Recebeu no dia seguinte uma carta de Ângela; era a segunda que ela escrevia ao filho depois da morte do marido.

Já da primeira lhe suplicava que a fosse ver, logo ao entrar das férias, pois agora estava muito só e acabrunhada de desgostos; além disso, os seus padecimentos se agravavam. Amâncio que se demorasse; a infeliz tinha para si que a presença do filho substituiria com vantagem todos os remédios da botica.

Na segunda carta ainda se mostrava mais impaciente e mais aflita pelo rapaz. Falava até no receio de morrer sem abraçá-lo, caso Amâncio não se apressasse a ir em seu socorro. — A presença dele tornava-se precisa, mesmo com referências aos interesses do inventário; porquanto D. Ângela começava a desconfiar de Silveira, que não fazia outra coisa senão lhe pedir dinheiro e mais dinheiro para as tais custas. — Enfim, por todos os motivos, era urgente que Amâncio desse, quanto antes, um pulo ao Maranhão.

Amelinha, que já não ficara muito tranquila com a primeira carta, assustou-se deveras quando o amante lhe mostrou a segunda.

— Eu não consinto nessa viagem! disse-lhe terminantemente.

— Mas não vês que se trata de um caso urgente, que se trata de defender meus interesses, que se trata de salvar a vida de minha mãe?... Ou queres tu que eu a mate, hein?...

Amélia não tinha nada que ver com isso!... A sua questão resumia-se no seguinte: "Dera-se a um homem porque o amava e porque se supunha amada por ele; esse homem a possuiu como bem quis, gozou-a como muito bem entendeu, e, um belo dia, talvez por já estar farto, resolvia meter-lhe os pés e pôr-se ao fresco!"... Boas! Não havia de ser com ela! Amâncio que não caísse em semelhante asneira, porque então veria o bom e o bonito! Quem o afiançava era "a Amelinha dos camarões"!

— Mas, filha, que queres tu que eu faça?... Bem vês que esta viagem ao Norte é inevitável!

— Pois então vamos juntos... Casa-te primeiro comigo!

A idéia foi tão intempestiva que o estudante respondeu com uma gargalhada. Mas o demônio da rapariga, tornando às boas de repente, saltou-lhe ao pescoço e disse-lhe, entre beijos:

— E por que não?... Por que não te casas logo comigo, meu amor?...

— Porque era impossível!... explica ele. "Casar não é casaca!" Era ainda muito cedo para cuidar nisso!... Primeiro tinha de formar-se, praticar algum tempo em Paris, e depois então... sim senhor, não dizia o contrário e havia de ser o mais empenhado em que a coisa se realizasse! Mas por ora... "Deus nos acuda!" era até loucura pensar em semelhante história!...

Amélia fez-se logo de mau humor; vieram os remoques e os reviretes do costume; houve palavras duras de parte a parte e, afinal, como estabelecido imposto de reconciliação, ficou assentado que Amâncio arranjaria mobília nova para o chalezinho das Laranjeiras.

E o rapaz lá foi comprar os trastes.

Dois dias depois, realizava-se a terceira mudança. Dr. Tavares, o último hóspede da famigerada Mme. Brizard, pagou a sua última conta e recebeu da francesa um abraço de despedida.

— Ah! suspirou ela. — Até que enfim se podia descansar um pouco! Já não era sem tempo!

O chalezinho de Amélia ficou muito catita: parecia um ninho de noivos. Estava a pedir lua-de-mel!

A cachorra da pequena tinha gosto. Exigiu tapetes, espelhos, cortinas de chita indiana para a sala de jantar, cortinas de renda para a sala de visitas; quis moldura dourada nos quadros, estatuetas pelas paredes; não dispensou nos aparadores e nos consolos jarras de porcelana das mais à moda; jardineiras aqui e ali, vasos caprichosos com begônias e tinhorões sobre a mesa de jantar; cestinhas artísticas, com parasitas, para dependurar nas janelas; e ainda fez substituir na cozinha, nos arranjos da comida e no arranjo dos quartos, tudo aquilo que lhe parecia em condições de reforma.

