Eneida Brazileira/Notas ao Livro V

Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro V


NOTAS AO LIVRO V.

1-15. — 1-15. — Medium iter he a róta feita ao largo da praia africana. Para se estar ao largo não he forçoso têr perdido a terra de vista, como cuidava Desfontaines: parece que os maritimos se consideram ao largo desde que podem manobrar em todo o sentido, quer ainda se enxergue a terra, quer já tenha desapparecido. — Aquilone he tomado na accepção propria de vento norte, e não por qualquer vento, como julga La Rue: partiram com o máo que soprava, por executarem as ordens celestes; e, sendo escasso, foram orçando o mais possivel, ajudando-se dos remos, até que, surgindo um bravo oeste, Palinuro propoz a Enéas arribar ás praias de Eryx junto ao Lilybeu ou capo di Marsella; o que approvou o chefe, não só pela necessidade, como para suffragar as cinzas de Anchises. Com que arte sabe tecer o poeta os episodios na sua fábula! — Colligere arma não he enrizar as vélas como quer Servio, porque arma comprehende mastreamento, velame, apparelhos, todo o necessario á navegação; colligere arma he desempachar o navio de quanto possa dar péga ao vento, desafogal-o para melhor se manobrar. Tendo Palinuro de pedir licença a Enéas para arribar, da qual devera estar certo pela confiança que lhe inspirava, enrizar as vélas, operação longa e difficil, para ao depois desfazer os rizes quando obtivesse a licença, fôra perder tempo e trabalho. Veja-se o Virgilius nauticus, de pag. 49-53, e de pag. 105-106.

28-33. — 28-33. — Flecte viam velis he o que em phrase maritima se chama virar pelo redondo. Com demasiado vento, vira-se dando uma grande vólta e correndo muitos rumos, até chegar ao que se quer; operação mais segura, bem que faça perder caminho. — O Zephyro, ou oeste, que ha pouco era contrário, mudado o rumo, tornou-se favoravel; mas eram grossos os mares, e mais o pareciam a quem então navegava em pôpa. Todas estas miudezas provam com quanta razão nomêa Mr. Jal a Virgilio o poeta marinheiro. Os criticos e commentadores que, sem conhecerem da materia, se mettem a emendar o autor ácêrca da escolha dos ventos e de outras particularidades, bem se podem appellidar de agua doce, como se diz dos máos versificadores.

36-38. — 36-38. — A respeito de Acestes, dos ursos na Lybia, da exactidão deste lugar, vejam-se as notas de Mr. Villenave; que he mais feliz quando defende, que quando censura o poeta. Com Buffon prova-se que ha ursos na Africa, mas não dos negros.

51-54. — 51-54. — Faz Gaston aqui um reparo assás razoavel: «Se o heroe tivesse a faculdade de reflectir, nada prometteria acima das suas posses. Captivo em Mycenas, poderia celebrar em honra de Anchises pompas funebres e solemnes? Por certo que não; mas folga-se de vêr um terno e religioso filho crêr que nada he impossivel ao amor que tem a seu pae.»

64-71. — 65-72. — Delille faz começarem os jogos no outro dia, começando-os o poeta no nono. O ore favete omnes, equivalente ao Favete linguis de Horacio, era a fórmula com que os sacerdotes, no encetar o sacrificio, impunham o silencio. Segundo porêm Seneca (de Vita beata, cap. 27) o silencio podia não ser absoluto, mas vedava-se toda palavra profana. Diz tambem Horacio: «Male ominatis parcite verbis.»

77-83. — 77-84. — Virgilio, a quem seguiu Ovidio, attribue a Enéas as instituições religiosas dos Romanos, e as descreve quaes ainda se usavam; o que era interessantissimo[1] aos contemporaneos: isto mostra o caso que nos cumpre fazer de La Harpe, o qual julga demasiados os sacrificios que celebra o heroe piedoso. Este crítico, bom no ajuizar a literatura franceza, pouco versado era na antiga, e não muito na literatura estrangeira. — Jarra verte carchesium; que era, segundo Atheneu, poculum oblongum, in medio leviter compressum, auribus utrimque ad fundum usque pertinentibus: as jarras tem uma fórma semelhante. Para os que julgarem o termo portuguez insufficiente, adoptando eu o latino, assim mudo os meus versos 78-79: «Libando em regra, dous carchesios vasa, De leite fresco dous, dous outros... etc.»

