Eneida Brazileira/Notas ao Livro II

Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro II


     

Este livro por Macrobio foi tachado de furto a certo Pisandro, autor desconhecido, e que o não seria se houvesse composto uma narração, que nem em Homero se encontra igual. «Macrobio, reflecte Mr. Villenave, aqui se assemelha ao jesuita Hardouin, que, em suas estranhas opiniões ácêrca das obras de Horacio e de Virgilio, as quaes attribuíra a monges da meia idade, dizia, para justificar tam incriveis asserções: «Credes vós que eu me levanto todas as manhãs ás tres horas para nada dizer de novo?»

15. — 17. — «Contentemo-nos, diz o mesmo autor, de admirar a arte com que Virgilio, abandonando a verosimilhança historica, quiz estabelecer a verosimilhança poetica, bastante para a epopéa, por todos os meios a seu alcance. Faz intervir: 1º a religião: o cavallo de madeira era um voto; 2º os prodigios: Laocoon expira miseravelmente com seus dous filhos, entre as constricções das duas serpes vindas de Tenedos; 3º os artificiosos discursos do perfido Sinon; 4º o destino, que fascina o espirito e olhos dos Troianos.» Esta tradição, anterior a Homero, tem sido variamente interpretada: veja-se La Rue, ou antes M. Villenave, cuja crítica resume e ajuiza as opiniões excellentemente.

53. — 58. — Insonuere cavae gemitumque dedere cavernae he bello pela harmonia imitativa; ha comtudo um vicioso pleonasmo, que o ouvido não sente no latim, mas seria insupportavel no portuguez. Se cavae cavernae vertessemos cavas cavernas, a approximação do nome e do adjectivo faria perceber que caverna já he um lugar concavo, e sobresahiria o vício do pleonasmo.

57-58. — 63-64. — Com outros criticos, diz Mr. Villenave: «Depois de um cêrco de dez annos, havia ainda pastores no campo de Troia? Tam arruínado estava, que Ulysses e Palamedes eram obrigados a ir á Thracia buscar víveres para o exercito grego.» Por mais estragado que estivesse o campo troiano, não era a ponto de faltarem víveres aos cercados; o que suppõe a existencia de pastores e lavradores, ao menos por onde ainda não tivesse abrangido o assedio. Se já não houvesse nas vizinhanças da cidade seis ou oito camponios, número mais que sufficiente para prender Sinon, ella então se teria rendido pela fome: ao contrário, com tantos recursos estava, que, desesperando os Gregos da efficacia do cêrco, recorreram a um estratagema e a uma traição. Quanto a irem Ulysses e Palamedes buscar víveres á Thracia, o facto não suppõe necessariamente a carencia de pastores: he natural que os mantimentos que houvesse, fossem passados á cidade, pelos meios occultos que os filhos de um paiz conhecem: os Gregos, não os tendo em assás quantidade, iam procural-os mais longe.

195-196. — 199. — «La crédulité des Troyens, discorre Mr. Tissot, est une invraisemblance sans excuses. On la pardonne à peine dans Virgile, malgré les savants efforts que le poëte a faits pour la justifier, en la rendant vraisemblable par l'éloquence de Sinon et par le mouvement qu'elle excite.» Não alcanço a razão da censura, quando o censor confessa que l'accent du coeur est imité avec une vérité qui fait frémir, que il y a tout un traité d'éloquence dans le discours de Sinon, e que jamais on ne vit un tel triomphe de l'art de persuader en trompant. Mr. Tissot, que tem vivído em tempos difficeis, deve ter observado como se deixa a multidão levar de discursos os mais illogicos e futeis; porque pois estranha que este, no qual se contêm um tratado de eloquencia, fizesse tamanho effeito nos Troianos, sendo poderosamente ajudado pelo prodigio das duas serpentes? A morte de Laocoon, o irem-se as taes serpentes recolher sob a egide mesma de Pallas, como se foram executoras da vingança da deusa, junto á fôrça do discurso onde havia un tel triomphe de l'art de persuader en trompant, devera produzir na chusma a impressão que produziu. Capys queria examinar o cavallo e deital-o ao mar; porêm em taes casos mais vence a superstição que o bom conselho. Estou com Delille, o qual pensa: «Qu'il est plus aisé de tromper une nombreuse foule qu'un seul homme d'un sens droit: Sinon n'eût pas trompé un agent de police, mais la populace aurait été sa dupe.» E accrescente-se que naqueles tempos talvez se deixasse illudir a mesma polícia; poisque esta insigne arte não tinha chegado ao apuro a que, em França principalmente, se acha elevada.

