Eneida Brazileira/Notas ao Livro VIII

Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro VIII


NOTAS AO LIVRO VIII.

1-6. — 1-5. — A tropa romana, quando cada soldado jurava não largar as armas antes do fim da guerra, chamava-se militia legítima ou sacramentum. Quando, em grande perigo e tumulto, o general subia ao Capitolio, e levantando dous estandartes convocava os que o quizessem acompanhar, essa tropa, que jurava em massa e por acclamação, chamava-se conjuratio: o estandarte vermelho era para a infantaria; o azul, para a cavallaria. Quando se mandavam fazer levas á fôrça, a tropa se dizia evocatio: alguns affirmam que a evocatio era quando o povo em armas se ajuntava tumultuariamente; mas a primeira opinião, que he a de Servio, parece a mais seguida. Virgilio aqui, segundo a sua maneira, allude ao costume romano e o deriva de uma alta antiguidade. O estandarte que em latim se nomeava vexillum, quadrado e suspenso de uma haste, em portuguez commummente se diz pendão. 31-65. — 29-53. — Enéas fatigado se deita á borda do Tibre, e em sonhos lhe apparece o deus; aconselha-o que vá a Pallantéa pedir soccorro a Evandro, que andava em guerra com os Latinos: desta bella creação aproveita-se o poeta para fallar ainda dos primordios de Roma. Camões imitou-o no canto IV dos Lusiadas; e a imitação he superior ao original: não só o estilo do Portuguez he alli de uma perfeição que nem a Virgilio cede, mas a causa da apresentação do Indo e do Ganges a D. Manuel he muito e muito maior: o Tiberino avisa a Enéas que ajunte o seu campo com o de Evandro e peça-lhe auxílio; o Ganges, o mais grave na pessoa, brada ao monarca portuguez que mande receber os tributos que os povos das suas ribeiras e das do Indo haviam de lhe pagar, postoque depois de uma guerra sanguinolenta: a causa, repitirei, da apparição dos dous rios da Asia he mais importante; e, assim como não poucas vezes Virgilio imitando excede a Homero, desta feita o seu imitador o sobreleva evidentemente. A visão que o rei teve das varias nações que lhe deviam obedecer; o andar majestoso dos dous velhos, baços e denegridos, como os que habitam as margens regadas por suas aguas; a cansada presença do Ganges, que vinha de mais longe; os ramos e hervas desconhecidas que ambos nas mãos traziam, tudo he da mais sublime poesia; tudo encerra finos e tantos pensamentos, que excedem as palavras. Em nenhuma outra parte das suas obras Camões foi mais digno de ser comparado ao poeta latino pela precisão e belleza das imagens. — Quanto ao celsis caput urbibus exit, escreve Mr. Bonstetten: «Plinio assevera que no seu tempo o Tibre era ornado de mais palacios do que havia no
resto do mundo. Perto de Ancio, no fundo, ao longo da praia, avistam-se palacios tam bem conservados nos alisserces, que parece terem-se desenhado nas aguas plantas de architectura, e em terra se deixam vêr outras immensas ruínas.»

68-77. — 65-75. — O costume dos antigos de se voltarem ao oriente, quando oravam, foi adoptado pelos christãos. A agua benta vem da agua lustral dos pagãos. Dá-se aos rios o epitheto cornígero, porque eram honrados sob a figura de um touro, ou por causa dos mugidos das suas ondas, ou por terem muitos braços: eram tambem representados sob a figura humana, mas de cornos na testa.

97-114. — 94-111. — Ao se approximarem as embarcações ao pobre e pequeno burgo de Pallantéa, assento futuro de Roma, Pallante se ergue da mesa, onde se achava com seu pae Evandro e com os principaes da terra, em um festim solemne em honra de Hercules; péga da lança, e de um outeiro exclama aos Troianos: «Juvenes, quae causa subegit Ignotas tentare vias? quo tenditis?..., etc.» Delille com razão admira as poucas palavras empregadas para informar-se de tanta cousa. Esta concisão lembra-me a estancia L do canto VI dos Lusiadas, onde o autor em dous versos diz que aos doze de Inglaterra as damas escreveram, cada uma ao seu; todas a D. João I, e o duque de Alencastro, a cada um dos cavalleiros e ao rei.