84-95. — 85-98. — Sob a fórma de serpentes se representavam os genios dos heroes e dos lugares, como aqui Virgilio. Era a serpente o symbolo da patria, da vida, da saúde, da immortalidade, da astucia, do anno, entre os povos antigos. Gaston cita o reparo de alguns sôbre ser este animal venenoso consagrado como attributo do deus da saúde, e diz que, segundo Pausanias, este privilegio tinha só uma especie de côr tirante ao amarello, destituída de peçonha. Em verdade, assim no velho, como no novo mundo, muitas ha innocentes: podiam comtudo as mesmas que o não sam vir a ser o attributo daquelle deus, por allusão á medicina que emprega os venenos para cura de muita molestia; e a vida longa dellas, que suppõe constante saúde, explica a razão por que eram dedicadas a Mercurio, e symbolizavam a immortalidade. Os selvagens da nossa America ácêrca destes animaes tem opiniões bem semelhantes ás dos antigos.

96-97. — 99-100. — Bimas quer dizer de dous annos; corresponde
a bidentes, de que o autor usa bem vezes. Para variar, sirvo-me ora de bimas, ora de bianejas, adjectivo composto de bis e de anejo com a mesma significação; mas, para os fins da traducção, ponho só ovelhas do estilo, ou do rito, ou do costume, porque já se sabe de que ovelhas se trata. Tergi-nigrante, isto he de dorso tirante á côr negra, vem nos Martyres de Francisco Manuel. 114-115. — 119-120. — Gravibus remis, como o demonstra o autor da Archeologia naval, não significa fortes remos. Os navios eram iguaes nos cascos; no comêço do pário, a remada era pausada ou grave, esperando os contendores pelo sinal para vogarem com fôrça. He natural o que diz Mr. Jal; pois, sempre que se entra em aposta que requer esfôrço, este só se emprega no ponto fixo, por evitar-se uma fadiga intempestiva. Os traductores verteram mal este passo, nem attenderam ao termo carinae; o qual mostra que a igualdade dos navios consistia nos cascos; poisque a fórma dos cascos he que mais influe no andar e ligeireza. — Fraguier, nas Mémoires de l'Académie des belles-lettres, tom. II, pag, 160, diz que estes jogos sam os de Homero na Iliada; mas que lá vem mais a proposito, bemque Virgilio os varie com agradavel gôsto, e que seja da sua invenção o pário naval. Eu digo porêm que os jogos de Homero tem a melhoria de serem celebrados logo depois da morte de Patroclo, o que torna importante quanto faz Achilles em desafôgo da sua dôr; e os funeraes de Anchises, morto ha um anno, cujos feitos heroicos não eram recentes, não offerecem a mesma especie de interêsse: os jogos todavia sam a proposito como os de Homero, sendo uns e outros para honrar um finado querido; e se os que celebra Achilles sam devidos á amizade, o pio amor filial exige os que Enéas consagra á memoria de seu pae. Virgilio tem nestes jogos um merito especial, o de os fazer entrar no plano geral do poema, cujo fim era commemorar as cousas de Roma; porquanto nelles se descobre a origem dos que duravam no tempo de Augusto. Julga Pope que o poeta latino, imitando o grego só nos jogos do césto, do arco e da carreira pedestre, e accrescentando o das galeras, temeu não poder exceder a Homero no curso dos carros; alguns opinam que Virgilio assim obrou, não só porque Pindaro e Sophocles e outros haviam descripto muitas vezes o tal curso dos carros, como porque o das galeras era mais proprio de homens que ha sete annos erravam pelos mares. Eu cuido que elle o fez por tres razões conjuntamente: por não ser possivel exceder, sendo mui difficil igualar o grande poeta naquella descripção; por não querer trilhar uma vereda batida por tantos; por patentear o seu talento inventivo. Mas, se não era capaz de exceder o seu mestre no curso dos carros, soube crear outro em que nada lhe he inferior.