198. — 201. — Mr. Jal, que demonstra[1] a precisão com que Virgilio usa dos termos maritimos, quer que onde o autor diz puppis o traductor diga pôpa e não nau, e que haja o mesmo cuidado com as palavras prora, carina, com os nomes dos differentes ventos; poisque o poeta emprega sempre as vozes proprias, e quando se serve do figurado, por synedoche, he porque a parte mencionada he a principal na acção. Depois do estudo que fiz da materia, conclui que um traductor da Eneida deve recorrer á obra deste sabio para não se enganar ao verter o que diz respeito á marinha. Ora, Mr. Jal opina que o termo carina nem mesmo se pode tomar pela quilha, mas infallivelmente pelo casco ou buco do navio. Que se não tome carina por nau, vou de accôrdo, e tambem que se não tome por quilha, para exprimir a qual tem os Latinos a phrase trabs ima; postoque neste segundo sentido pareça mais admissivel o emprêgo de carina, como se vê no verso de Lucano: Nubila tanguntur velis, et terra carina. Não dissimúlo que neste exemplo pode-se tomar carina por casco do navio; mas parece que Lucano a tomou aqui por quilha, porque esta pode tocar de leve no fundo sem se quebrar a embarcação; a qual se quebraria no caso do casco tocar na terra, vistoque então a quilha teria penetrado mais profundamente. Aqui traduzi mille carinae por quilhas mil, não tanto pelo que fica dito, quanto por uma razão peculiar da lingua portugueza, que passo a expôr. Para exprimir o carina em latim, em francez carène, temos casco ou buco; mas buco toma-se mais vezes pelo bôjo do navio do que[2] pelo casco por fóra, e casco tem o inconveniente de significar mui diversas cousas: casco he o capacete, casco he qualquer vaso de tanoa, casco he o craneo, casco he a concha de certos animaes, casco he a casa sem móveis; toma-se figuradamente por juizo ou siso, e ainda em outras accepções. Para se conhecer logo se he tomado por carene, he preciso que os antecedentes aclarem o sentido, ou, do contrário, cumpre dizer casco do navio, a fim de se tirar a ambiguidade. Todo homem de gôsto vê que seria pessima a traducção de mille carinae por mil cascos de navios; a longura da phrase esfriaria tudo; e mil cascos podia significar mil capacetes. Os nossos escritores, tanto em prosa como em verso, para evitarem ou a longura ou a ambiguidade, adoptam muitas vezes o termo quilha, não só no sentido proprio de trabs ima, porêm igualmente no mais extenso de casco; e, quando querem fallar da quilha sem as obras do costado, chamam-na quilha limpa.

224-225. — 229-230. — Segundo o autor dos[3] Études sur Virgile, vem esta comparação interrompre un moment le plaisir douloureux d'une terreur si profonde, et nous désabuser en nous montrant le poëte si bien caché jusqu'alors. Esta crítica parece bem fundada. Com Delille porêm deve-se admirar a ousadia da expressão excussit securim e a escolha do epitheto incertam. Por esta occasião tocarei na vantagem do estilo conciso: quem, não deixando escapar conjunção, o traduzisse em muitos versos, desfeiaria este lugar; tanto melhor o faria, quanto mais se resumisse. No poeta a comparação he tam rapida, que pouco empece o prazer daquella scena de terror.