E só com essas coisas e só com a satisfação de tanta exigência é que Amâncio conseguia paliar as revoltas da amante. O desgraçado já não tinha ânimo de contratariá-la, porque bem conhecia o preço das resingas e, sem achar meio de reagir, via claramente que as reconciliações se tornavam mais caras de dia para dia.



Entretanto, depois da mudança, o amor dos dois tomou um caráter mais digno e decente. Já não era necessário que a rapariga andasse à noite em ponta de pés pela casa, tateando a escuridão para ir ter com o seu homem. Agora dormiam à vontade, seguros de sua independência, com as portas bem fechadas por dentro.

E só se despregavam, do lado um do outro, quando tinham que abandonar o quarto. Então, cada um se servia da porta competente: Amélia tomava a da varanda e Amâncio a da sala de visitas!

Não podiam desejar melhor!

Melhor, bem certo, para o descanso do corpo e repouso do espírito; não, porém, para garantia do amor, essa estranha função psicológica que só alimenta as suas raízes nos sobressaltos e no perigo. Tamanha segurança e tamanha liberdade de ação deviam fatalmente levantar a ponta de tédio, cujo novelo existe, mais ou menos escondido, no fundo de todas as coisas.

Não vinha longe a saciedade; Amâncio já lhe ouvia o bocejar. Iam-se-lhe pouco a pouco amortecendo os primitivos arrebatamentos do desejo; os dois tinham-se já frouxamente, sem lumes de entusiasmo, sem os esforçadores auxílios da imaginação. Assuntos práticos, positivos agora se lhes intercalavam nas carícias, puxando-os grosseiramente à calma realidade da vida.

Amelinha já lhe não surgia no quarto com aquele trêfego ruçar-se de pomba assustada, o que lhe enchia as feições e os movimentos de uma graça tão maliciosa e provocadora; agora se apresentava com um ar muito tranquilo, de casada, a arrastar os chinelos, o roupão desabotoado e solto num farto abandono de alcova.

Despia-se defronte de Amâncio, coçando negligentemente as partes do corpo que estiveram comprimidas durante o dia, como a cinta, o lugar das ligas e dos canos das botinas. Despenteava-se ali mesmo, ao lado da cama do rapaz, sacundindo o cabelo com ambas as mãos, num movimento de traços erguidos que lhe mostrava a grenha das axilas; ele, também, parecia não dar por isso, era todo do livro que lia à luz de uma vela pousada no criado-mudo.

E os assuntos de suas conversas materializavam-se completamente. Já só discutiam interesses práticos, arranjos de vida e conveniências domésticas: "Era preciso arranjar um jardineiro, que viesse uma vez por semana cuidar das plantas e limpar os tanques. — Era preciso chamar o homem do gás para consertar tal candeeiro que não dava boa luz. — Era conveniente alugar uma criada que soubesse lavar; porque a ladra da lavadeira trocava as camisas e encardia a roupa, que fazia lástima!"

E, às vezes, na intimidade dessas conversas, criticavam os atos de Mme. Brizard e de Coqueiro; censuravam-lhe umas tantas coisas, como, por exemplo: a negligência destes para com César. "O pequeno ia por um tal caminho, que, se não abrissem os olhos, havia de amargar mais tarde! — Que diabo custava ao Janjão arranjá-lo aí em qualquer casa de comércio ou, pelo menos, fazê-lo aprender um ofício?... Em casa mesmo já lhe podiam ter metido nas unhas a carta do ABC e já lhe podiam ter ensinado alguma coisa... Mas Loló não se queria incomodar! E senão, vissem o que se passava a respeito de Nini; outra fosse a boa da mãe, que a pobre rapariga não levaria semanas e semanas lá na casa de saúde, sem ter uma pessoa que olhasse por ela."

Eram sempre deste teor os motivos de sua conversa. Amélia, não obstante, fazia-lhe muito ligada aos menores interesses do amigo: queria saber o que ele gastava por fora, com quem estivera; reprovava-lhe certas relações, certas companhias "que não punham ninguém pra diante", e aconselhava-o a que se não descuidasse de outras que lhe podiam ainda vir a servir; pregava-lhe sermões a respeito de economias. "O mundo estava cheio de espertos: ele que desconfiasse de todos; cada um só procurava chamar a brasa para a sua sardinha!" Queria estar a par de como iam os negócios do amante na província. "Se o dinheiro ficara em boas mãos; se não havia risco de uma quebra ou de alguma ladroeira." E muito egoísta, muito mulher, muito agarrada ao que lhe pertencia, desde Amâncio até ao pó de suas gavetas, fazia justamente como fazem os sócios comerciais que, parecendo tratar dos interesses abstratos de uma firma, estão mais é tratando dos próprios interesses.

