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Da pulga e mosquito
por António Marques Lésbio
Romance publicado na décima oitava Academia dos Singulares, em 19 de fevereiro de 1665.


Mandam-me que em um romance
descreva qual mais me enfada,
se um mosquito sacabuxa,
se uma pulga secretária.

Dizer de sua justiça
aos delinquentes se manda,
mas dizer dos delinquentes
só a mim se me mandara.

Muitos dizem o que entendem,
e a fé que não dizem nada,
porém eu digo o que sinto,
e disto sei o que basta.

Melpómene se alguma hora
andaram nas tuas abas,
ou de pulgas a caterva,
ou dos mosquitos a praga.

Dá-me uma veia picante,
porém não veia picada,
que de chanças estar quero
com quem já estive de chanças.

Mas já contra o meu romance
a censura vejo armada,
porém se trata de pulgas,
que muito que leve unhadas.

Menos me molesta a pulga,
pois quando à orelha se agarra,
presumo que pode vir
do seio de alguma dama.

Que inda que me faça touro,
estando à orelha filada,
faz o que podem fazer
muitas mulheres honradas.

Em solicitar o ouvido
é lisonja, e não matraca
pois me vem dizer à orelha
o que no mundo se passa.

Eu tive na orelha pulga,
que me disse cousas tantas,
que fiquei como aturdido,
dando mil voltas na cama.

Muitos há que em vendo a pulga
em a orelha encaixada,
como se fosse delito,
lhe cospem todos na cara.

Mas eu porque me parece
borboleta namorada,
a deixo buscar a cera,
se é que em minha orelha se acha.

Demais que as prendas da pulga
são muito para estimadas,
pois se passa em um instante
desde Sofala a Cuama.

Quando as orelhas me ocupa,
servindo-me de arrecada,
me parece que estou feito
el-rei de Monomotapa.

De mais que ouvi dizer sempre,
que era a pulga abençoada,
pois o benzer do pulgão
é cousa muito ordinária.

Só uma cousa se nota
neste espírito de nácar,
que tendo sangue cristão,
se vá a viver na Holanda.

Porém é tão advertida,
porém é tão recatada,
que logo se faz vermelha
em lhe descobrindo as faltas.

Mas o tremendo mosquito,
cupido cruel das caras,
disfarçado alfange em nihil,
raio revestido em nada,

Me atormenta mais que tudo,
e mais que tudo me enfada,
pois é todo delasado,
quando parece ter asa.

Quando este me solicita,
então me ofende, e me agrava,
pois presume sou a pipa
da presidência passada.

Falsete quase invisível,
que facistol faz das caras,
e cantando com bom pico,
com bem pouca graça canta.

Este que quando me ofende,
é com tal arte e tal traça,
que em vez de vingar-me dele,
tomo em mi mesmo a vingança.

Este ceitil dos viventes,
este dos bichos balala,
que qualquer picada sua
não custa caro, mas cara,

É campana de Belilha,
pois em tocando a campana
anuncia mil desdichas,
prognostica mil desgraças.

Vejam pois se direi mal
do mosquito com tais causas,
ou se da pulga, que enfim
dorme comigo na cama.