255. — 261 — Por tacitae silentia Lunae entendo que o céo estava escuro, como se descreve quatro versos atrás. Futil he a objecção de Binet, que os Gregos haviam mister ser esclarecidos, não conhecendo a bússola, e sendo de temer os escolhos junto da praia: 1º porque só a falta de luar, não havendo cerração, nunca produz escuridade que impeça o navegar, mormente em paragem conhecida (litora nota petens); 2º porque he natural que o astuto Ulysses calculasse com uma noite escura para de Tenedos fazer partir a armada. Quando porêm digo escura, não se entenda de uma treva absoluta. Estavam bem aviados os navegantes se nos portos só podessem entrar ao clarão da Lua. A objecção de que Enéas não tardou a reconhecer os companheiros oblati per Lunam, he especiosa: os Gregos sim partiram de Tenedos pelo escuro, e assim abordaram; mas entre a sua chegada e a sahida de Enéas metteram-se algumas horas, poisque jà os da frota haviam feito junção com os do cavallo, tinham tomado todas as portas, occupado todas as ruas, incendiado varias casas; e Pantho, que de tudo fôra testemunha ocular, já tinha tido tempo de salvar os deuses e alfaias sagradas, e de vir á casa de Enéas em um retiro assás longe da cidade, onde apenas se ouvia o ruído dos combates. Nada implica pois que a Lua, não tendo apparecido no princípio, estivesse fóra ao tempo que Enéas reconheceu os companheiros. Do meu voto foram Annibal Caro e infinitos outros. O poeta rejeitou a dubia tradição de que Troia foi tomada em uma noite de plenilunio; adoptou aquillo que mais lhe convinha.

264. — 273. — Observa Delille que a enumeração dos guerreiros que sahem do cavallo se termina ingenhosamente pelo nome de quem o fabricou: et ipse doli fabricator Epeus. Neste caso convem empregar um verso agudo; o que demonstra o nimio rigor do preceito, que tirámos de alguns Italianos, de proscrever-se o uso do esdruxulo e do agudo. Os melhores poetas não tem á risca seguido essa regra; e taes versos, quando bem empregados, tem uma graça particular.

283. — 297. — Por não ser arguído de amar antigualhas, deixei de pôr fuge em vez de foge, á maneira de Camões. Neste passo faria mais effeito o som surdo da letra u. Virgilio mesmo nos fornece exemplos do uso dos termos antiquados em certas occasiões.

311-313. — 322-324. — Conservei a figura, tomando Ucalegon pela casa de Ucalegon. — Diz-se que então não havia trombetas, e que Virgilio segue a anticipação dos tragicos gregos; asserção ao menos duvidosa.

333-340. — 355. — Vou com Heyne, que lê maximus armis; pois, não obstante ser Iphito já velho, podia ser estremado nas armas; mas, se fôsse maximus annis, isto he de uma grandissima velhice, não podia vir em auxilio de Enéas. O jam gravior aevo do vers. 435-436, mostra menor idade do que maximus annis, dadoque o poeta se tivesse aqui servido desta expressão. 354. — 369-370. — Difficillimo tem parecido este lugar, por fugirem de o verter ao pé da letra: Mr. Villenave, que o fez, não deixa nada que desejar. Attente-se na vantagem que a nossa aqui leva á lingua franceza: Una salus victis, nullam sperare salutem, traduziu elle: Le seul salut pour les vaincus est de n'attendre aucun salut; eu pude dizer: Salvação para os vencidos uma, esperarem salvação nenhuma. A falta do verbo, que he de uma belleza no original, admite-se em portuguez, não em francez.

355-360. — 371-377. — Mr. Tissot reprova esta comparação, porque les loups furieux, affamés, perfides et cruels, sont les Grecs; mais je ne vois, diz elle, dans les Troyens que des héros qui veulent mourrir pour leur patrie en cendres. Aqui Virgilio, como em um lugar semelhante Homero, não compara os Troianos com os lobos em todas as suas más qualidades; compara sim a furia dos Troianos, quando entre armas e inimigos atravessam a cidade, com a raiva dos lobos que, já famintos, deixaram nos covis os cachorrinhos de guelas sêccas de fome: a comparação pois he com o furor e não com a perfidia e crueza destes animaes. — Os perluxos modernos só adoptaram o verso da sexta, ou da quarta e oitava longas; rejeitam o da terceira e oitava, ou da quarta e setima: o contrário praticaram Dante, Ariosto, Petrarca, Tasso, Alfieri, Camões, Sá de Miranda, Ferreira, Côrte-Real, Gabriel Pereira, Francisco Manuel e outros. Em geral, he mais doce o verso com o accento na sexta, ou na quarta e oitava, mas não devemos rejeitar o de qualquer outra medida, não só por variar, como principalmente para ás vezes pintar melhor a cousa. O verso da traducção De morrer certos, por dardos, por hostes, representa o per tela, per hostes, do original; e a rapidez com que marcha, pinta a rapidez e o afôgo dos que Enéas commandava. Antonio Deniz, em seus bellos dithyrambos, querendo pintar os saltos e a alegria, serve-se frequentemente deste metro. Estendo-me sobre a materia, por vêr que os poetas de hoje, á excepção de bem poucos, tem desconhecido a vantagem de variar a medida do nosso hendecasyllabo. — No 360 do original falla-se da atra sombra que circumvoa, apezar de que já tenha sahido a Lua: ora, como os soldados de Enéas cominhavam pelas diversas ruas da cidade, tortuosas e em differentes direcções, naturalmente a luz da Lua ia apparecendo e desapparecendo, segundo as vóltas das mesmas ruas; o que muito bem exprime o circumvolat, que aportuguezei.

