Como Cascavel perdeu Cafelândia

Todo distrito emancipado desfalca o Município,Editar

mas Cafelândia foi uma perda inestimávelEditar

Os primeiros moradores da atual sede de Cafelândia, ao chegar para se estabelecer no local ainda nos tempos do ciclo da erva-mate, não encontraram um sinal muito promissor do grande desenvolvimento que viria a partir da década de 50 do século passado. Ali eles se depararam com um símbolo de morte, que poderia até causar má impressão a quem chegava com tantas esperanças de progresso e confiança no futuro: à beira de um riacho eles encontraram uma urna mortuária abandonada pelos ervateiros paraguaios. Esse achado impressionou tanto que o lugar começou a ser conhecido justamente pelo nome de “Caixão”.

Caixão, portanto, foi o nome que aquele ataúde fúnebre deu ao rio e denominação que também se estenderia ao futuro povoado. O local, até então, como todas as localidades que se formariam a partir de então – como já havia acontecido com Cascavel, Toledo e vários outros futuros aglomerados urbanos –era desde o século XIX um simples “pouso”, ou seja, um acampamento de passagem dos ervateiros.

Os primeiros habitantes fixos da localidade de Rio Caixão, superado o ciclo do mate, eram safristas, ou seja, criadores de porcos que combinavam a suinocultura com as plantações de milho. Ainda não eram os descendentes de imigrantes, mas os caboclos que formavam os primeiros povoados do interior do Oeste paranaense.

As margens do rio Caixão começaram a receber a partir de 1948 colonos provenientes de Erechim (RS), que gostaram do lugar mas não do nome que a vila ganhou, derivado do rio, mudando-o para Cafelândia, já que, nessa época, havia grandes plantações de café na região e o Paraná já se destacava como produtor da rubiácea. Em 1954 a comunidade de Cafelândia começou a progredir de forma irreversível, erguendo sua capela religiosa e abrindo a primeira escola. Era um começo efetivo de vida urbana. Os tempos do “pouso” de Rio Caixão estavam definitivamente superados.

Com as alterações no sistema de vida rural e o ingresso de ousados capitalistas que viram no campo um filão precioso a ser explorado – os atravessadores –, acumularam-se uma série de dificuldades que sugeriam aos agricultores a impossibilidade de continuarem produzindo e negociando sua produção de forma isolada.

Assim, surgia em 23 de outubro de 1963 a Cooperativa Agrícola Consolata, no já distrito cascavelense de Cafelândia. Constituída por um esforço hercúleo de padre Luiz Luíse, era o embrião da atual Copacol.

“A situação dos pobres agricultores era dura e precária”, lembrou o padre Luiz Luíse para a Memória Histórica de Cascavel, em 1979. “A terra de Cafelândia do Oeste em geral era muito generosa com os colonos, mas os atravessadores abusavam dos agricultores até lográ-los, sangrá-los e matá-los. Os cereais em geral e também os suínos valiam bem pouco. Em 1963 eu já tinha uma boa experiência no cultivo agrícola e da criação de animais, pois no Patronato São José de Erechim trabalhei e lidei com isto. Além do resto, fui presidente da Associação Agropecuária de Erechim e conhecia bem as dificuldades dos pequenos agricultores. Vendo, em Cafelândia, a situação dolorosa dos bons colonos, pensei em ajudá-los, fundando a Associação Agropecuária Cafelândia em julho de 1963, porém não consegui legalizá-la, visto que em Cafelândia existia uma filial da Associação Agropecuária de Cascavel. Não sabendo o que fazer para salvar os colonos, escrevi um relatório ao deputado Lyrio Bertoli. Ele levou ao conhecimento do presidente do Brasil, João Goulart, os problemas dos agricultores. Foi assim que o presidente encarregou o próprio Lyrio Bertoli de chefiar e acompanhar uma missão composta do próprio chefe da Casa Civil da Presidência, um coronel e mais dois técnicos em cooperativismo do Ministério da Agricultura, para vir a Cafelândia e verificar a situação crítica dos colonos. Isto deu-se no mês de agosto de 1963”.

Luíse, Picoli e TolentinoEditar

Ao pedir socorro ao deputado Lyrio Bertoli, o padre Luiz Luíse apertou a tecla certa. A família Bertoli tem tudo a ver com a transformação de Rio Caixão em Cafelândia. Honoríbio Tomaz foi o primeiro colono sulista a chegar, vindo de carroça via Campos de Palmas. Depois vieram Daniel Perboni, Francisco Krachuski, Benito Fernandes e João Cruz. Também vieram as famílias Círico, Maltezo, Oening, Martins, Roecke, Estekotter, Esser, Petry e uma centena de pioneiros.

Em 1951 vieram as famílias de Fioravante e Guerino Motter e Germano Alba, vindos de Erechim (RS). Nesta mesma época chegaram da cidade catarinense de Taió as famílias de Ovídio Pianezzer, Caetano e Gregório Squizatto.

“A maioria”, recorda Lyrio Bertoli, “oriunda do Alto Vale Itajaí-Açu, em Santa Catarina, da região de Taió, , Ribeirão Grande (hoje Salete), Rio do Campo e arredores”. Toda aquela região tinha sido colonizada pelo catarinense Luiz Bertoli Senior, avô do deputado. Outras famílias vieram do Norte do Rio Grande do Sul, especialmente de Erechim.

A onda na época era plantar café. A terra roxa era propícia, o preço era bom e em São Paulo e no Norte do Paraná havia gente enriquecendo com a rubiácea. Mas as geadas vieram fortes e freqüentes e Cafelândia não se enquadrava no mapeamento das regiões favoráveis. Restou só o nome: terra do café.

Em 1953, o lugar já contava com quarenta famílias, quando recebeu a primeira visita daquele que seria seu grande mentor: o padre Luiz Luíse. Distrito de Cascavel, Cafelândia d’Oeste ganhou uma subprefeitura em outubro de 1961 e se elevou a Distrito Judiciário em dezembro de 1962, com denominação simplificada para Cafelândia.

O maior combatente pela emancipação de Cafelândia, lado a lado com as lideranças locais, foi Luiz Picoli, também proveniente do Norte gaúcho, mas quem conseguiu a emancipação foi o deputado Fidelcino Tolentino, que depois, já prefeito de Cascavel, facilitou o início do novo Município. O plebiscito se deu em 1979, a criação do Município a 29 de dezembro desse mesmo ano e o novo Município se instalou a 1º de fevereiro de 1983.

(Fonte: Alceu A. Sperança - Jornal O Paraná, dezembro de 2005)