Concurso para a cozinha

Concurso para a cozinha
por Lima Barreto
Crônica publicada em Vida Urbana


Na Escola Rivadávia Correia realizou-se na semana passada, sendo examinadas as cinco candidatas da primeira turma e muitas outras, um concurso para contramestra de cozinha.

Aprovo o alvitre, tanto mais que verifico que são muitas as candidatas. Na notícia que li, há cerca de dez nomes.

Com prazer verifiquei que a vocação da mulher para a cozinha ainda não foi morta pela de auxiliar de escrita da estrada de ferro.

O número das que se inclinam para o forno ainda não é menor do que aquelas que se sentem atraídas pela máquina de escrever do doutor Assis Ribeiro.

Prefiro as últimas, às primeiras. Não há como um bom pitéu bem temperado. Um tutu de feijão com um bom molho de tomates, cebolas e vinagre, seguido de uma carne seca picadinha, vale mais do que qualquer ofício limpo, redigidinho naquela pobretona literatura oficial, sem calor nem gosto.

Não há quem possa negar isto; e muita gente tem escrito sobre as excelências da cozinha. Brillat-Savarin escreveu um tratado que ainda é lido, mais do que muitas obras solenes e científicas que ficaram às traças.

O destino das nações, diz ele, depende da maneira que elas se nutrem; e só os homens de espírito sabem comer.

Pois se é assim, agora que todos nós, inclusive o chefe do executivo, pretendemos criar de novo uma nação forte-cheia de inteligências, não há nada mais precioso que os poderes públicos se preocupem com a cozinha, formando mestras dela sábias e proficientes.

Semelhante iniciativa deve provir da firme disposição em que está o público brasileiro de fazer disto aqui um novo Estado Unidos da América do Norte.

Já começamos pela cozinha e havemos de chegar à sala de visitas, graças a Deus, thanks giving day!

Tomo porém, licença de notar que não podemos ficar no feijão, na carne seca... Esta está pela hora da morte!

Conto uma história:

Certo dia fui jantar com um amigo rico e ele me deu este caro menu:

Sopa de legumes;

Carne seca frita e pirão;

Bacalhoada à portuguesa, com quiabos e maxixes.

Antes de nada, ele me disse:

— Não repares! Só estes quiabos custaram-me um vintém cada um.

Comi muito e, lembrando-me do fato de agora, da mestra de cozinha, tenho medo que, aperfeiçoando-se muito a cozi­nha, nós não podemos mais comer... Enfim!

Careta, Rio, 22-11-1919.