Eneida Brazileira/Notas ao Livro IV

Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro IV


NOTAS AO LIVRO IV.

Este livro he dos mais gabados, porque pinta o amor; paixão que fórma o principal assumpto dos romances e poesias modernas: o hábito advoga pelo poeta, sendo comtudo a causa de algumas injustiças. Nos demais livros consegui exprimir o autor em menos versos que no quarto; porque as paixões ternas sam mais expansivas, os vocabulos portuguezes em taes materias contêm mais syllabas; nem quiz expôr-me ao perigo do brevis esse laboro obscurus fio: em 765 he que pude verter os 705 versos do original, quando em poucos mais ou ainda em menos, effeito da energia e precisão do portuguez, obtive a traducção dos outros, sôbre tudo dos ultimos, que o escritor das Georgicas não teve tempo de emendar, e offerecem algumas redundancias que he mister cercear. Occasião tive de verificar o que asseverava Manuel Severim de Faria: «Esta brevidade, graça e decoro, se vêm praticadas nas comedias de Francisco de Sá e de Antonio Ferreira, e em algumas de Jorge Ferreira.... E quanto ás traducções claramente se mostra, assim nas de verso que fizeram Antonio Ferreira e Luiz de Camões, como nas de prosa do bispo D. Antonio Pinheiro e outros, que a lingua portugueza, se não he mais breve que a latina, ao menos não he mais larga.» 55. — 58. — A paixão de Dido parece mal a alguns, e diz Mr. Tissot: «Il m'est survenu un scrupule sur le fond des choses: Didon devait-elle être ainsi transformée à nos yeux? Je sais que sa passion a été allumée par le plus puissant des dieux, et qu'elle doit être portée aux dernières extrémités; mais ne fallait-il pas conserver à la vertu quelque respect d'elle-même? Une femme si courageuse, une si grande reine, ne devait-elle pas garder quelque soin de sa gloire!..... Dans Valerius Flaccus, une légère précaution suffit pour éviter un reproche au poëte. Il peint Médée semblable à la Bacchante qui résiste à son premier transport, et s'abandonne ensuite au dieu.» — Quiz Virgilio dar uma origem antiquissima ao odio entre Roma e Carthago, e imaginou o abandono de Dido por Enéas, derivando esse odio dos fundadores dos dous estados. Para honra sua, foi a raínha de exemplar virtude, e se resuscitasse com o poeta romano, deveria tentar um pleito e pedir-lhe a injúria; a nós toca averiguar se, dada a ficção, tirou-se della todo o proveito: os mais escrupulosos o affirmam, nem mesmo o duvída Mr. Tissot, apezar das suas restricções. Com o que não me accommodo he com o passe a Valerio Flacco: se este eximiu-se da culpa, com pintar Medéa ao modo da Bacchante que resiste ao primeiro transporte e ao depois se entrega
ao deus, então absolva o crítico ao pobre Virgilio; porquanto, antes de se entregar a Enéas, Dido andou insana pela cidade, consultou entranhas de rezes, fez sacrificios e oblações, sem que nada lhe apagasse o amor; e, se o communicou logo a Anna, só dahi a dias, quando já lhe tinha mostrado e quasi offerecido a nova cidade, he que se foi descobrindo ao amante: se a paixão andou rapida, não foi sem combates e remorsos. Contra Medéa não se empenhou Cupído, como contra Dido, a rogos da propria Venus; o que sobra a desculpal-a e a justificar esta parte da ficção. — Quanto á pergunta se não era mister conservar á virtude algum respeito para comsigo mesma, respondo que Virgilio não faz da raínha de Carthago uma devassa e vil mulher, sem respeito algum á virtude; fal-a uma triste víctima dos deuses, que no meio das mais pungentes mágoas succumbe á violencia do amor; e he por ser uma grande raínha, tam boa e generosa, que mais nos doe a sua dôr, que a sua fraqueza he tragica e tam pathetica. Tanto ella cuidava na sua glória, que preferiu a morte á vergonha. O ser corajosa e magnanima não obsta, infelizmente, a tornar-se a mulher apaixonada e louca; e, ainda mais infelizmente, as proprias suas boas qualidades não poucas vezes lhe tem sido fataes em materias de amor. A nobreza mesma do coração de Dido concorreu á sua perda: o estrondo e fama das desgraças de Troia, que ella já tinha pintadas nas paredes do templo, a vista inopinada do heroe na sua côrte, a semelhança de ambos em terem emigrado, a esperança que lhe suscitou Anna de augmentar a colonia com o casamento, o desejo natural ao seu sexo de enlaçar o seu nome ao nome de um varão famigerado, o esfôrço de Venus e de Cupído, uniu-se tudo emfim para sua affronta e cegueira. As raínhas e senhoras, cujas empresas e feitos tem passado aos vindouros, todas com raras excepções se mostraram filhas de Eva, e muitas o foram sem se matarem. — Mr. de Lamartine (Voyage en Orient, pag. 69; 1835) diz tambem: «Virgile, comme tous les poëtes qui veulent faire mieux que la vérité, l'histoire et la nature, a bien plutôt gâté qu'embelli l'image de Didon. La Didon historique, veuve de Sychée et fidèle aux mânes de son premier époux, fait dresser son bûcher sur le cap da Carthage, et y monte sublime et volontaire victime d'un amour pur et d'une fidélité, même à la mort! Cela est un peu plus beau, un peu plus saint, un peu plus pathétique, que les froides galanteries que le poëte romais lui prête, avec son ridicule et pieux Enée, et son désespoir amoureux, auquel le lecteur ne peut sympathiser. Mais l'Anna soror et le magnifique adieu, et l'immortelle imprécation qui suivent, feront toujours pardonner à Virgile.» — Quando acabei de lêr este julgamento e reflecti sôbre todas as suas partes, me perguntei se com effeito seria do autor das Meditações, e a final vim a crêl-o por tres razões: uma he que o poeta francez tem deixado correr por sua conta um juizo tam estrambotico; a segunda he que he rarissimo um escritor como Horacio, ao mesmo