119-120. — 125-127. — Para os que não se contentarem com a nova interpretação que prefiro, aqui verto segundo a antiga: «Em tres filas por banda, em triplice ordem A voga desferindo...» Em justificação da que adoptei, vou reproduzir os convincentes argumentos de Mr. Jal. «Creio, diz no Virgilius nauticus, que o poeta não fez triremes da Chimera e dos tres navios que lhe desputavam o pário. Já mostrei que elle nunca foge do termo proprio: mostrarei agora que no liv. I chama alguns dos navios phrygias biremes, e que o nono traz: Geminas legit de classe biremes. Se expressamente nomêa as biremes, porque evita nomear as triremes? Porque não diz: Quatuor ex omni delectae classe triremes, em vez de delectae carinae? Isto fôra mais lucido e simples, e no technico sabe-se que Virgilio procura a simplicidade e a lucidez. Porque, sequer por alguma allusão, n'um longo poema em que tanto os navios figuram, não dá jamais a presumir que estes sam de tres ordens de remeiros? Emprega o termo navis 45 vezes, 22 o termo ratis, 23 carina, 2 biremis; nem uma só escreveu triremis. Por que singular capricho desdenharia um termo que fielmente representara a sua idéa? Passa elle acaso por caprichoso? Virgilio he um espirito razoavel e forte, que não condescende com a phantasia, repelle expressões vagas de que se teriam revestido mal os seus conceitos, sempre tam claros, e só admitte a periphrase quando esta não lança um véo obscuro no objecto que busca designar. Tem elle noventa occasiões, sem contarmos as em que, segundo os seus commentadores, toma puppis e prora por nau, de escrever triremis, e nunca o faz, parecendo mesmo evitar a palavra com cuidado; o que basta para julgar-se da questão. — Oppôr-me-ão os versos: Amissis remis, atque ordine debilis, uno, Irrisam sine honore ratem Sergestus agebat; dir-me-ão que ordine debilis uno prova que a Centauro tinha várias ordens de remos: sei que vem nos commentarios que era debilis uno ordine, aut quia non nisi unum ordinem remigum retinuerat, aut quia uno e tribus ordinibus spoliatus fuerat (Ascencio, f. 92). Respondo porêm que os versos isto significam: «Estando muito maltratada a serie de remos de uma banda, e da outra inteiramente sem elles, Sergesto reconduzia o navio entre as vaias dos que das praias o apupavam.» Ordo não he um andar, he uma fila; he todo o lado de estribórdo ou de bombórdo: no caso presente, he a fila da esquerda. O poeta nos mostra a Centauro tendo perdido muitos dos seus remos da direita, ao esforçar-se por desprender-se do rochedo, e falha de todos os de bombórdo, que se quebraram no recife, obrigada comtudo, para voltar ao pôrto, a servir-se dos pedaços (fractis remis) e a fazer delles uma serie que remediasse a falta. Isto me parece evidente. He mais lastimavel Sergesto nesta situação, que o reduziu a uns cotos de remos, do que seria se, perdidas as vogas de uma ordem, lhe restassem as de duas, ou mesmo
se, perdidas as das duas, lhe restassem as de uma só. — Accresce que amissis remis he totalmente contrário á supposição dos tres andares de remos. Que significaria ordine debilis uno, depois das palavras que annunciavam a perda dos remos das duas outras ordens? Se perdeu Sergesto os dos tres andares, claro he que está desprovido dos de uma fila; debilis uno ordine seria uma simpleza das de que Virgilio era incapaz. E não tendo mais que uma ordem de remos, se a Centauro de um bórdo se acha inteiramente falha (ordine debilis uno) e se do outro apenas restam algumas vogas, porque delle perdeu muitas, remará com alguns cotos, e reconduzirá sine honore o seu navio, de que zombavam, por estar como ratis, que n'agua deslisa á mercê da corrente e dos ventos, jangada apenas dirigivel. — Ratem he preferido pelo poeta a navem; porque sua imagem he mais completa e maior: não he um vão synonymo. Ratem perderia todo o seu valor se Sergesto ainda tivesse duas ordens de remos sobrepostas, embora incompletas e damnificadas. Para que o termo conserve a energia que lhe imprimiu o poeta, he mister, por exemplo, que dos seus cincoenta remos (25 de cada banda em uma fila) a Centauro perdesse tantos, que volte apenas com uma meia duzia, repartidos por ambos os bórdos. — Amissis remis não se refere a ordine debilis uno; ordine debilis uno pinta o estado da esquerda do navio, cujos remos todos se quebraram, quer de encontro roçando pelo escolho, quer labutando por se descoser do recife; amissis remis denota que o estribórdo perdera muitos, assim pelos esforços da chusma para arrancar a nau do recife, como porque os sacaram do fundo com fustes e croques (ferratas sudes et contos). Cuido que tudo isto he incontestavel, a não se querer entender o verso desta singular maneira: Amissis remis unius ordinis, atque ordine debilis eodem. Mas ousar-se-ia emprestar a Virgilio tal syntaxe e locução tam obscura? — Já me guardo para uma objecção. Se terno ordine me parece dizer