127.-133. — 123-128. — Mr. Tissot, a quem segue Mr. Villenave, pondera: «Aqui não ha esfôrço de virtude, nem occasião de blasonar da coragem de vir expôr a cabeça a um perigo imaginario. Apenas poderia assim fallar Enéas a um tyranno cruel e feroz como era Mezencio.» Ora, postoque Evandro fôsse bom de coração, o têr sido um dos chefes dos Gregos, ser parente dos Atridas, inimigo dos Troianos outrora, eram circumstancias que deviam ser attendiveis a um principe que, por qualquer imprudencia, podia comprometter a grande causa: todavia as outras considerações, que elle expende a baixo, venceram esse tal qual receio. E he por um artificio oratorio que Enéas faz valer a franqueza com que se expõe a pedir auxílio a um antagonista de Troia; pois deste modo se insinuava no espirito de Evandro, mostrando-lhe a seguridade que lhe inspiravam as pessoaes virtudes do grego monarca. De mais, Mr. Tissot interpretou mal o mea virtus do verso 131: aqui não significa esfôrço de virtude e coragem da parte de Enéas; significa sim, como reflecte o padre La Rue, a consciencia de nada ter feito para incorrer no odio de Evandro, a confiança na propria lealdade. Neste sentido verti este lugar; e o mesmo fizeram o Snr. João Gualberto e Barreto Fêo.

162-163. — 157. — «Mr. Tissot, diz Mr. Villenave, com razão se maravilha de que Evandro nada ache louvavel em seu amigo velho senão a estatura: Cunctis altior ibat.» Os dous criticos se mostraram bem pouco sabedores da[1] opinião dos antigos neste ponto: elles criam que a altura era propria dos heroes, e que só por excepção podia ser valente um homem de pequeno talhe. Chateaubriand, que gyrava em outra esphera de erudição, no livro II dos Martyres, na bôca de Demodoco põe o que dou aqui traduzido por Francisco Manuel: «Bem que aos paes nunca em talhe igualem filhos, E ao pae ceda em vigor e em talhe Eudoro, Pelo talhe de heroe o eu conhecera.» Evandro pois da superioridade da estatura de Anchises infiria que elle se avantajava em fôrças e denodo. O mais forte e corajoso dos Gregos, segundo Homero, era tambem o mais alto e esbelto.

190-267. — 185-261. — O poeta não tirou o episodio de Caco da sua imaginação; o facto era contado pelos historiadores: Dionysio de Halicarnasso e Tito Livio o referem. He sabido que este pedaço he uma obra prima, pela harmonia, pelas imagens, pela belleza das expressões e pelo todo da narração. Delille traz excellentes reflexões ácêrca deste episodio, e a Delille me reporto. Observe-se a arte com que se introduz esta fábula: como Enéas encontra a Evandro no acto de celebrar um sacrificio a Hercules, sacrificio a que se associou por convite do mesmo Evandro, era bem factivel que este lhe explicasse a causa; e assim o episodio nasce da acção com naturalidade. Tem-se opinado que a pompa do estilo e a rapidez parecem não conformar com a velhice do rei, cuja imaginação devera ser mais lenta; porêm a excitação em que elle se achava, a religiosidade propria do seu caracter e mesmo dos seus annos, justificam plenamente o tom solemne da narração de uma façanha de que fôra testemunha: os velhos tomam fogo ao se transportarem ás cousas do seu tempo. — A opinião dos antigos, fundada em inscripções, bem como a da maior parte dos modernos, he que a caverna de Caco era vulcanica, junto ao monte Aventino; mas Mr. Bonstetten differe: «Não ha ahi caverna de Caco; a de Virgilio existiu certamente nos arredores de Roma. Uma conheço eu não longe do Aventino, da outra banda do Tibre, no Monte-Verde, pouco mais ou menos como elle descreveu a de Caco. O governo a fechou para que não servisse de couto aos Cacos modernos, isto he aos ladrões. He voz que a fábula de Caco tinha por fundamento historico a lembrança de um volcão; não ha probabilidade alguma de que o houvesse no Aventino, cujo local a isso repugna absolutamente.»