tempo grande philosopho, grande poeta e grande crítico; a terceira he a epoca em que appareceu a Viagem ao Oriente, quando havia uma nescia prevenção contra os chamados classicos, e Mr. de Lamartine quiz sacrificar ao idolo do dia uma víctima pingue. — Que a Dido historica seja mais santa e respeitavel, ninguem o duvída; mas que seja mais bella poeticamente e mais pathetica, he o que negará quem tiver meditado na natureza humana, quem tiver estudado os poetas, principalmente os tragicos, em cuja alçada entra o pathetico mais a miude. «Quando eu nada mais devesse a Euripides, nos diz Racine, que a idéa do caracter de Phedra, poderia affirmar que lhe devo o que talvez de mais razoavel expuz no theatro. Não me assombra que este caracter fôsse do mais feliz exito naquelle tempo, e que ainda sahisse tam bem neste seculo, poisque tem quantas qualidades requer Aristoteles nos heroes da tragedia, e que sam proprias para excitar a compaixão e o terror. Na verdade, Phedra nem he de todo culpada, nem de todo innocente.» — E eis-aqui um dos mais sublimes genios da França, modêlo em seu genero, achando bello e pathetico o caracter de Phedra, incomparavelmente mais culpada que Dido; a qual, generosa e benéfica e heroica, só contra si peccou e contra seus escrupulos, mas não calumniou o enteado, concorrendo para a sua morte. O bello poetico nem sempre he o bello moral: se o fôsse, não seriam supportaveis os melhores trechos do Dante, muitos de Homero, de Sophocles, de Shakespeare, de Corneille, de Voltaire, de Goethe, e de outros ingenhos desta primeira plana. — He para notar que Mr. de Lamartine, fazendo esta crítica do ridicule Enée, considere bom unicamente l'Anna soror, le magnifique adieu et l'immortelle imprécation qui suivent. O Anna soror do crítico he difficil de saber ao que se reporta: no comêço do livro ha um discurso que principia por estas palavras, mas não he seguido de le magnifique adieu, nem de l'immortelle imprécation; e, no caso de referir-se ao que fica antes da imprécação, a qual abrange do verso 590 a 629, então lá não se trata de Anna soror, trata-se da partida de Enéas ao romper do dia. Isto me convence da pressa com que foi feita a crítica, talvez não tendo á mão M. de Lamartine um exemplar da Eneida para refrescar a sua lembrança. Não achar conforme á natureza o andamento dos amores de Dido em Virgilio, he opinião singular do nosso illustre contemporaneo: Mr. Tissot mesmo, com quantos tem censurado um ou outro lugar do episodio, não se atreve a involver na censura o episodio inteiro. Santo Agustinho, genio superior, sendo bem iniciado e experiente em materias amatorias, com especialidade se deleitava lendo este livro IV. Aqui dou, na traducção de Francisco Manuel, o que delle escreveu o autor dos Martyres, do monumento maior da literatura franceza nestos[1] ultimos tempos: «Pelas ribas, Que o vate descantou de immortal fama, Com a Eneida nas mãos ia Agustinho Ao lago Averno, á gruta da Cuméa, A Elysios
campos, á Acheronte, á Estyge; De Dido acerbos fados lêr mormente Folgava sôbre a lousa desse ingenho, Terno e sublime quando os transes narra Da lastimada misera raínha.» — Mme de Staël, senhora de finissimo tacto, no seu livro da Literatura, dice: «L'émotion produite par les tragédies de Voltaire est donc plus forte, quoiqu'on admire davantage celles de Racine. Les sentiments, les situations, les caractères que Voltaire nous présente, tiennent de plus près à nos souvenirs. Il importe ao perfectionnement de la morale elle-même que le théâtre nous offre toujours quelques modêles au-dessus de nous; mais l'attendrissement est d'autant plus profond, que l'auteur sait mieux retracer nos propres affections à notre pensée.» Estas reflexões concordam com as de Racine no prefacio da Phedra quanto ao pathetico, e igualmente mostram que o poeta pode, não digo ir de encontro, mas aperfeiçoar a natureza (permitta-se-me a expressão) e modificar a história, ora para crear modelos acima de nós por interêsse da moral, ora para commover com a pintura das nossas fraquezas e das nossas affeições. E que! Mr. de Lamartine, quando quer antes ser grande poeta do que máo crítico, não pratíca o mesmo que reprova em theoria? Acaso em suas bellas paginas segue elle sempre a história, sem nada pôr, sem nada tirar? Acaso escreve só a verdade nua e crua, ou lhe prefere ás vezes a verosimilhança, conformando-se ao plano de suas concepções? Se os poetas fôssem coartados nesta liberdade, adeus poesia! — Quanto ás frias galanterias, direi que em toda esta verdadeira tragedia não ha um coloquio amoroso: a primeira vez que ha um dialogo entre Enéas e Dido, he quando ella, pressentindo que a frota vai partir, vem accusal-o de traição, e misturando súpplicas e queixas (admiravel passagem!) acaba por lhe deitar em rosto os beneficios, e sem lhe admittir as desculpas, o ameaça e foge, cahindo nos braços das famulas. Serão estas as frias galanterias da raínha de Carthago? — A proposito desta questão, offerecerei o juizo de Ferreira, cuja musa era a razão esclarecida. Á vista de um retrato de Dido, em nome della, tomando o tom do philosopho que reclama o rigor da história, fez o seguinte epigramma: «Á mão do pintor devo nova vida. Maro me deve a honra diffamada: Nem Dido foi de Enéas conhecida, Nem viu Carthago sua frota errada. Eu mesma me matei, porque sostida Fôsse a fé casta a meu Sycheu só dada; Vinguei sua morte, ergui nova cidade. Valha mais que os poetas a verdade.» Esta optima composição parece provar que o Horacio Lusitano rejeitava esta ficção de Virgilio; porêm não: como philosopho, pugnava pela verdade historica; como poeta, conhecia o proveito que da mesma ficção podia tirar-se, e a seguiu á risca na sua egloga VIII. De ambas as maneiras, patenteou o seu tino e delicadeza em discernir quando cumpre ou invocar a verdade ou ceder aos vôos da imaginação. Mas Ferreira não se contentava só do seu talento, folgava de o temperar com o saber accumulado pela experiencia dos antigos, e escrevia depois de longo exame.

