Dona Guidinha do Poço/I/II

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo II


Estava-se em fevereiro, e nem um pingo de água. O poço da Catingueira, o mais onça da ribeira de Banabuiú, que em 1825 não pôde esturricar, sumia-se quase na rocha, entre as enormes oiticicas, de um lado, e do outro o saibro do rio. Era um trabalhão para os pobres vaqueiros: aqui, alevantar uma rês caída; ali, fazer sentinela nas aguadas a fim de proteger o gado amofinado contra a crueldade do mais forte; e, todos os dias que dava Nosso Senhor, cortar rama. E ainda tinham de percorrer constantemente as veredas e batidas para acudir prontamente à rês inanida de fome e sede, perseguir os porcos que algum desalmado vizinho teimava em criar, persegui-los a bala, porque o torpe cabeça-baixa impestava os bebedouros.

Era preciso o vaqueiro da Guidinha tornar-se ubíquo, para o que ocupava os seus filhos e alguns escravos do amo. O boi com a vista do homem parecia reanimar como se tivera consciência de que ambos padeciam sob a indiferença do mesmo céu.

E estão, só ali, no espaço de três léguas, cinco fazendas. Ajuntem a isto as retiradas, que procedem do sertão do Canindé, do Quixadá, e de tantos outros, e vejam se é possível em tão pouca terra, com tão pouca rama e pouca água, ter o bastante para tanta boca.

Além da sequidão, o mal, desenvolvido na bebida infeccionada pelos amaldiçoados paquidermes e pelo contágio doentio da rês viajada. Só o Major Quinquim Damião do Poço da Moita perdera, até ali, cinqüenta vacas amojadas, isso apesar dos vaqueiros passarem todo o dia a tratar do gado. Quanto mais não perdiam os outros que não se apuravam tanto?

Fizeram-se todos os remédios para chover. O vigário da freguesia, cuja sede ficava a três léguas e um quarto, além das preces que a Santa Madre Igreja aconselha, consentiu que o povo, em procissão, mudasse a imagem de Santo Antônio da matriz para a capela de Nossa Senhora do Rosário, que era o melhor jeito a dar para Deus Nosso Senhor ensopar a terra com água do céu. Todavia, apesar de as seis pedrinhas de sal, da noite de Santa Luzia, 13 de dezembro, terem marcado inverno para fevereiro, o dito céu permanecia implacável.

Entrou março, novenas de São José.

O calor subira despropositadamente. A roupa vinha da lavadeira grudada do sabão. A gente bebia água de todas as cores; era antes uma mistura de não sei que sais ou não sei de quê. O vento era quente como a rocha nua dos serrotes. A paisagem tinha um aspecto de pêlo de leão, no confuso da galharia despida e empoeirada, a perder de vista sobre as ondulações ásperas de um chão negro de detritos vegetais tostados pela morte e pelo ardor da atmosfera. As serras levantavam-se abruptamente, sem as doces transições dos contrafortes afofados de verdura.

Serrotas pareciam umas cabeças de negro peladas de caspa. Ao meio-dia a cigarra vinha aumentar a impressão ardente. Os bandos de periquitos e maracanãs atravessavam o ar, em busca do verde, espalhando uma gritaria desoladora, sem um acento de úmida harmonia, sem uma doce combinação melódica, no ritmo seco, árido, torrefeiro, de golpes de matraca. O viajante, ao caminhar por algum souto de angicos e paus-d'arco, sem uma folha, penetrava instintivamente com o olhar por entre os troncos e garranchos com uma sede, já não de água, mas de uma notazinha vibrada por goela de pássaro cantor. Lá uma rolinha, lá um quenquém apenas piando.

O pobre emigrava como as aves, que vivem ambos do suor do dia. Eram pelas estradas e pelos ranchos aquelas romarias, cargas de meninos, um pai com o filho às costas, mães com os pequenos a ganirem no bico dos peitos chucados - tudo pó, tudo boca sumida e olhos grelados, fala tênue, e de vez em quando a cabra, a derradeira cabra do rebanho, puxada pela corda, a berrar pelos cabritos.

Margarida era extremamente generosa para os retirantes que passavam pela sua fazenda. O que lhes pedia era que não ficassem; dava-lhes com que se fossem caminho fora a procurar salvação nas praias, que era só para onde a Rainha olhava. Tinha duas escravas incumbidas unicamente de servi-los, já a dar leite cozido às criancinhas, já a passar na água alguns molambos que as pobres mães não tinham força para lavar, agora a armar-lhes redes no telheiro da casa de farinha, agora a fornecer-lhes carne-seca, farinha e rapadura.

Mas que se fossem pelo amor de Deus! Bem sabia ela que dois dias depois o retirante se tornava agregado. E agregado para quê?

Em vindo o inverno, arribavam todos para os seus sertões, e adeus minhas encomendas. Além disso, gente de toda a parte, até do Rio Grande do Norte e Paraíba, e quem sabe quantos assassinos?

O marido levava a mal aquela prodigalidade caritativa, mas lho fez ver em muitos bons termos, com umas delicadezas de quem quer bem.

Margarida calou-se; e continuou, na expansão natural de uma vontade sua. Até, pelo contrário, parecia tornar-se mais mãos abertas para com os famintos. Terceira admoestação do marido. Então ela voltou-se-lhe friamente:

— Eu dou do que é meu.

— E agora, Senhor Quinquim, que responder-lhe? - murmurou consigo o major. Ela dá do que é seu! Dá do que é seu!

Era a primeira vez que a mulher lhe falava com menos respeito. Se arrependimento salvara... Mas para que a provocou? Para que a atacou de frente? Bem lhe conhecia a índole. Margarida era como um palácio cuja fachada principal desse para um abismo. Só havia penetrar-lhe pela insídia, pelas portas travessas.

O homem quando a desposara possuía apenas alguns vinténs de seu. Reconhecia que para viver com a mulher precisava de ter uma certa habilidade, faculdade essa que lhe era porém inacessível. Amara à Margarida em demasia, creio, e o vigor nervudo e musculento da herdeira do marinheiro Reginaldo Venceslau era como um moirão a que o Senhor Quinquim se deixara gostosamente sujigar.