381. — 399. — Na opinião de Delille, conforme com o bom gôsto, a palavra attolentem parece despregar a serpente em toda a sua longura: o desenrola as iras produz o mesmo effeito, e ha talvez mais arrôjo na expressão. Mr. Nisard, fallando do purissimo Phedro, contra quem em suas arriscadas conjecturas se mostra não pouco injusto, o exila e quasi o colloca nos tempos da decadencia das letras romanas! dizendo que a isso o condemna par un emploi affecté et continuel de l'abstrait pour te concret, ce qui donne à sa poésie un faux air de prose, et change sa gravité en froideur: e, entre os exemplos que aponta para fundamentar a sua asserção, cita o coli longitudinem do li. I, fab. 16. Estou com Mr. Nisard na convicção de que he vicioso o continuado emprêgo do abstrato pelo concreto; mas, longe de pensar que empresta á poesia um falso ar de prosa, penso que he na poesia que mais vezes pode isso ter lugar, pois nella de certo melhor assentam as figuras. O exemplo do coli longitudinem foi mal escolhido: até hoje tem os criticos louvado esta expressão, porque longitudinem em que termina o verso, compondo-se de cinco syllabas, representa o comprimento do pescoço; e assim tem a mesma graça do attolentem iras de Virgilio, do dilatadissimos caminhos de Basilio da Gama, prodigalidade de moedas de Ferreira. Os Francezes tem sempre na mente o seu La Fontaine quando fallam de Esopo e de Phedro, e no gabar a excellencia do poeta nacional, como que dam pouca importancia aos innumeraveis emprestimos do fabulista moderno; e elles, que na comparação de Virgilio com Homero avaliam em muito menos o estilo que a invenção, na comparação de La Fontaine com os dous como que fazem mais caso do estilo. Se La Fontaine dos mesmos assumptos ás vezes tirou mais partido, não o deveu somente ao seu innegavel ingenho, mas tambem ao saber e á experiencia que tantos seculos amontoaram. Tornando á questão, o coli longitudinem, alêm da graça referida, encerra maior emphase do que pescoço longo; assim como na vulgar e chula expressão franceza pied-de-nez ha mais energia, do que se se dicesse nez d'un pied. A crítica de Mr. Nisard melhor assenta em alguns escritores da sua nação, e em não poucos Brazileiros e Portuguezes que, os imitando, não dizem mais um homem notavel, um homem illustre, e sim uma notabilidade, uma illustração.

403-406. — 422-425. — Note-se com que bom gôsto, imitando este lugar, muda Camões o epitheto ardentia: Virgilio chama ardentes os olhos da prophetiza Cassandra, a quem traziam arrastada; Camões chama piedosos os olhos de Ignez, que em lagrimas buscava commover a D. Affonso.

428. — 449. — Alguns interpretam dis aliter visum como um princípio de impiedade, havendo o poeta quatro versos atrás affirmado que nada ha seguro sem a vontade divina: Heu! nihil invitis fas quemquam fidere divis. Muitos, entre outros Chateaubriand, diceram com mais acêrto que Virgilio adivinhara o estilo christão; do que nestas palavras enxergo uma prova. Quantas vezes os christãos, ao referirmos qualquer infortunio acontecido a um homem virtuoso, exclamamos: altos juizos de Deus! Com isto não queremos significar que Deus foi injusto, mas tam somente que ignoramos as secretas causas dos seus decretos. Virgilio acatava a religião patria, bem que as lições mormente de Platão lhe tivessem despertado mais amplas idéas da divindade: em vez de se ir tornando impio, era o seu intento empregar tres annos em corregir as imperfeições da Eneida, para dar o resto da vida á meditação da philosophia platonica; paixão dominante em seus ultimos dias. Tratei pois de o traduzir neste sentido, como o fez João Franco.

