Como és bella, creancinha

(Como és bella, creancinha)
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


A UMA MENINA.


Dedicado

Ao Illm.º Sr. F. T. Lobo Junior.


Como és bella, creancinha,
No teu dormir innocente,
És tão meiga, és tão lindinha
Nesse arfar tão docemente!
Semelhas á linda flôr
No albôr,
Com primôr,
Entre-abrindo brandamente:

És tão bella,
Qual estrella
A brilhar no céo — fulgente!

És qual limpida corrente,
Mimosa e bella e pura,
Que rebenta docemente
D’um rochedo em grande altura.
És o orvalho matutino
Gottejando,
Rorejando,
Sobre viçosa verdura:
És a aragem
Na folhagem
Bafejando-a com doçura.

És farol, és doce guia,
No teu dormir innocente,
De quem á meiga poesia
Se ha voltado e não desmente
A verdade e melodia
Que na lyra
Só respira,
Só respira magamente.
Que Poeta,
Qual Profeta,
Canta d’alma, e nunca mente.

És singella, alva pombinha
Repousando em tronco annoso,

Quando a sós, e coitadinha
No seu ninho tão mimoso
Outra pomba a acarinha
Com candura,
Com duçura,
Em seu somno d’almo goso:
És como ella,
Meiga e bella
Neste encanto primoroso.

És o suspiro da vaga
No seu longinquo morrer,
Que lentamente divaga
Na encosta que vae bater.
És a saudade da vida
Tão querida,
Já volvida,
Já volvida em meu viver.
És espr’ança
De bonança
De quem da vida descrer.

Tu és tudo, e mais ainda
De teus Pais és dôce encanto,
Qu’imprimiram em face linda
Innocencia em brilho tanto.
Que em mago e doce enleio,
D’amor cheio,
Casto seio
Recebe o meigo pranto,

Quando choras
E descóras,
Envolta em ceruleo manto.

Cresce, cresce, flôr mimosa,
Nesse teu desabrochar;
Nunca a vida desditosa
Em ti possa penetrar,
Nunca os rigores da sorte
Desesp’rada,
Malfadada
Possa bárbara mirrar
Essa flôr
De primôr
Qu’expontanea se pousou
Na minha lyra d'amôr,
Qu’este canto m’inspirou!


Rio de Janeiro, 29 d’Abril de 1849.