58. — 61. — O povo caçador, mesmo o pastor, guia-se antes por costumes que por leis; o povo agricultor precisa mais dellas: por isso he que Virgilio chama legífera a Ceres ou a agricultura. O adjectivo legislador se applica propriamente á pessoa ou corporação que faz as leis; legífero significa o que traz leis, isto he o que traz a precisão de as fazer: adoptei pois a palavra latina como necessaria. Já temos frugífero, alífero, sagittífero, e outros adjectivos deste cunho.

90-128. — 98-140. — Esta scena entre Juno e Venus, onde cada uma, sôbre tudo Juno, dissimula e tenta chamar a outra ao seu partido, cahiu debaixo da ferula de Mr. Tissot: «Empruntée peut-être d'une riante fiction de l'Iliade, cette scène, peu digne de la gravité épique, n'a ni ce naturel exquis, ni cette grâce naïve, ni ces traits d'imagination, qui donnent du charme à tout dans Homère. L'invention est pauvre et les détails mesquins; le rire malin de Vénus suffit seul pour faire la critique d'une invention convenable tout au plus dans une épopée comique. Junon, el faut l'avouer, se prépare à jouer un rôle assez étrange; Vénus elle-même en est étonnée.» — Antes de tratar do unico reparo positivo que ha nesta parlanda, cumpre lembrar que tanta não he a autoridade do crítico, nem a sua superioridade sôbre Virgilio tamanha, que o dispense de comprovar asserções desta natureza: sob a sua palavra não creio que a invenção seja pobre, nem mesquinhas as particularidades; era mister que isso nos fôsse demonstrado. A'cêrca da positiva censura do riso de Venus, direi que Virgilio, á imitação de Homero e com mais commedimento, presta aos deuses as paixões humanas; porque elles, segundo a sua fabulosa história, tinham fraquezas, commettiam crimes; e não he muito que o poeta a Venus attribua um riso maligno, quando percebeu as segundas tenções de Juno: querer julgar das falsas devindades segundo a idéa sublime da perfeição de Deus, he confundir os seculos e as crenças. O que mais cabe notar he a parcialidade em favor de Homero: poude o bom velho grego dar aos deuses uma risada inextinguivel, quando apanharam em flagrante a mesma Venus e Marte, sem que a scena fôsse peu digne de la gravité épique; poude fazer o sabio Ulysses esbordoar a Thersites, que se assenta choramingando e enxugando as lagrimas, com o inchado vergão nas costas, entre as gargalhadas e vaias dos Argivos; poude pintar a Juno agarrando os braços de Diana com a esquerda, arrancando-lhe o arco e a aljava, chamando-a cadella atrevida. Quem, a não estar preoccupado, negará que tudo isto pertence mais a uma epopéa comica do que o riso de Venus? Todavia não condemno a Homero, poisque empresta a seus deuses os costumes dos homens e retrata os homens desses tempos. De mais, não reputo indigno de um poema serio um ou outro gracejo, comtanto que se use desta liberdade com
discrição: como o fez Camões a respeito de Velloso; como o fizera Virgilio mesmo, no livro V, a respeito do piloto Menetes.