460. — 483. — Sôbre a posição desta tôrre consultem-se as curiosas reflexões de Delille. Nella, segundo Mr. Villenave, he que Homero (Iliad., liv. III) mostra a Priamo, sentado com os anciãos de Troia, a perguntar a Helena os nomes dos capitães que destinguia no acampamento grego.

471. — 495. — Em duas comparações deste livro entra uma cobra; o que não he defeito, vistoque offerece cada comparação uma differente imagem. Na segunda a justeza he perfeitissima, e, como diz Binet, não contêm palavra inutil e applica-se inteiramente a Pyrrho: o joven heroe he tomado por seu pae Achilles resuscitado, levantando-se do túmulo com todo o valor a par de todo o brilho da juventude.

492. — 519. — «A difficuldade de traduzir Virgilio nasce muitas vezes de que elle nada observa a gradação necessaria á narrativa. Mostrou já o poeta a Pyrrho, de machado na mão, arrancando as portas dos seus gonzos: potesque a cardine vellit aeratos; e ao depois he o ariete que insiste em batel-as e as torna a arrancar dos mesmos gonzos: labat ariete crebro janua et emoti procumbunt cardine postes. Pyrrho pois só tinha abalado as portas, e assim he que se deve entender ou ao menos verter o verbo vellit. Ora, Mr. Mollevault, depois de dizer que Pyrrho arranca as portas dos seus gonzos de bronze, accrescenta que os redobrados esforços abalam as portas. Que! já tendo sido arrancadas, nem abaladas estavam! Assim, eis as portas arrancadas duas vezes, primeiro pelo machado de Pyrrho, e ao depois a golpes de ariete.» — Em cada palavra destas reflexões de Mr. Villenave ha um êrro. O palacio de Priamo tinha um vestibulo fechado, que offerecia uma primeira entrada, onde Pyrrho se postou: Vestibulum ante ipsum primoque in limine Pyrrhus; esta primeira porta he que elle fendeu a machado, arrancando-a dos seus gonzos. Feita a brecha, appareceu o palacio interno e longos pateos se manifestaram: Apparet domus intus et atria longa patescunt. Ainda mais dentro (domus interior) ouviam-se prantos e gemidos. Pyrrho continúa (instat vi patria Pyrrhus); não ha barreiras que o sustenham; com o vaivem faz abalar a porta principal do palacio interno, e desmantela os portaes. Basta lêr com um pouco de cuidado para conhecer-se o descuido imperdoavel do crítico: o portão do vestibulo não he o mesmo que a porta principal (janua) da morada régia, onde se achava uma guarda. — A difficuldade de traduzir Virgilio não vem muitas vezes de que elle nada observa a gradação necessaria á narrativa: nasce da ousadia das suas imagens, da ignorancia de grande parte dos usos antigos, da perfeição do seu estilo; nasce da indole diversa de cada lingua, pois o que vai bem n'uma nem sempre cahe tam bem em outra; nasce emfim de nós mesmos, que não temos tanto talento para o verter quanto houve o poeta para compôr. Não ha escritor nenhum, em verso ou em prosa, entre os antigos e os modernos, que observe melhor a gradação necessaria á narrativa, e he rarissimo o lugar onde por uma tal falta o devamos reprehender: as mais das vezes[4] he de proposito que elle parece faltar a essa gradação; do que tirarei um exemplo deste mesmo livro II. Quando Enéas vê dispostos os amigos a atacar os Gregos apezar do número, faz uma[5] falla breve, nunca excedida por algum orador ou chefe militar, e assim a termina: «Succurritis urbi Incensae: moriamur, et in media arma ruamus; Una salus victis, nullam sperare salutem.» Ora, quem morre não pode romper os inimigos; parece que a ordem das idéas pedia: «In media arma ruamus, et moriamur.» O heroe porêm, a quem se apresenta a morte como infallivel, não recúa diante do seu aspecto, e diz: «Morramos embora, mas ataquemos o inimigo.» Esta como desordem na gradação mostra a rapida successão das idéas que elle comparava e combinava. Enfiai aqui as palavras como no padre nosso; a energia e a graça desapparecem. O jesuita Antonio Vieira, fallando do guerreiro não recompensado, diz: morra e vingue-se; nada ha mais forte. Se dicera: vingue-se e morra, perdia toda a fôrça; alêm de já ser outro o pensamento.