Outras vezes boquejavam sobre os conhecidos, sobre as pessoas de amizade. Uma noite em que, durante o serão da varanda, se conversou muito a respeito de Hortênsia, Amélia, já no quarto, em fralda, com um joelho dobrado em cima da cama, enquanto tirava grampos da cabeça e os arremessava para o velador, disse, como se continuasse um pensamento:

— Ela, no fim de contas, não passa de uma mulher como as outras!... Loló e Janjão, é que, quando gostam de uma pessoa tiram tudo dos outros para enfeitá-la!

— Quem? D. Maria Hortênsia? perguntou Amâncio, procurando num livro o lugar em que na véspera deixara a leitura. E, depois de um movimento afirmativo da rapariga:

— Não, Coqueiro tem razão — a mulher de Campos é uma excelente senhora. Muito honesta!

— Ora! É uma mulher como as outras!... sustentou Amélia, galgando a cama por cima do amante, para se aninhar do lado da parede.

— Como as outras, como? Em que sentido?

— Não é lá essas purezas que a querem fazer! Não é nenhuma santa!

— Estás enganada, filha! A Hortênsia é uma mulher muito séria!...

— Quando não ri...

— Pelo menos até aqui, que me conste, ninguém ainda se animou a dizer nada de sua conduta!

Amélia, então, possuída de um rancor instintivo de classe, de uma surda antipatia de mulher suspeita por mulher honesta, desencadeou os seus argumentos e as suas razões. Trouxe a lume conversas inteiras, que bispara na tal noite do exame. "Amâncio via cara e não via coração!... Aquele — meu bem para cá, meu bem para lá — que todos notavam entre Campos e a mulher, era só dos dentes para fora! No íntimo, Hortênsia detestava o marido! Achava-o muito bom homem, é verdade, muito generoso, não podia se queixar de que lhe faltasse nada — boa mesa, boa casa, criados para servir, teatros, bailes, seu bom carro, seu vestido de preço — sim senhor! mas só! Quanto a carinhos — nicles! A respeito de certos confortos de que uma mulher precisa — era uma miséria! Às vezes, passavam-se meses sem que o marido a procurasse! O pobre homem andava lá com os seus negócios, coitado! E a doida, em lugar de conformar-se com a sorte, punha a boca no mundo e eram queixas e mais queixas pra frente! Que ela, Amélia, não soubera de tudo isso por parte deste ou daquele — escutara com seus próprios ouvidos!"

— Pois bem, ainda me ajudas!... volveu Amâncio, tomando extremo interesse pela conversa — ainda me ajudas, porque, se é como dizes, o bom comportamento de D. Hortênsia torna-se muito mais digno de admiração!...

— Sim!... retrucou a rapariga ironicamente. — Também acho bom, mas moro longe! — De um, quando mais não seja, sei eu, por quem o tal "anjo de pureza" seria capaz de dar uma perna ao diabo! E olha que, se ainda não a deu, foi porque ainda não teve ocasião para isso! vontade não lhe falta! Ele que se apresentasse e veríamos!

Amâncio quis logo saber quem era o sujeito.

— Um tipo! Não o conheces.

— Mas como se chama?

Amélia, depois de alguma hesitação, confessou. — Era Sousa Antunes... Aí tinha!

— Que Antunes, homem! Aquele sujeito da Câmara. Alto, de cavanhaque, aquele de castor branco, que uma vez encontramos nas regatas, em Botafogo.

— Ah!... Já sei, já sei...

E Amâncio procurou disfarçar a sua contrariedade, fingindo que se abismava na leitura. E parecia muito preso à página, enquanto, aliás, o seu pensamento buscava descobrir no tipo de Sousa Antunes os atrativos que cativaram a mulher de Campos. — Impossível! O tal Antunes era um viúvo talvez de quarenta anos, pai de filhos, e vulgar, sem talento de espécie alguma, vivendo de um ordenado oficial de secretaria, nem tendo, ao menos, qualidades físicas que inspirassem paixão a qualquer mulher, quanto mais àquela! aquela que não pôs dúvida em lhe atirar com uma recusa pelas ventas!...