tres vezes consecutivas, como he que vejo uma fileira de remos em uno ordine? Eis o que se me perguntará. He bem simples a resposta: Ordo em Virgilio não significa sempre o mesmo. Pone ordine vites, na egloga I, tem certamente outro sentido que ponere ordine remos: o alinhamento das cepas nada tem de commum com o assento e a destribuição dos remos nas bordas de um navio. No livro IV das Georgicas (Manibus liquidos dant ordine fontes Germanae, tonsisque ferunt mantilia villis... Totiusque ordine gentis Mores et studia et populos et praelia dicam) ordine quer dizer por seu turno, successivamente; he o sentido que attribúo a terno ordine. Quanto á intelligencia da palavra ordo significando fileira de remos, he questão em que não se está de accôrdo; e, segundo o padre La Rue, valde ambiguum est. O Hollandez Meibom (de Fabrica triremium; Amsterdam, 1671) disserta largamente sôbre o sentido verdadeiro dos termos versus e ordo; pretende
que versus he multitudo in directum posita, e que ordo he multitudo non solum in directum posita, sed etiam loci prioris et sequentis, considerationem conjunctam habens. Scheffer, adversario de Meibom, confunde versus e ordo, na pag. 87: Non tam ex numero remorum, sicut praecedentes, quam ex versibus quibusdam, vel potius ordinibus, sua nomina sortita esse. Não me quero ingerir nesta questão, cujo desfecho pouco importa ao leitor; assás he ter mostrado que dous criticos habeis não entendem versus do mesmo modo, e que em Virgilio ordo não tem um sentido invariavel. Não nego que versus possa tomar-se por fila de remos; estou porêm convencido que, no caso do triplici versu, exprime idéa bem differente. Não nego que ordo muitas vezes designe um certo alinhamento (desconhecido) das vogas; mas creio que o terno ordine do liv. V da Eneida se deve entender como ordine do liv. IV das Georgicas. — Virgilio não diz expressamente que a Centauro e a Chimera fôssem triremes; o que nos dá a conhecer dos remos da Centauro, prova que este navio não tinha mais que uma fila delles; nunca em seu poema nomêa as triremes, quando nomêa duas vezes as biremes: não he pois de triremes que se trata nesta passagem, que eu explico diversamente que todos os traductores. E o triplice versu, a meu ver, exprime um canto tres vezes repetido, um clamor, um hourra, uma especie de celeuma, de que ainda he viva a tradição em nossos navios, onde em todos os trabalhos de fôrça, v.g. quando se alam as bolinas, um marujo, o verdadeiro hortator das embarcações antigas, canta: Ouane, tou, tri, hourra! (one, two, tri, hourra! — em inglez). A tradição velha estava cheia de vigor na meia idade, em Veneza, onde a chusma do Bucentauro, sempre que o navio ducal passava ante a capella da Virgem, construída á entrada do Arsenal, gritava tres vezes: Ah! Ah! Ah! dando uma pancada com o remo depois de cada uma destas acclamações. Pretendeu Virgilio consagrar em dous versos a lembrança de um estilo observado no seu tempo, em certas occasiões; e eis-aqui tudo. Ascencio, que de certo cuidava serem triremes os navios do pário, hesitou sôbre a accepção do vocabulo versus; diz com effeito: «Triplici versu, id est, ordine aut impulsu quo aequora verrunt, aut cantu quo utuntur, ut simul verrant, aut omnibus his.» Esta interpretação timida he pouco mais ou menos a de Servio. Todavia Servio não se aventurou a traduzir versus por cantus. Ascencio enxergou a verdade, mas não ousou demorar-se nella. Em abraçando a sua hypothese, demonstrei ser a unica admissivel; mas demonstrei-o com razões que talvez o commentador não teria acceitado, porque derribam a sua opinião sôbre o terno ordine.» 139-150. — 147-160. — Este livro, collocado entre o pathetico do quarto e o sublime do sexto, não apraz tanto ao commum
dos leitores, postoque não seja menos bello. O autor nelle emprega maior número de onomatopeias que de ordinario; e he sem dúvida pela perfeição do estilo que a sua traducção he ainda mais difficil que a dos outros. Em todo este harmonioso trecho tratando eu de imitar a variedade e a metrificação do autor, escrevi o meu verso 153[2], que ao vulgo parecerá mal modulado; mas fil-o de proposito, ajuntando cinco breves consecutivas, para pintar a precipitação dos carros. Versos desta medida acham-se em Camões, Ferreira, Francisco Manuel, Basilio da Gama e Alvarenga.