129-159. — 141-178. — Aqui descreve-se a caçada, episodio no episodio principal, com que soube variar o poeta o assumpto deste livro. A Delille remetto o leitor, ou antes a Mr. Villenave, que traz boas cousas sôbre todo este lugar. O verbo madrugar me parece exprimir fielmente o It jubare exorto. O verso 152 tem a onomatopeia conservada no 170 da versão, e em geral guardei a harmonia imitativa de toda esta porção da Eneida.

160-164. — 179-184. — Usei do hyberbaton para pintar a confusão dos caçadores, ao fugirem da chuva que obrigou Dido e Enéas a recolher-se á mesma caverna.

173-188. — 193-210. — Eis uma allegoria, cujas imagens parecem exageradas, mas que se basêa na verdade. Gabando alguns a descripção, pensam comtudo que o monstro enorme, o qual toca o chão com os pés e occulta a cabeça nas nuvens, não podia sentar-se nas cumieiras dos palacios; mas não advertem que a Fama de Virgilio, postoque gigantesca, segundo convinha á irmã de Celo e de Encelado, he levissima e como aeria, com a faculdade de augmentar e diminuir, conforme se colhe do verso: Parva metu primo, mox sese attollit in auras. Assim, podia ella estar sentada em cima dos palacios, não obstante a sua grandeza. — Reparem no contraste entre o verso: Revoa e ruge na terrena sombra, e o que segue: Nem os lumes declina ao meigo somno. Isto me foi suggerido pelos versos de Camões: Não em plectro bellígero de Marte, Mas em suave e doce melodia; onde ha igual harmonia imitativa.

242-244. — 265-269. — Entendo lumina morte resignat como Delille, não como La Rue; que interpreta: ex morte aperit oculos; porque esta virtude da vara de Mercurio está já exprimida no animas ille evocat Orco.

249. — 275. — Duvida-se que haja pinheiros na Africa: se os não ha em toda, os ha no Atlante. Não he pois necessario ler-se penniferum, como insinua Heyne.

266. — 294. — Verto uxorius como o eruditissimo Antonio Ribeiro nas Odes de Horacio, bem que maridoso não venha em diccionarios: significa o mulherengo.

293-294. — 319-320. — Mr. Villenave não contou com o portuguez, ao asseverar que a expressão do poeta aditus et
quae mollissima tempora não podia ser traspassada a nenhuma outra lingua: a traducção me parece ter conservado o arrôjo do original.

331-361. — 363-397. — Esta resposta he bem censurada; e com effeito fôra melhor que o poeta supprimisse os versos onde Enéas affirma que, a não ser o fado, preferiria voltar para a sua patria: sam inexcusaveis, mesmo naquelles tempos em que os heroes tam facilmente sacrificavam as mulheres. Entrando porêm no fundo da questão, deirei que Enéas obrou mal em se deixar vencer do amor e em se involver na precisão de abandonar a Dido, mas que em tal caso peior fôra ficar-se com ella do que seguir as ordens e querer dos fados: que máo conceito não merecera, a têr immolado á paixão o interêsse do filho e de seus compatriotas? O partido que se toma a favor da raínha, he a prova maior da excellencia desta insigne tragedia: o poeta quiz excitar o mais possivel a commiseração para com Dido; e, pelo que toca a Enéas, o seu fim era mostrar o esfôrço deste por vencer, alêm de tantos perigos, uma das paixões mais fortes, só para cumprir com o mais imperioso dever. Concedendo eu que Enéas obrou mal, estou longe de conceder que peccou nisso o poeta: pintando a quéda do chefe troiano e o triumpho que este obteve de si mesmo, apresentou-nos a um tempo a fraqueza humana e o heroismo que a supera. Se Enéas sacrificasse a infeliz Dido ao seu interêsse individual, como de ordinario fazem os homens desamparando as mulheres credulas, fôra um cruel sem piedade; mas elle não podia pôr de parte o bem dos Troianos e a glória da sua descendencia, que em suas mãos tinha depositado o destino.

362-392. — 398-431. — A réplica da raínha e a brusca maneira de cortar as desculpas de Enéas, sam lugares em que os rigoristas não tem podido aferrar o dente, sam de todo conformes á natureza. Taes lances e affectos, imitou-os Racine, Lefranc de Pompignan, e muitos outros.

402-407. — 441-447. — «Alguns commentadores, diz Mr. Villenave, tem achado esta bella comparação pouco digna da epopéa; sem attenderem a que na Iliada Homero tira uma comparação das moscas, e que Apollonio nos Argonautas as tira das moscas e das formigas.» Eu accrescento que não eram precisos taes exemplos para justificar a Virgilio: a comparação dos Troianos, carregando o necessario para a partida, com as formigas ao levarem o sustento para as cóvas, he da mais perfeita justeza; e o fino gôsto de Camões imitou o poeta romano com felicissimo exito.