— Não! Isso deve ser história!... considerou ele em voz alta.

— Qual história, o quê! retorquiu logo Amélia. — É louca por ele! Quando o avista, fica tonta! Eu vi! (E arregalou um dos olhos com o dedo.) Ainda outro dia, no São Pedro — que escândalo! Não lhe tirava o binóculo de cima! O que a cegou, sei eu...

— Mas como vieste tu a saber disto?...

— Ora! Loló é toda das Fonsecas, que estão agora de cama e mesa com a Hortênsia!...

— Fonsecas?...

— Aquelas moças esquisitas, aquelas que foram à soirée!... Lembras-te? Ó homem! as Fonsecas... as de Catumbi!...

A Amâncio pouco lhe importavam as Fonsecas, o que ele desejava eram mais algumas informações a respeito do escândalo. Não podia suportar a idéia de que Hortênsia, a mesma Hortênsia que lhe repelira os beijos, tivesse um fraco pelo Antunes, o Antunes do cavanhaque! — Que horror!

E, depois dessa conversa, principiou a frequentar a casa de Campos com mais assiduidade. Aparecia regularmente duas vezes por semana e quase se demorava até as horas do chá.

Mas Hortênsia — qual! Não atava, nem desatava. Era sempre a mesma criatura incompreensível; sempre aquela mesma ambiguidade, a mesma dúvida, o mesmo querer e não querer! Hoje — um sorriso de esperanças; amanhã — uma frieza esmagadora; depois — suspiros, meias palavras de ressentimento, olhares misteriosos, vagos, ora muito colorido de ternura, ora pulados de orgulho; tão depressa altiva e sobranceira, como suplicante e humilde; tão depressa risonha como triste, generosa como sovina, dando com uma das mãos para tomar logo com a outra.

O rapaz impacientava-se: — Fossem lá compreender semelhante mulher! Um dia — toda condescendência, toda interesse por ele, no outro — gestos desabridos, ameaças, palavras duras. — Sebo! — Já passava a debique! No fim de contas não valia a pena!

Mas o ladrão da mulher tinha uns olhos tão doces, uns dentes tão brancos, uma pele tão viçosa!... "Não! não senhor! Era preciso acabar com aquilo! Ele estava fazendo um papel ridículo!"...

E deliberava não pensar mais na mulher de Campos. "Que diabo! Se se queria divertir, comprasse um boneco de engonços!"... Quando, porém, dava por si no dia imediato, já os passos o tinham conduzido para a casa do negociante.

"Entraria, mas lá dentro havia de ser forte, inabalável!" E trepava pelas escadas, imaginando improvisar um namoro com a Carlotinha estudando os assuntos de que teria de usar na conversa, calculando os efeitos que a sua afetada indiferença devia produzir no espírito da caprichosa. Bastava, porém, um sorriso de Hortênsia, uma palavra mais terna, um gesto mais amoroso para o fazer ficar caído, desarmado, seguro como nunca. — Era o diabo!

Voltava para casa furioso, atirando com as portas, respondendo de má vontade às perguntas que lhe dirigiam.

Amélia o estranhava, sem dar, contudo, a perceber coisa alguma. Apenas lhe perguntava, aliás, como sempre, onde estivera e, quando o rapaz dizia secamente: "Com Campos", ela fazia:

— Ah!...

E não tocava mais em semelhante coisa.

Uma noite ele entrou ainda pior que das outras. Não quis ir à varanda, meteu-se no quarto, abriu um livro e aí ficou, junto à secretária, com a fisionomia fechada sobre a página.

Todavia, seu pensamento trabalhava: "Era preciso acabar com aquilo, custasse o que custasse! Era preciso definir as posições! — Ou a mulher de Campos se explicava, ou ele não poria lá mais os pés!"

E resolveu que o melhor seria escrever-lhe uma carta, uma carta enérgica, decisiva, exigindo um "sim" ou um "não". Fosse a resposta qual fosse, contanto que viesse, contanto que Hortênsia desembuchasse por uma vez!