177. — 185. — O leme de que se trata, era um remo de pá larga, semelhante aos que chamamos hoje no Brazil esparrellas. O Virgilius nauticus, pag 63-64 explica a fórma desta especie de leme. Verti clavus por clavo, porque a nossa palavra cavilha, empregada para significar outras cousas, não daria uma idéa clara do objecto: veja-se cavilha em Moraes e Constancio. O clavo não era a haste da esparella,[3] mas uma peça de pao que em cruz atravessava a haste. As nossas jangadas servem-se destes lemes, com a differença que, em vez de os collocarem de um lado, os collocam no meio.

198. — 208. — Sou do parecer de Servio e Mr. Jal, e não do de Annibal Caro e João Franco: aerea puppis quer dizer forte pôpa, tomando-se aerea figuradamente; porque as pôpas não sam ferradas ou cobertas de metal, como cuidavam os dous traductores poetas, e Velasco que os segue. Mas conservo a mesma figura, vertendo bronzea pôpa: em portuguez, peito de bronze diz peito forte, peito robusto.

248. — 260. — Diz La Rue que talentum, tanto aqui como no verso 112, não se toma pelo talento attico; poisque Homero, na carreira equestre, poz em primeiro premio uma mulher com um caldeirão; em segundo, uma mulher prenhe; em terceiro, outro caldeirão; em quarto, dous talentos de ouro. Ora, conclúe o commentador, se o quarto premio era o menor, os talentos de que se trata não podiam ser dos grandes. Tem razão quanto a Homero; mas no magnum talentum de Virgilio, que não he senão o talento attico, eu vejo outra cousa. Enéas mandou distribuir um grande talento pela equipagem das tres naus; e, postoque valesse mais que cada um dos premios dos chefes, sendo repartido por todos, cabia a cada marinheiro uma quantia incomparavelmente menor que o valor do que recebera o chefe que menos ganhou. E na palavra addit do verso 249 descubro um costume que tem vindo até os nossos tempos: os chefes tiveram a sua porção do talento que se destribuiu pela equipagem, alêm da recompensa especial; e essa destribuição he provavel que fôsse proporcional á categoria dos premiados, conforme ao que hoje acontece na divisão das presas.