506-553. — 535-584. — Accusam Enéas de ter visto a morte do rei sem o soccorrer. Quando Enéas sahiu do seu retiro, já da cidade os Gregos se tinham apoderado e a andavam saqueando; muitas pelejas teve de sustentar antes de chegar ao palacio de Priamo, e o achou todo cercado, só havendo por detrás uma pequena porta esquecida pelo inimigo; e, entrando por alli, perdidos os socios Corebo, Ripheu, Hypanis, Dymas, Pantho, e ficando com o velho Iphito e com Pelias já ferido, não podendo só com estes oppôr-se á multidão commandada pelos mais bravos chefes gregos, subiu á tôrre principal para de lá observar o inimigo e tomar conselho das circumstancias. Da tôrre alguns lançavam dardos inutilmente; Enéas, que os anima, faz desabar parte della sôbre os esquadrões que se succediam, e conseguiu matar e ferir uma immensa quantidade. Sendo a tôrre o ponto mais alto, viu della a fugida de Priamo com a familia, para um grande claustro onde havia um altar, ao momento em que Pyrrho invadia todo o palacio. Este corre atrás de Polites, mata-o na presença do rei seu pae; o rei brada e reprehende o matador, que irado immola o triste velho. Tudo isto succede rapidamente; e Enéas não podia soccorrer a Priamo, porque, alêm de não ter por onde se communicar e chegar ao tal claustro, estava sózinho, vistoque os seus poucos soldados em desespêro se haviam precipitado nas chammas, dando comsigo em terra. Digam-me os criticos se era cordato ir Enéas sem um soldado disputar o corpo de Priamo (pois não chegava a tempo de o livrar da morte) a Pyrrho, Diomedes, Ulysses, Agamemnon, Menelao, Ajax e a tantos outros? Fôra um sacrifico louco, improprio do seu valor prudente e reflectido. Virgilio, que celebra o pio Enéas e não Orlando furioso, faz a morte do rei excitar no heroe o dever de ir salvar a familia. Este sentimento he inspirado pela natureza e pela razão; e deixar de valer a pessoas tam queridas, que estavam com vida, para correr após um cadaver, seria um bom lance de novella, mas não uma acção judiciosa: o dever exigia do marido soccorrer a mulher, do filho soccorrer o pae, e do pae soccorrer a seu filho; e a piedosa ternura de Enéas para com Anchises he um distinctivo do heroe. Mr. Tissot, partindo de uma hypothese falsa, sem custo espraiou-se contra Virgilio.

