Em Tradução:A Arte da Guerra/XI

Sun Tzu disse:

1 Quando se equipa um exército de cem mil homens e se envia para uma campanha distante, as despesas compartilhadas pelo povo e pelo Tesouro ascendem a mil peças de ouro diárias. Haverá nervosismo no meio do povo e fora dele, as pessoas esgotar-se-ão com as constantes requisições para trabalhos de carga e a vida de setecentos mil lares alterar-se-á.

2 Aquele que durante anos confronta o inimigo em busca de vitória numa batalha decisiva, mas que, por cobiçar postos, honrarias e peças de ouro, se mantém na ignorância da situação do adversário, é destituído de qualquer tipo de humanidade. Tal homem não é general, nem qualquer apoio para seu soberano, ou "mestre da vitória".

3 A razão por que o príncipe iluminado e o general sabedor vencem o inimigo sempre que se deslocam e os seus feitos ultrapassam os dos homens vulgares está na sua presciência.

4 Aquilo que se chama "presciência" não advém nem de espíritos ou deuses, nem da analogia com ocorrências passadas ou de cálculo. É obtido através de homens conhecendo a situação do adversário.

5 Há cinco tipos de espiões a poderem ser empregados: nativos, internos, duplos, dispensáveis e vivos.

6 Quando estes cinco tipos de agentes atuam simultaneamente e ninguém lhes conhece o modo de operar, são chamados a "meada divina", constituindo um dos tesouros do soberano.

7 Os agentes nativos são os naturais da própria terra inimiga que nos servem.

8 Os agentes internos são os oficiais inimigos que nos servem.

9 Os agentes duplos são espiões inimigos que nos servem.

10 Os agentes dispensáveis são espiões nossos aos quais são deliberadamente fornecidas informações erradas.

11 Os agentes vivos são aqueles que voltam com informações.

12 No exército, entre todos os que estão próximos do comandante, nenhum lhe será mais íntimo do que os espiões. Ninguém terá melhores prêmios do que eles. De todos os assuntos, nenhum será mais confidencial do que aqueles com as operações secretas correlacionados.

13 Quem não for sábio e espero, humano e justo, não pode servir-se de espiões. Também quem não for for delicado e sutil nunca conseguirá deles toda a verdade.

14 É engenhoso! Verdadeiramente engenhoso! Não há lugar onde a espionagem não tenha sido aplicada.

15 Se os planos relativos a operações secretas são prematuramente divulgados, o agente e todos com quem ele falou devem ser executados.

16 Em geral, quanto aos exércitos que queres vencer, às cidades que queres tomar e às pessoas que queres assassinar, pretendes conhecer os nomes dos comandantes da guarnição, dos oficiais de Estado-Maior, dos escudeiros, dos zeladores das entradas e dos guarda-costas. Tens de instruir o teu agente minuciosamente quanto a esses pormenores.

17 É fundamental desmascarar os agentes inimigos que te espiam e tentar, subornando-os, faze-los passar para o teu lado. Dá-lhes instruções e cuida bem deles. Assim se recrutam e utilizam agentes duplos.

18 É por intermédio de agentes duplos que se recrutam e empregam os agentes nativos e internos.

19 E é por este meio que podes enviar agentes dispensáveis, munidos de falsas informações, misturados ao inimigo.

20 É também pelo mesmo meio que nas ocasiões próprias usamos agentes vivos.

21 O soberano deve conhecer completamente todas as atividades dos cinco tipos de agentes. O conhecimento deve nascer dos agentes duplos, que, necessariamente, serão tratados com toda a prodigalidade.

22 No passado, o crescimento de Yin deveu-se a O Chih, que primeiramente servia Hsia. Chou atingiu o poder por meio de Lu Yu, um criado de Yin.

23 Dessa maneira, apenas o governante esclarecido e o general criterioso usarão as mais dotadas inteligências do exército para a espionagem, obtendo, desta forma, grandes resultados. As operações secretas são básicas na guerra, pois delas dependem todos os movimentos dos exércitos.