408-436. — 448-476. — Fallando do Littora et vacuos sensit
sine remige portus, assevera Delille que Virgilio he inferior a Catullo, quando pinta a mágoa de Dido á partida de Enéas, por se contentar de a fazer contemplar da tôrre a frota que largava as praias; e que então o poeta se dirige á amante abandonada, perguntando-lhe o que sentia naquelle momento. Confundiu o traductor francez a passagem que vai adiante com a presente: he nesta que Virgilio pergunta á raínha o que experimentava, não quando partia a frota, porêm antes, quando a chusma acarretava o necessario para a viagem. A pergunta não foi na occasião da sahida; pois Dido ainda mandou a irmã fazer proposições a Enéas, e não tinha chegado ao último apuro a sua desesperação. Mas quando o heroe ficou inabalavel, Dido, em vez de subir a uma montanha para com os olhos seguir a nau que desaparecia, em vez de desmaiar e enfurecer, em si recolheu toda a sua dôr, concebeu o projecto de se matar, e dissimulando o poz em execução: isto he mais forte e mais terrivel do que o fez Ariadna. A preferencia dada a Catullo não he portanto justa, bemque por alguns tenha sido abraçada sem exame. O que ha em Catullo de melhor que em Virgilio, he a passagem: Omnia muta, Omnia consternata, ostentant omnia mortem, ainda mais bella que o verso: Littoraque et vacuos, etc., que representa a mesma idéa; e tambem a comparação de Ariadna com a effigie de pedra de uma Bacchante: em tudo o mais he Virgilio superior a Catullo, mais terrivel e mais pathetico. — Os diccionarios latinos trazem videre com a significação de ouvir, e todos citam a Virgilio, sem dúvida fundados neste lugar: Prospiceres arce ex summa totumque videres Misceri ante oculos tantis clamoribus aequor. Eu penso que o verbo videres não significa ouvir; mas que exprime uma fina observação do poeta. Quando ha um ruído que se não ouve bem, feito pela multidão, os movimentos e os gestos, percebidos pela vista, ajudam a ouvir e a destinguir os sons: he isto o que pinta Virgilio, e a minha versão he neste sentido. — Viri do verso 424 he omittido pelos traductores, sendo comtudo essencial; porque Dido com esta palavra exprobra a dureza ordinaria dos homens para com as mulheres. — Leio o verso 436: Quam mihi cum dederit, cumulatam morte remittam, referindo cumulatam a veniam, e traduzo o lugar á maneira de Delille e de Mr. Tissot. 440-449. — 479-491. — «Aqui Virgilio, para desculpar a Enéas, não se contenta com dizer que este obedece aos deuses, accrescenta que um deus lhe tapa os ouvidos ás preces de Dido. Não se podia melhor pintar aquella virtuosa inflexibilidade, do que pela comparação que se segue, tam insigne pela belleza das imagens como pela harmonia.» Tal he o parecer de Delille; o de Mr. Tissot, em cujas palavras jura Mr. Villenave, he o contrário: «Quem se poderia comparar a um carvalho já velho, he Anchises, não Enéas,
no vigor da idade; Enéas, reposto em todo o brilho da mocidade por sua mãe. Aliás, o heroe aqui tam pouco de grandeza ostenta, que não merece um parallelo tam ambicioso. Duas mulheres a chorar e a supplicar não se assemelham aos aquilões soltos sôbre os Alpes: apenas se poderia soffrer esta imagem, se se tratasse de duas amantes furiosas e desesperadas, como Camilla e Hermione... A exageração minuciosa aggrava mais a falta do poeta; que a leva ao cúmulo ajuntando que Enéas, exposto a continuos assaltos, sente uma dôr profunda; supposição desmentida no momento por estas palavras: Il reste inébranlable, et seulement quelques larmes inutiles coulent de ses yeux. — A maior parte desta crítica nasce de não ter seu autor meditado no texto. Uma arvore muito nova não tem robustez; he preciso têr chegado (peço venia) á sua virilidade para chamar-se válida: o válido carvalho de Virgilio não era velho, estava na fôrça dos annos, unico sentido da expressão annoso robore; e assim he bem comparado com Enéas, que não estava na primeira mocidade, mas na que se tem nomeado a idade heroica, isto he cêrca dos quarenta annos; porquanto, sendo homem feito e casado no comêco da guerra que durou dez annos, e tendo-se já passado sete depois do triumpho grego, he evidente que andava pelos seus trinta e seis a trinta e oito. Com Anchises he que fôra uma sandice comparar o válido carvalho no vigor da idade; com Anchises, decrepito e paralytico, fugindo carregado por seu filho: o carvalho comparavel a Anchises seria um já carcomido, que fôsse extirpado pelos aquilões, e não um tam rijo que resistiu aos ventos dos Alpes. Quanto á incongruencia de assemelhar Enéas a um carvalho, parallelo que o crítico appellida ambicioso, atrás já refutámos as razões em que se estriba a sentença; e repito que elle obrou mal em se enamorar de Dido com quem não podia casar, mas cumpriu um dever sacrificando a paixão ao interêsse do filho e dos seus nacionaes, e portou-se briosamente esforçando-se por vencel-a: do contrário, merecera que os Troianos o apedrejassem. — Se o poeta assemelha as preces e arguições de Dido, por intermedio e bôca de Anna, aos embates dos furacões dos Alpes, não he por serem de duas mulheres, he pela fôrça que havia nessas preces e arguições; as quaes punham patente aos olhos do amante a mágoa da infeliz Dido e o damno que elle fizera com o seu êrro e fraqueza. Ora, a fôrça dessas razões he que lhe commovia o coração, he que lhe fazia verter as lagrimas que nada remediavam a dôr e desgraça da raínha. Neste ponto Mr. Tissot não fez a differença que faz o poeta: o que era inabalavel foi a resolução de partir, que lhe aconselhava o interêsse dos Troianos; mas o coração do heroe estava grandemente commovido, segundo se vê do verso: «Multa gemens magnoque animum labefactus amore.» A phrase mens immota se refere á razão, á potencia intellectiva de Enéas, não á sensibilidade de sua alma. Mr. Tissot he que traduziu incorrectamente: Il reste inébranlable;
devera dizer: A sua razão, ou a sua mente, ficou immovel; isto he que, posto fôsse profunda a sua mágoa, os esforços da razão o tinham tornado firme e inconcusso, ajudado mesmo por um deus que lhe fechava os ouvidos ás palavras de Anna. Elle até quiz vêr se conciliava o amor com o dever de ir buscar a Italia, e por via de Anna propoz a Dido que se embarcasse e o seguisse, como o demonstra o verso 537 e os seguintes; mas a nobre e generosa raínha, recusando ou deixar os seus ou fazel-os de novo entregar-se aos mares e aos acasos, preferiu a morte. Esta proposta de Enéas, do embarque de Dido, não tem sido attentada pelos criticos e commentadores que conheço.