567-587. — 600-618. — Argúem Enéas de baixeza por ter querido matar uma mulher. Se Enéas succumbisse á tentação, indigno fôra; como tornou em si, não ha tal baixeza. Era natural que Enéas, vindo cheio de mágoa e furor por ter visto a morte de Priamo sem lhe poder valer, se exasperasse ao encontrar-se com a causa de tantos males; e, se o desejo de a immolar mostra que era sujeito á ira, o não ter a ella fraqueado mostra que sabia vencer-se. Elle mesmo antecipadamente se accusa, dizendo: namque etsi nullum memorabile nomen feminea in poena est, nec habet victoria laudem; mas a raiva lhe fazia accrescentar: extinxisse nefas tamen, et sumpsisse merentis laudabor poenas. Estas palavras manifestam os sentimentos que luctavam em sua alma, onde os mais generosos finalmente prevaleceram. Crem esses criticos por ventura que o heroe he um ser perfeito, incapaz de conceber um mao pensamento? A ingenuidade com que Enéas conta a sua fraqueza, a que não cedeu, alguma cousa tem de nobre em si mesma. — Vamos agora a outra censura, nascida da combinação deste lugar com outro do livro VI. Mr. Villenave repete o reparo antigo, de que Enéas não podia encontrar a Helena, porque, no liv. VI, conta a Enéas Deiphobo que Helena, de quem era o terceiro marido, havia de Menelao obtido o seu perdão, entregando-lhe Troia, o palacio e a cabeça do filho de Priamo. Ora Deiphobo diz alli: «Põe-me a guapa consorte as armas fóra, E até da cabeceira a fida espada; A Menelao acena e as portas abre; Julgando assim mimosear o amante, E o labéo extinguir da antiga offensa.» Nesta passagem nem em outra alguma dice o poeta que Helena obtivera immediato perdão, sim que abrira as portas e atraiçoara a Deiphobo com esse intuito. Segue Virgilio a opinião de que ella, apezar do seu novo crime, nada alcançou nequelle momento, e ficou sendo, segundo o verso 573 deste livro, Trojae et patriae communis Erinnys, occultando-se com medo igual dos Troianos e dos Gregos; pois acontece bem vezes ficarem os traidores em desprêzo e odio daquelles a quem servem. O padre La Rue, citando o parecer de Nascimbeno, mostra que frustrou-se a Helena a esperança de applacar a Menelao, e que a perfidia não a livrou de ser perseguida, a ponto de se refugiar no templo de Vesta, sahindo pela mesma portinha por onde Enéas subira á tôrre: em prova do que, allega a Euripides, o qual affirma que Helena foi levada por Menelao entre as captivas, para abandonal-a á vingança daquelles cujos filhos tinham acabado na guerra troiana. Adoptada a opinião de Euripides, autor a quem Virgilio segue não poucas vezes, conciliam-se os dous lugares: obriga a sã hermeneutica a tambem abraçarmos o que ao poeta salva de uma contradicção. Nem obste o posterior apparecimento de Helena no palacio de Menelao, como se lê na Odysséa, liv. VI, vers. 121 e seguintes: Menelao, que em Troia a quiz abandonar á vingança dos Gregos, ao depois tornou-se ás boas e lhe perdoou, induzido por Venus, protectora da formosa culpada.

593. — 624. — Neste passo he lindissimo o verso de João Franco: «Dividindo o coral da breve bôca.» Mas, bello em si mesmo, não passa ao portuguez todo o sentido: roseo ore não se applica somente á côr dos labios, mas tambem ao cheiro que exhalavam as bôcas das deusas; o que falta na versão.

711. — 745. — Longe servet vestigia, tem dado aso a mil desparates, por se não ter querido tomar longe na significação de muito, que trazem todos os diccionarios, não exceptuando o pequeno annexo ao livro de Viris illustribus urbis Romae, por onde os meninos aqui em França começam a aprender o latim. Dos traductores, uns supprimem o adverbio, outros, toda a passagem, como se fôsse uma tolice do autor. Desfontaines diz que Enéas queria ir de pressa, e fôra difficil a Creusa o acompanhal-o. O padre Catrou, a quem outros se encostam, louva o meio artificioso com que Virgilio se descarta de Creusa, a qual não estaria bem em companhia de Dido, e embaraçaria o casamento com Lavinia. E eis-aqui estes meus senhores emprestando ao autor da Eneida e das Georgicas o êrro mais palmar que he possivel! Fazem que Enéas diga de proposito á mulher que o siga de longe, a fim de que se perca no caminho; e o heroe piedoso, que em busca da consorte se expoz sózinho a todos os perigos, he representado como um traidor por tantos criticos e traductores! M. Villenave, depois de ter notado os despropositos alheios, toma tambem longe por distante, e disso está tam encasquetado, que no seu prologo cita o longo servet vestigia no sentido absurdo que adoptou. Longe aqui significa muito, e serve para reforçar o servet; quer dizer a espôsa guarde muito os meus vestigios, faça tudo para não se afastar de mim. Neste sentido optimamente o verteu Delille: «Et qu'observant mes pas, mon épouse me suive et ne me quitte pas.» O que fez Enéas foi o mais razoavel: poz ás costas o velho e paralytico pae; guia o filho pela mão, ajudando os seus curtos passos; e á mulher, que era môça e robusta, recommenda que o siga e não o perca de vista. Anchises ouve um rumor, exclama: Nate, fuge, nate; propinquant; e Enéas, apressando-se para salvar tam caros objectos, não deu pela falta de Creusa. Este desapparecimento, ordenado pela propria mãe dos deuses, como se colhe do verso 785-787, he na verdade um ingenhoso artificio do poeta: não sendo compativel a existencia de Creusa com os futuros interêsses dos Troianos, elle imagina uma apotheose, e colloca a filha de Priamo sob a immediata protecção de Cybele. Mas reflicta-se que Enéas em nada tem parte, e fôra um êrro imperdoavel fazel-o intervir no desapparecimento da mulher, ainda sendo para endeusal-a. — Na lingua portugueza, não só adoptámos longe na significação de muito, como tambem o ajuntamos aos verbos para os reforçar; o que se lê no Affonso Africano de Vasco Mausinho, exemplo citado por Moraes e repetido por Constancio: «Mas meu conselho a todos longe excede.» Ora, tendo o adverbio longe um sentido que o absolve e outro que condemna o poeta, he da mais ordinaria hermeneutica abraçar o que o justifica. Note-se igualmente, mais adiante, o Pone subit conjux, que La Rue interpreta: «Uxor juxta sequitur.» Os criticos, no furor de censurar, não repararam nestas palavras, que tiram toda e qualquer dúvida.