Mas não queria escrever enquanto Amélia não pegasse no sono. — Ele bem sabia o quanto era a rapariga desconfiada e fina. Só quando a pilhou quieta e presumiu que já estivesse dormindo, foi que se animou a minutar a carta.

Frases e frases desesperadas e cheias de fogo acavalavam-se umas pelas outras, falando em martírios infernais, em suplícios dantescos e terríveis aniquilamentos. E Amâncio, no seu epicurismo estrepitoso e brutal, declarava que "já não podia suportar as meias promessas, os dúbios sorrisos e lentas torturas que ao sangue recalcado lhe impunham as atitudes perplexas, de Hortênsia. Preferia a dor por inteiro, completa, de um só golpe. Ela que tomasse uma resolução, que despachasse! Se lhe não convinha o amor que ele propunha, declarasse-o com franqueza: — ficaria o dito por não dito! E assim, escusavam de prosseguir naquele encarniçamento desabrido, de cujo oscilante resultado as dúvidas e incertezas o acabrunhavam e consumiam, mais dolorosamente do que tudo que pudesse haver de terrível e cruel em uma solução desfavorável!"

Quando deu por bem correto e limado o que escrevera, tirou a limpo uma cópia, sobrescritou-a e, para que Amélia não descobrisse nada, escondeu todos os corpos de delito no fundo de uma das gavetas da secretária. Depois, como se tivesse alijado um novelo da garganta, respirou desafrontadamente, amorteceu o bico de gás e, abafando os passos e desfazendo-se em cautelas, foi meter-se nos lençóis, muito empenhado em não acordar a amante.

Não levou dez minutos a cair no sono.

Então, Amélia ergueu-se, ainda com mais cuidado do que ele se recolhera, foi pé ante pé à secretária, tirou a carta e, depois de guardá-la em lugar seguro, tornou de novo à cama, e desta vez adormeceu deveras.



Leu-a precatadamente no banho, às oito horas da manhã, enquanto esperava que o tanque de mármore se enchesse.

Amâncio ainda ficara no quarto.

Ela, já despida, encostada ao rebordo da banheira, os ombros curvos, uma perna sobre a outra, a cabeça descaída molemente para os ombros polposos do seio, tinha em uma das mãos a pequena folha de papel e, de tal modo a fitava, que parecia disposta a consumi-la com o brilho iracundo de seus olhos.

Aquela carta a revoltava muito; não por ele, mas por si mesma; não pelo afeto que teria ao estudante, mas pelo ressentimento de seu amor-próprio ofendido. Não lhe podia sofrer a vaidade que um homem, a quem, por merecer, ela fizera tudo que estava em suas mãos; um homem por quem lançara em jogos os recursos de sua feminilidade; um homem por quem barateara todo o valimento do seu corpo, tivesse ânimo de desprezá-la por uma outra mulher!

E, com o olhar imóvel sobre a nudez oriental de seus membros, a boca entreaberta, o colo palpitante, Amélia se concentrava toda na idéia de uma vingança completa, tão completa, tão grande que lhe atulhasse o rombo cavado no seu orgulho de mulher traída.

A água, que escorria da torneira com um trapejar, monótono, punha no ambiente desagasalhado do banheiro uma impressão ainda fria de umidade e desconforto; e aquele corpo nu destacava-se ali como uma bela estátua desprezada. Sua carne tersa e maciça contraía-se, empinando os lóbulos do peito e enrijando a vermicular protuberância dos quadris.

Nisto, uma abelha voejou à roda da cabeça de Amélia, tentando pousar-lhe nos cabelos; ela agachou-se toda, fugindo logo num movimento medroso de caça que se assusta. Em seguida, puxou a toalha do cabide e pôs-se a dardejá-la contra o dourado importuno.

Foi uma luta. O inseto fugia; ela trepava-se à borda do tanque, equilibrando-se, ora num pé, ora no outro, segurando-se à parede, vindo, recuando, a despedir para todos os lados golpes perdidos na toalha.

Mas a abelha não se deixara prender. Ia e revinha no ar, zumbindo, a sacudir as suas trêmulas asas de escumilha; até que o sol, por uma frincha do telhado, veio buscá-la numa aresta de luz, ainda mais dourada do que ela.