272. — 285. — La Cerda julga que o têr Virgilio dado a Sergesto a peior no pário das naus, foi para designar Catilina, que pertence á familia Sergia: eu não o creio. Por fôrça um dos contendores tinha de chegar o derradeiro; e, elegendo o poeta a Sergesto, não deixou de honral-o, mostrando o seu ardor e coragem, que lhe iam dando a melhoria sôbre Mnestheu, segundo se vê do verso 202-203, a não ser o desastre de ficar pegada a sua nau em um escolho ou restinga.

294. — 311. — O livro V não só nos recommenda as ceremonias funebres; celebra tambem jogos e commemora os do tempo de Augusto, o que muito quadra com o assumpto principal; faz apparecerem na scena as figuras que nos livros subsequentes ham de representar um papel mais ou menos brilhante; para lisongear várias familias d'Italia, deriva a origem dellas dos differentes contendores nestes jogos. Tudo isto prova a excellencia com que o poeta liga os episodios e caminha sempre a seu fim, e o como este não he somenos aos demais livros do poema. No pário naval, afora outros chefes illustres, se ostenta o valente Mnestheu, que tanto se destingue no livro IX regendo os Troianos em ausencia de Enéas: na carreira pedestre, os primeiros que sahem a terreiro sam Euryalo e Niso, ternos amigos e magnanimos, cujo heroico sacrificio tem de nos mover e commiserar no mesmo liv. IX. Para mais admirarmos o V, convem confrontal-o com os seguintes; e então conhecer-se-á que não só pelo estilo, mas principalmente em relação ao todo do poema, he que o philosopho Montaigne o amava em particular; pois Montaigne não era homem que preferisse o bello do estilo ao grandioso dos pensamentos: se tanto se contentava deste liv. V, he pela summa arte e ligação com que foi escrito; he porque desempenha uma das difficuldades maiores da tragedia e da epopéa, a de preparar os movimentos e lances vindouros.

319-324. — 337-343. — No emicat vejo eu mais que um salto. Quando passa por nós qualquer objecto apressadamente, o ar vibrado pelo moto e a luz nos causam um certo tremor na vista: parece-me ser o pensamento que exprime o verbo emicat; e, se não he, nem por isso a minha traducção offende o texto, antes lhe accrescenta uma idéa conveniente. A minha convicção he que apenas deixei de ser infiel ao original. — O calcanhar de Diores não podia roçar o de Helymo que voava adiante: calcem calce entende-se pois dos artelhos; pois, quando um emparelhava com o outro, os artelhos de ambos bem se podiam tocar. Ao menos, assim entendida, a cousa vem a ser mais clara.