740. — 773. — Alguns, facillimos em achar contradicções, dizem que nec post oculis est reddita nostris deve ser vertido, como o fez Delille, o céo não m'a restituiu jamais, e não eu nunca mais a avistei, ou nunca mais appareceu a meus olhos; e isto com o fundamento de que o poeta mais abaixo a faz apparecer aos olhos de Enéas. Não reflectiram esses criticos, e Mr. Villenave com elles, que a propria pessoa he cousa diversa do simulacro ou da sombra: Creusa em pessoa nunca mais se apresentou ao marido; mas apresentou-se lhe Infelix simulacrum atque umbra et nota major imago. Esta distincção he conforme á crença dos antigos: veja-se a nota de La Rue ao verso 385 do liv. IV, e ao verso 748 do liv. VI.

772-794. — 808-830. — Mr. Villenave, subscrevendo a pedagogica declaração de M. Tissot, opina com este que A son froid silence, on ne reconnaît pas l'époux désespéré qui vient d'affronter de nouveaux dangers pour retrouver Creuse. Les mouvements d'une passion ardente ne tombent pas ainsi tout à coup, le coeur ne fait pas si promptemente de cruels sacrifices.... L'exemple d'Homère, mais surtout la nature, devait préserver Virgile d'une faute qui malheureusement reviendra plus d'une fois dans le poëme. Examinemos. Procura Enéas a Creusa por toda parte; não a encontra, mas apparece-lhe a sombra della de uma grandeza pasmosa: Mr. Tissot, que não acredita em almas do outro mundo, não se arripiou ao lêr; mas Enéas, acreditando naquella visão, ficou mudo e com o cabello erriçado. Immediatamente a sombra conta-lhe a protecção que recebe da mãe dos deuses e o seu estado de bemaventurança, com o mais que se contêm no seu discurso. E o que faz Enéas? Ainda sob a impressão do extraordinario e milagroso apparecimento, quer fallar e não pode, mas verte lagrimas; vai abraçar tres vezes o simulacro, tres vezes este se lhe escapa, e a final se esvaece em auras subtis. A esta admiravel passagem he que Mr. Tissot argúe de fria! Não sabe que em uma dôr grande a voz falta muitas vezes e he supprida pelas lagrimas? Que devia fazer Enéas? soltar a lingua e desenrolar uma lamuria de legua, á maneira dos amantes das novellas? Se o fizesse, não seria aqui Virgilio o grande conhecedor do coração humano. Mr. Tissot não deu pêso ao extraordinario da visão, ao lacrimantem do original, nem viu que as palavras de Creusa e a honra da sua apotheose haviam de produzir uma certa consolação no espirito religioso de Enéas. Quanto ás faltas que desgraçadamente apparecem no poema, sem dúvida o nosso homem as commette, apezar da sua superioridade; mas a maxima parte das que lhe imputam, está unicamente na cabeça de criticos ou desattentos ou caprichosos.




NotasEditar

  1. No original, está demonsta.
  2. No original, está doque
  3. No original, «des», corrigido na segunda edição.
  4. Consta «vozes», aqui, corrigido no Virgilio Brazileiro.
  5. No original, está um.