Nessa ocasião, Amâncio, no quarto, perdia a cabeça à procura da carta.

— Pois se eu a guardei aqui, com estas minutas!... resmungava ele sozinho, depois de ter já desarrumado toda a gaveta.

Imaginar que Amélia desse com ela, não! não era possível! Não descobriria o lugar, onde Amâncio, tão previdentemente, sepultara a maldita carta; além disso, quando ele se meteu na cama, já a pequena dormia a bom dormir e, pela manhã, bem a viu acordar e escafeder-se para o banho... Que diabo teria então mexido ali?... As portas ficavam sempre fechadas por dentro!... Supor que tivesse guardado o demônio da carta em outra parte... mas como? se a deixara justamente dentro das minutas, e as minutas lá estavam?...

Mas Amélia vinha de entrar no quarto ao pé.

— Ó Amelinha! viste por caso por aí alguma carta?... perguntou o rapaz indo ao seu encontro.

— Que carta? fez ela com o ar mais calmo e mais natural deste mundo.

— Uma carta que nem é minha!... Guardei-a naquela gaveta, — desapareceu!... Agora não sei que contas prestar ao dono! É uma entalação! uma verdadeira entalação! queixava-se o rapaz convictamente.

— Mas, onde a puseste?

— Na gaveta da secretária; estou-te a dizer!

— Então deve estar lá. Procura bem.

— Já vi. Não está!

— Pois aqui não entra mais ninguém... Eu cá por mim, não mexo nunca nos teus papéis, e ainda nem abri, uma vez sequer, qualquer dessas gavetas... Se puseste a carta aí, aí deve estar por força!

— Qual está o quê! Já despejei a gaveta! Já remexi tudo.

E a desordem em que se achava o quarto dizia isso mesmo.

— Então não sei... concluiu Amélia, sacudindo os ombros. E continuou tranquilamente a enxugar os cabelos, cujo serviço havia interrompido para atender às perguntas do amante.

— Mas a carta também não podia voar! declarou este em tom áspero.

— Sei lá! replicou a outra. — Comigo que não a tenho... isso afianço!

— Diabo! praguejou Amâncio, sem se poder dominar. — Pois, nem uma miserável carta posso ter nesta casa?! Arre! que inferno!

— Inferno são esses modos que tens ultimamente! De certo tempo para cá é esta boniteza! Parece que falas ao Sabino! Ora quem sabe!... quem sabe se tenho aqui algum senhor?!...

— Está bom! Basta!

— Basta vá ele! seu atrevido! Quero saber que culpa têm os mais com os sumiços que levam as cartas, para ouvir impropérios desta ordem!

— Eu não me dirigi a ninguém! Sebo! Falo cá comigo! Creio que ao menos tenho o direito de zangar-me quando entender!

— Sim, mas é que os outros também não estão dispostos a aturar desses repelões a todo o instante!

— Pois que não aturem!

— Malcriado! Agora, por qualquer coisinha é isso que se vê!

— Qualquer coisinha não! berrou Amâncio. — É que ontem pus aqui uma carta (soltou um murro na secretária) e a carta desapareceu! Irra!

— Mas quem é que te podia vir aqui tirar a carta, criatura de Deus?! perguntou Amélia mais branda, encaminhando-se para o amante, a modos de querer chamá-lo à razão.

— Não sei! O fato é que a pus aqui, e ela cá não está!

— Há de estar, homem! Não a encontras agora porque já não tens cabeça, mas, logo que te acalmes, hás de descobri-la...

— Mas onde? Já corri tudo!

— Deixa estar; eu me encarrego de procurá-la assim que saíres.

— Mas é que eu precisava levá-la comigo! É negócio urgente!

Amélia, como em resposta à última frase do rapaz, abaixou-se sobre os papéis espalhados no chão e começou a examiná-los, um por um.

— Não está aí! observou Amâncio zangado, a passear de um lado para outro. — Já revistei tudo isso mais de cem vezes! Furtaram a carta, não tem que ver!

Amélia já não respondia e continuava, muito afoita, a esquadrinhar o que havia pelo quarto.

— Se me lembro perfeitamente que a meti naquela gaveta, ao fundo, dentro destas minutas!... acrescentou Amâncio, depois de um silêncio colérico.