450-503. — 492-548. — La Rue, cujos commentarios tem voga nas escolas do Brazil e de Portugal, traz muitos esclarecimentos sôbre todos estes versos; e como nada tenho que refutar ou accrescentar, ás suas notas remetto o leitor, ou a La Cerda ou a Mr. Villenave, que as trazem curiosas e eruditas.

518. — 564. — O in veste recincta tómo no sentido em que Nascimbeno e os antigos o tomaram; não achando sufficiente, para enjeitar-se a interpretação commum, a razão de que era preciso colher o vestido a fim de se vêrem os pés nus; sendo mais forte para mim o que diz o mesmo Nascimbeno, isto he que nihil in sacrificiis non solutum esse oportebat. — Sôbre este sacrificio e magica, descriptos neste verso, nos de cima e nos subsequentes, de novo remetto o leitor aos intérpretes citados; e peço licença para o adjectivo pubentes: convinha conservar a idéa de Virgilio, que assim compara a lanugem das hervas com o buço dos adolescentes.

555. — 605. — «Jupiter e o destino, exclama Mr. Villenave, acaso lhe ordenavam esta ultrajante insensibilidade? Aqui nem se vê o homem nem o heroe..... Elle dorme tranquillo em seu navio, até que Mercurio o desperte.» De vagar, senhor crítico, de vagar: o carpebat somnos, colhia o somno, pegara no somno, sam expressões que não indicam um dormir pesado, e os sonhos, de que despertou sobresaltado, provam de sobejo que Enéas não dormia tranquillo. Tinha trabalhado muito nos preparativos da viagem, tinha-se affligido muito com os pezares e queixumes da raínha: fatigado pois de corpo e de espirito, o pegar no somno está bem longe de mostrar nelle insensibilidade, antes he um effeito e consequencia dessa fatiga; o somno em taes casos he caminho que a natureza busca para allivial-a. Medicos experientes, de saber e de gôsto, a cuja autoridade recorri sôbre este ponto, me fizeram vêr que, depois do cansaço e de tantas afflicções, o adormecimento não era indício de dureza; que uma boa parte dos condemnados á morte,
apezar do terror, não deixam de adormecer, e ás vezes profundamente, como aconteceu ao marechal Ney, a quem vieram despertar para o matarem. Virgilio, que a tam variados conhecimentos ajuntava os da medicina, soube o que escrevia e o fez com madureza; e, introduzindo na acção a Mercurio que por ordem suprema adverte a Enéas do perigo e intíma-lhe que parta, o poeta nos deixa entrevêr que nesse adormecimento, aliás natural, interveio o destino. Tudo portanto he conforme á razão e á natureza, e não merece a menor censura.

