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Cartas de Nietzsche — Carta à Reinhart von Seydlitz
por Friedrich Nietzsche


Nice, 12 de Fevereiro de 1888

Querido amigo,

Se não tenho falado com quase ninguém, isto não é um "silêncio arrogante" mas, ao contrário, um silêncio bastante humilde, de um sofredor envergonhado em revelar o quanto sofre. Um animal rasteja para seu esconderijo quando está doente, e assim também faz la bête philosophe [o animal filósofo]. Quão raramente uma voz amiga chega até mim! Estou agora só, absurdamente só. E no curso de minha guerra subversiva contra todo o homem que até agora tem sido respeitado e amado (a qual eu chamo de "transvaloração dos valores"), eu mesmo me tornei sem perceber uma espécie de esconderijo, algo oculto, que você não poderá mais achar mesmo se for até lá procurá-lo, mas é claro que ninguém o faz. Confidencio que não é impossível que eu seja o principal filósofo desta era, e mesmo um pouco mais que isso, algo decisivo e fatal permanecendo entre dois milênios. Alguém nesta singular posição é constantemente obrigado a pagar com uma crescente, ainda mais glacial e aguda solidão. Nossos amados alemães! Não obstante eu esteja agora em meu quadragésimo quinto ano e tenha publicado cerca de quinze livros (entre eles o non plus ultra [não mais além], Zaratustra), eles não apresentaram nem ao menos uma crítica minimamente decente de meus livros. Recorrem agora a expressões como "excêntrico", "patológico", "mentalmente perturbado" [...] E por anos nenhuma palavra de conforto, nem um pingo de sentimento humano, nem um alento de amor - [...]