337-338. — 360-362. — Mr. Tissot diz de Euryalo: «Porque, por exemplo, na idade em que tanta rectidão e nobreza ha nos
primeiros movimentos, não teria elle o temor de parecer usurpar a victória, e a generosidade de se limitar ao segundo premio? Então he que todos commovidos repetiriamos: Gratior et pulchro veniens in corpore virtus.» Respondo que a juventude he nobre e generosa, mas que está bem longe da rectidão que lhe attribúe o crítico. Virgilio conhecia melhor o homem, sabia que no moço aduna-se a nobreza e a vaidade: no afôgo de vencer em que Euryalo se achava, o seu primeiro natural movimento era o de acceitar a vantagem que lhe tinha procurado o seu Niso; e mesmo este poderia levar a mal que o amigo reprovasse o ardil. Euryalo tinha virtude e generosidade, com os defeitos proprios dos seus annos. He inconcebivel o que pretende Mr. Tissot: ora censura o autor (como já atrás vimos) por fazer os seus heroes inteiramente perfeitos; ora julga esses mesmos heroes improprios para governar os homens que mandam; ora exige que o poeta ponha em um menino, não só toda a generosidade, mas tambem toda a justiça; qualidade que nasce do fundo do coração, mas que se reforça com a experiencia. Chateaubriand, segundo a poetica versão portugueza, assim diz a este respeito: «Moldou Jove á piedade os annos tenros: Se nós-outros anciãos, vergando curvos C'o pendor de Saturno, agasalhamos Na alma a justiça e a paz, privados somos Da compaixão, dos meigos pensamentos, Que ornam da vida os mais formosos dias.» Eu suspeito que os estudos de Virgilio e de Chateaubriand, na materia, eram mais profundos que os de Mr. Tissot. Não me demorarei em refutar os desparates de Mme Dacier ácêrca desta passagem da Eneida. 362-484. — 381-506. — Todos estes versos emprega o poeta no combate de Dares com Entello. Muitas paginas me seriam precisas para apontar as bellezas do estilo e da versificação: o leitor instruído facilmente as discernirá; e o que o não fôr, advertido como está nas anteriores notas, poderá por si mesmo descobril-as. Veja-se Delille sôbre a harmonia imitativa do liv. V. — Fallarei apenas da nota de Mr. Villenave ao verso 413; o qual, com justiça reprovando a censura de Heyne, accrescenta: «Elle criticaria os chiens dévorants que se desputavam des lambeaux affreux! Elle acharia algumas vezes Racine e Corneille fastidiosos!» Estas admirações provam que Mr. Villenave pensava que era mais facil encontrar em Virgilio cousas fastidiosas, do que em Racine e Corneille. Fóra vaidade nacional! Os dous grandes e sublimes tragicos tal não diriam: Racine certamente cria fastidiosas quasi todas as scenas da infanta de Castella no Cid; e Corneille não achava boa a tragedia Alexandre. — O mesmo crítico, ácêrca da traducção dos versos 451-452 por Delille, ajunta: «He o privilegio do poeta, a quem he permittida a imitação; mas o prosador se deve limitar a traduzir.» Eu digo: «O poeta não deve imitar, mas traduzir o poema; do contrário,
seria mais facil uma versão poetica do que em prosa.» Traducções livres sam commodas; porque, se o autor sabe traduzir a passagem, fal-o, e se não sabe, lança-se em uma vaga imitação: assim, nem tem o merito da invenção, nem o de vencer as difficuldades em se transformando no original.

485-544. — 507-563. — Aqui trata-se do jôgo do arco e setta, em que Virgilio excede ao mestre grego. Vejam-se os autores tantas vezes citados, sôbre todos Mr. Villenave, a respeito de todo este certame.

600-602. — 620-623. — O poeta, não perdendo de vista o assumpto principal, neste jôgo equestre pinta o que ainda em Roma se usava, e que se cria derivado dos Troianos; e faz algumas familias descenderem dos contendores. La Rue dá sôbre a materia excellentes explicações.

667-672. — 670-697. — O poeta começa a preparar Ascanio para desempenhar o papel que representará nos ultimos livros: até aqui era um menino que amava as distracções da sua idade; mas agora, sem se querer sujeitar a mestres, a si toma o cuidado de ir apaziguar as mulheres que incendiaram as naus, e o seu discurso tem já uma certa madureza.

722. — 745. — Mr. Villenave, com a mania de ajuizar dos antigos pelas idéas modernas, escreveu: «Os commentadores, que tudo querem explicar, dizem que trata-se aqui da imagem, da apparencia de Anchises, isto he da sombra da sombra; mas que he uma sombra senão uma imagem, uma apparencia?» A observação he razoavel segundo as idéas actuaes, mas não segundo as idéas daquelles tempos. Sam bem conhecidos estes versos attribuidos a Ovidio: Bis duo sunt homini: manes, caro, spiritus, umbra: Quatuor ista, loci bis duo suscipiunt. Terra tegit carnem, tumulum circumvolat umbra, Orcus habet manes, spiritus astra petit. Esta distincção nos parece mal, como parecerão mal aos vindouros não poucas das nossas.




NotasEditar

  1. No original, está interessentissimo.
  2. No original, consta 53, erro tipográfico.
  3. Mais acima, nesta mesma nota, está esparrella.