586-629. — 635-681. — He aqui a famosa imprecação de Dido, ao enxergar de cima de uma tôrre a frota que se ia apartando. Mr. Tissot, com a sua usual sem-ceremonia, suppõe em Enéas o dom da ubiquidade: «Que papel, nesse momento, representa um heroe que attrahiu sôbre si tam cruéis ameaças?» Respondo que nesse momento, estando elle a navegar, não podia ouvir as ameaças da raínha, e o papel que representava era o de um chefe que, se bem compungido e com sinistros presentimentos, conduz os seus compatriotas a um lugar promettido pelos fados, cumprindo assim um restricto dever. Pasma o crítico de que Enéas, o homem do destino, a quem Jupiter fez tam magníficas promessas, fuja carregado de maldições: e o que devia elle fazer? Enéas não ouvia essas maldições, e se as ouvisse, não havia de voltar para Carthago, frustrando assim a esperança e os interêsses dos que nelle se tinham confiado; e, por mais que se esforçasse, era-lhe impossivel apaziguar a amante exacerbada, salvo se ficasse com ella e trahisse os Troianos. Escolha Mr. Tissot.

664. — 719. — «O poeta, pondera Mr. Villenave, parece esquecer que Dido afastou todas as mulheres do palacio e todas as testemunhas do horrivel sacrificio que meditava.» Eu digo porêm, com os olhos no texto, que o poeta não afastou todas as mulheres; afastou sim a irmã e a Barce ama de Sicheu, não do palacio, mas do claustro em que accendera a fogueira, porque estas duas deviam estar perto e baldariam o sacrificio; e quanto ás outras mulheres, como lhes cumpria ficar no posto em que a raínha as collocara, não ouviam as palavras de Dido sôbre a fogueira, e só conheceram a funesta resolução no momento de ser executada, e então romperam em grande alarido. A infeliz, dissimulada e precavida, não quiz mandar embora as mulheres para não despertar a desconfiança das duas mais attentas. Considere-se o lugar da scena, e ver-se-á que as damas, em um espaçoso claustro, podiam estar á vista e comtudo em uma distancia que as impedisse de ouvir: ellas criam que a senhora desempenhava o rito magico, e não que se despunha a morrer. Todas estas cautelas provam a irrevogavel tenção da raínha, e augmentam o terror.

