriram sobre si próprios tantas causas de infortúnio que, quando o azar desvia a alguém, já não são mais tão felizes. Além disso, existe no progresso das coisas uma lição escondida que o vulgo não distingue, mas que não escapa em nenhum detalhe do olho do filósofo, quando este se dedica a refleti-la.

Não foi Terêncio, Cícero, Virgílio ou Sêneca que causaram os crimes dos romanos ou as desgraças de Roma. Mas sem o veneno lento e secreto que corrompeu gradualmente o mais poderoso governo que a história faz menção, nem Cícero, nem Lucrécio, nem Salústio nem todos os outros teriam existido, nem sequer escrito. O agradável Século de Lélio e Terêncio conduziu de longe ao século brilhante de Augusto e de Horácio, e por fim aos séculos horríveis de Sêneca e de Nero, de Tácito e Domitian. A inclinação para as ciências e as artes nasce em um povo através de um vício interior que, por sua vez, aumenta rapidamente, e se é verdade que todos os progressos humanos são perniciosos à espécie, também é que a vivacidade e conhecimento aumentam o nosso orgulho e multiplicam nossos distúrbios, acelerando rapidamente nossas desgraças. Mas chegará um tempo em que ele necessariamente terá de parar de aumentar: é este o ferro que é necessário deixar na ferida, o medo que aflige a vítima não cessará lhe arrancando.

Quanto a mim, se tivesse seguido minha primeira vocação, e não houvesse nem lido, nem escrito, seria sem dúvida mais feliz. No entanto se as letras estivessem hoje apoiadas no vazio, eu seria privado do único prazer que me resta. É no seu seio que consolo-me de todos meus males. É em meio aos seus ilustres filhos que experimento as doçuras da amizade, que aprendo a desfrutar a vida e desprezar a morte. Eu lhe devo o pouco que sou, eu lhe devo mesmo a honra de ter vos conhecido. Mas consideremos a nossa questão, e a veracidade de nossos escritos: por que têm de esclarecer o mundo e conduzir seus cegos habitantes os filósofos, os historiadores, e os verdadeiros sábios, se, como bem disse o sábio Mêmnon, eu não conheço nada tão louco quanto um grupo de sábios? Admita então, senhor, que se é bom que os grandes gênios instruam os homens, também falta que os vulgos recebam suas lições. Se cada um se meter a ministrá-las, quem serão os que irão recebê-las? Os mancos, disse Montaigne, são inapropriados para o exercício do corpo, e as almas mancas são para os exercícios do espírito. Mas nesse século sábio não vemos mais do que mancos querendo ensinar os outros a andar.

As pessoas aceitam os escritos dos sábios para lhes criticar, e não para se instruir. Jamais vimos tantos Dandins; o teatro em efervescência, os cafés ressonando suas sentenças, que superabundam em seus escritos, e eu me inclino a analisar o Orphelin, porque o aplaudiram com tamanho pedantismo que, de tão incapaz de lhe apontar os defeitos, mal aprecio suas belezas.

Pesquisemos a primeira causa de todas as desordens da sociedade, descobriremos que os males dos homens lhes vêm mais pelo erro do que da ignorância e o que nós não sabemos nos prejudica muito menos do que o que nós julgamos saber. Ora, qual o meio mais certo para correr do que a fúria de tudo querer saber? Se não se pretende saber que a terra gira, não se pode punir Galileu por haver dito que ela gira. Se apenas os filósofos reclamaram o título, a Enciclopédia pode não ter tido perseguidores, se cem homenzinhos não aspirassem à glória, você gozaria agradavelmente da vossa, ou pelo menos teria apenas adversários dignos de vós. Então não existe muita surpresa em se sentir alguns espinhos inseparáveis das flores que coroam os grandes talentos. As injúrias de vossos inimigos são o cortejo de vossa glória, como nas aclamações satíricas em que se aclamavam os vencedores. É o entusiasmo que o público tem por vossos escritos que produz os roubos que vós vos queixais; mas as falsificações não são fáceis, porque nem o ferro nem o chumbo misturam-se ao ouro.

Permita-me que diga-vos o apreço que tenho pela vossa resposta e à nossa instrução: desprezais os clamores vãos pelos quais procuram menos fazer-vos mal do que afastar-vos de fazer bem. Quanto mais vos criticam, mais devem vos admirar. Um bom livro é uma resposta terrível a uma malvada injúria. Ei! Quem ousaria atribuir-vos escritos que não são seus, enquanto continuardes a fazer escritos inimitáveis? Estou sensibilizado pelo vosso convite, e se este inverno me deixar em condições de ir na primavera à minha pátria, tirarei proveito de vossa bondade. Mas então gostaria mais de beber a água de vossa fonte do que o leite de vossas vacas. E quanto às plantas de vosso jardim, eu temo não encontrar senão a lótus que não é mais que a pastagem dos animais, ou a moli que impede os homens de evoluir.

De todo o coração e com respeito, etc

J.-J. Rousseau, cidadão de Genebra.

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