— Mas quando a trouxeste?... disse Amélia, sem tirar os olhos do que rebuscava.

— Ontem à noite.

— Mas eu não te vi com ela...

— Já estavas dormindo, guando a pus na gaveta.

— Quem sabe se ficou naquela algibeira?...

E a manhosa, com um vislumbre, largou tudo de mão para correr a examinar a roupa de cabide.

— Ó filha! Eu não estava bêbado quando me recolhi! observou Amâncio.

E tocou para o banheiro traçando furioso o lençol em volta do corpo, num gesto melodramático.

Quando tornou ao quarto, Amélia já havia arrumado as gavetas e dispunha sobre a cama a roupa que o rapaz devia vestir á volta do banho.

— Então?... perguntou ele, ao entrar.

— Nada! volveu ela, com admiração na voz.

— Com efeito! Isto contado não se acredita!... rosnou Amâncio, enfiando as meias.

E gritou para fora:

— Ó Sabino! Olha essas botas, moleque!

Amélia, ao lado, metia-lhe os botões numa camisa engomada.

E depois, a escovar-lhe o paletó no corpo, quando o estudante já estava ao ponto:

— E a carta, de quem era?...

— De Campos, respondeu ele, sem hesitar.

E saiu. Amélia acompanhou-o pelas costas com um riso de asco.

E logo que se viu só, tirou do seio o seu furto e releu-o mais uma vez.

— Que devia fazer daquela carta?... como se devia servir daquela arma?... Denunciar o infame? — atirar-lhe à cara a prova de sua vilania e nunca mais o procurar para nada, ou devia simplesmente fingir que não sabia de coisa alguma, e em segredo, tomar a vingança que lhe parecesse melhor?

Despedi-lo por uma vez — não convinha! isso nem por sonhos! Ficar, porém, eternamente resignada e submissa, também seria asneira!

Seu amor-próprio estava mordido e sangrava. O procedimento desleal de Amâncio assumia no tribunal egoístico de seu espírito ignorante e mal-educado as proporções jurídicas de um crime, de um monstruoso abuso de confiança, um estelionato. Não se podia conformar com a idéia daquela tremenda injúria, lançada contra os seus direitos de mulher nova e bonita.

— Canalha! murmurava consigo, a esmoer o fato. — Bem me dizia o coração!... Agora, o que precisavas que te fizesse, sei eu! Ah! Mas descansa que hás de pagar com a língua de palmo! para não seres cão, meu safardana!

Foi-se, porém, todo o dia, sem que Amélia deliberasse o destino que deveria dar à carta. Só na manhã seguinte apareceu-lhe uma resolução.

For ter com o mano, chamou-o de parte e entregou-lhe.

— Vê isto, disse.

Coqueiro abismou-se logo desde as primeiras palavras: "Minha adorada e incompreensível Hortênsia."

— Que vem a ser isto?... perguntou ele intrigado.

— Lê! Respondeu ela.

E, enquanto o irmão devorava o que vinha escrito:

— Vê tu só a hipocrisia daquele sonso!...

— Ele já sabe que esta carta está em teu poder? interrogou Coqueiro depois da leitura.

—Qual! nem pode descobrir!

— Ainda não deu pela falta?

— Já. Zangou-me um bocado, arrepelou-se, mas afinal creio que se convenceu de que a tinha perdido.

— E agora o que tencionas fazer disto?

— Não sei... Que achas tu?...

— Acho que por ora não convém fazer nada.

— Calar-me?!

— Por ora, decerto! Esta carta pode vir ainda a servir-te de muito, mas é preciso que, em primeiro lugar, apareça a ocasião. Se quiseres, deixa-a comigo, que eu sei o destino que lhe devo dar.

E guardou-a no bolso depois de um gesto aprobativo da irmã.

— Ele a teria escrito de novo e feito chegar às mãos de Hortênsia, sabes?...

— Não sei, mas posso ver.

— Bem. Em todo o caso, não te dês por achada! Nem uma palavra a este respeito! Precisamos dar tempo ao tempo... podes, todavia, ficar desde já tranquila, que o que tem de ser — traz força! A justiça não se fez para os cães!...

— É por isso mesmo que eu não confio muito na tal justiça! observou a rapariga.