Permitta-se-me agora terminar as observações a este livro IV mostrando a injustiça de Delille para com Luiz de Camões.[2] Delille, cujas reflexões ácêrca desta parte da Eneida sam as mais justas e recommendaveis, conclue a sua analyse pelos poetas que tem imitado o romano, e diz assim: «Todos os epicos julgaram dever consagrar um dos seus cantos ao amor: Camões faz tambem desembarcar os Portuguezes em uma ilha, onde as Nereidas imflammadas por Venus e Cupído, de concêrto com o Padre-Eterno, se esforçam por demoral-os. Independente da mistura monstruosa das divindades do paganismo com a religião christã, este episodio se descreve com tam pouca circumspecção, que a ilha encantada dos Lusiadas muito mais se assemelha a um alcouce que a uma residencia de deuses. Comparar iguaes producções ás de Virgilio fôra ultrajal-o.» — Delille não leu a Camões, como acontece á maioria dos Francezes que de Camões fallam; os quaes, logoque se trata do Homero portuguez, clamam: «Como he bello o episodio de Ignez! E o do gigante Adamastor!! Assim não tivesse o poeta confundido o paganismo com o christianismo!» Tudo isto porêm não he delles, he apenas o apressado juizo de Voltaire com emphase repetido. Delille fez mais que lêr a Voltaire, leu a pessima e ridicula traducção de La Harpe, e leu-a mesmo sem attenção. — A ilha dos amores não he imitada de Virgilio, he totalmente original; nem pode ser confrontada com o episodio de Dido, por ser materia hetorogenea. O grande epico imagina que Venus, a protectora dos Portuguezes, fez nascer no meio dos mares uma ilha encantada em que os seus valídos repousem das fadigas da viagem, e com auxílio de Cupído inflamma[3] as Nereidas; as quaes, vencidas dos navegantes, em dansas e tangeres, os recebem e alegram, rendidas ás suas caricias. A descripção do pomar e jardim, a das nymphas que, estando a banhar-se, se escondem n'agua para não lhes apparecerem nuas; a pintura das aves e outros animaes, tudo, tudo he primoroso. Se Camões porêm neste episodio não imita o seu mestre, com elle se assemelha no estilo, sempre conciso e imaginoso; a harmonia imitativa he tanta e perfeitissima, estupenda a variedade,[4] a melodia inteiramente virgiliana. Quam poetica não he a lembrança de introduzir Thetys, a espôsa de Neptuno, acolhendo a Vasco da Gama com pompa honesta e régia, e tomando-o pela mão para lhe explicar a rica fábrica do mundo! O descobridor da nova róta das Indias merecia bem estas honras da parte da raínha do oceano. Quam sublime não he o canto da nympha (a quem, pela voz, Camões chama angelica Sirena, e alguns críticos tem crido ser uma serêa) quando vaticina as façanhas futuras dos Portuguezes! Aqui he que o poeta imita a Virgilio no livro VI da Eneida, mas com quanta originalidade! — Ora, comparar tudo isto aos amores de Dido he comparar uma tragedia com um idyllio, uma nenia com um hymno de alegria. Em vez de recorrer a Voltaire, genio extraordinario, mas
que se enganou lendo os Lusiadas por uma inexacta versão ingleza; em vez de recorrer ao pedantesco[5] juizo de La Harpe, e a estas miserias de Delille; em vez de recorrer ás inexactidões de Sismondi, o qual confessa não ter lido muitas das obras que se atreve a criticar, todo Francez que ignora o portuguez, se quizer conhecer a Camões razoavelmente, recorra a Mr. Ferdinand Denis, seu autor o mais instruído nas cousas do Brazil e de Portugal, ou tambem á traducção de Mr. Millié, bem como ás notas que lhe vem annexas: nellas falla-se da ficção da ilha encantada, mostra-se que he uma allegoria desconhecida pelos criticos, e defende-se o autor ácêrca da mistura do christianismo com o paganismo. Verdade he que uma ou outra vez algum máo uso faz elle da fábula, defeito que lhe era commum com os contemporaneos, e que se lhe lança em rosto exclusivamente; mas he tambem verdade, como notou o sagaz ingenho de Mme de Staël, que só emprega o maravilhoso do paganismo na pintura dos prazeres, e o do christianismo nas cousas graves e sérias da vida: o heroe Vasco da Gama, por exemplo, nunca se dirige a Mercurio ou a Jupiter; e para a ficção da ilha dos amores não houve concêrto do Padre-Eterno com Venus e Cupído, como inexactamente o affirma o paraphraseador da Eneida. O seu triste juizo a respeito de Camões foi para mim uma occasião de grande prazer, o de lêr mais uma vez o episodio da ilha dos amores. — Se Delille tivesse meditado, e não se contentasse de ostentar a este respeito uma falsa erudição, observaria que, a ser este canto indigno de emparelhar com a poesia de Virgilio, não teria sido o modêlo da ilha de Armida. A idéa principal tirou-a Tasso de Camões, a quem tanto amava, e do poeta latino imitou muitos rasgos sensiveis; tecendo porêm tudo com tanta arte, e do seu accrescentando bellezas taes, que esta parte da Jerusalem, não sendo a ilha do bom Luiz, como elle chama o seu unico rival nesses tempos, nem o livro IV de Virgilio, he um dos melhores trechos entre antigos e modernos. Na mesma passagem em que Delille tanto se desmanda, affirma que o palacio encantado, obra do Amor, tam caro a Armida, emquanto he habitado por Reinaldo, e entregue ás chammas depois da sua partida, he uma das idéas mais felizes concebida jamais por nenhum poeta epico. — Postoque seja uma digressão, consintam-me refutar esta affirmativa; refutação que redunda em honra da literatura da nossa lingua. Francisco de Moraes, no Palmeirim de Inglaterra (em prosa, mas bella composição poetica do genero epico) concebeu o palacio de Leonarda; palacio encantado onde essa princeza, fructo de um amor infeliz, foi encerrada, e que tambem desappareceu, depois que ella desencantada sahiu dalli para casar. A imaginação do poeta portuguez não he menos fertil que a do italiano, e a aventura da copa, que precede ao desencantamento, he igual ao melhor de Ariosto. A mais atreveu-se[6]
Francisco de Moraes, compoz dous desencantamentos, este que mencionámos, e o da mesma Leonarda pelo cavalleiro do selvagem e por Daliarte do Valle-Escuro; isto com tal invenção, que nos dous desencantamentos não ha lance em que um se pareça com o outro. Não he de balde que Cervantes queria uma caixa onde o Palmeirim fôsse guardado com as obras do poeta Homero; não he de balde que Walter-Scott falla delle com tanto louvor.

Quem attentamente examinar o episodio de Camões e o poema de Moraes, autores que escreveram antes do Tasso, verá que este se aproveitou assim de um como do outro, se bem de um modo magistral e com toques originaes. O palacio de Armida não he o mesmo que o de Leonarda, mas offerece muitos pontos de contacto; e no desencantamento da selva, operado pelo bravo Reinaldo, bem se conhece que não foi inutil a Tasso a leitura de Moraes, assim como a este não o tinha sido a do Orlando furioso. Os poetas aprendem uns dos outros; o que nada obsta ao talento e á fôrça creadora; antes, como diz Mme de Staël, fallando de Petrarca e de seus profundos estudos, conhecer muito serve para inventar, e o genio he tanto mais original, quanto, semelhante ás fôrças eternas, sabe estar presente a todos os seculos.

Ao concluir esta refutação, não quero dissimular que na ilha dos amores ha quatro ou seis versos condemnaveis, por contêrem idéas lascivas, se bem exprimidas com palavras decentes; e não he só nesta linda composição que deve ser Camões reprehendido por taes descuidos, de que Virgilio nunca lhe deu o exemplo. Esses versos comtudo não podem embaciar o esplendor de um episodio que abrange boa parte do canto nono e entra muito pelo decimo, no fim do qual ha pensamentos grandiosos, da mais bella poesia e da moral mais sublime.




NotasEditar

  1. É um possível erro tipográfico: nestes.
  2. No original está Comões.
  3. Mais acima, está imflammadas.
  4. No original, está variadade.
  5. No original, está pedandesco.
  6. No original está atraveu-se, erro tipográfico.