271-272. — 265-266. — Heyne e outros pensam que ha aqui interpolação. Refere porêm Servio que o altar de Hercules, chamado
Ara Maxima, existia em seu tempo no forum Boarium, e era de prodigiosa grandeza. Ora sendo assim, conforme tambem se colhe de Propercio e de Ovidio, não vejo o porque Heyne acha o lugar indigno do poeta; o qual tinha em vista, como por vezes havemos notado, celebrar as antiguidades romanas, mórmente as do sítio em que he fundada a cidade eterna. Repare-se que, ao diante, elle não se descuida do seu proposito, fallando da porta Camental, do Lupercal no Palatino, do bosque Argileto, do Capitolio, do Tarpeio, e fazendo o contraste de começos tam humildes com a magnificencia da côrte de Augusto.

363-453. — 364-448. — Este episodio entre Vulcano e Venus, tudo que se passa na officina dos Cyclopes, he da mais alta poesia. Ao depois, no fim do livro, se faz a descripção das armas pelo deus encommendadas, e do broquel em que elle proprio trabalhou. Sendo uma imitação de Homero, concordam todos que he muito superior ao lugar da Iliada; pois o que vem gravado no broquel de Achilles, podia pertencer a qualquer outro guerreiro; e o que vem no de Enéas, lhe he proprio e particular, por ser um vaticinio do que tinha de acontecer aos seus descendentes.

558-593. — 549-584. — A falla de Evandro he uma das mais ternas do poema, e realça o caracter do rei. — He admiravel o perfeito quadro que representam os dous versos 592-593, vertidos nos meus 587-588. — Veja-se Delille, tanto ácêrca da falla, como dos versos.

594-596. — 585-587. — He bem conhecida esta passagem por causa do último verso, cuja onomatopeia imita o galope dos cavallos. Tratei de exprimil-a, e para isso preferi o termo antigo ungula ao moderno unha ou casco, que não tinham um som conveniente.

670. — 662. — Na descripção do escudo vem a figura de Catão de Utica a dictar o direito. Este só rasgo mostra o rigorismo dos que chamam o poeta adulador de Augusto. O pobre filho do camponez que, sendo despojado da sua herdade, a recuperou por graça do senhor do mundo, necessariamente lh'o havia de agradecer, e o meio era louval-o em seus versos; nem elle se tinha jamais apresentado como homem político, para ser esse louvor uma contradicção com a sua vida passada. Reflicta-se que Virgílio só gaba o bom que Augusto praticava para apagar o pessimo que fez quando Octavio; e, escrevendo a respeito das guerras civis, fulmina a todas, sem destinguir entre o seu protector e os contrarios. Louvou porêm ao mesmo tempo os inimigos de Augusto em quem achava merecimento e virtude, como nesta passagem a Catão, como a Gallo
na egloga X. Não se podia exigir nem esperar mais do pacífico burguez de Mantua. — Horacio, que tem sido accusado da mesma tacha, encontrou defensor habilissimo em Mr. Patin; o qual, com o lyrico latino em mão, demonstra que este sujeitou-se ao vencedor quatro annos depois, quando os maiores republicanos tinham cedido á necessidade, como aconteceu a Pollion, ao filho de Cicero, a Messala, tam brilhante na batalha de Philippos; e que o illustre filho do liberto, apezar dos afagos do seu poderoso amigo, nunca renegou o seu caro Bruto, e ousava jactar-se de têr merecido a confiança daquelle grande cidadão. Quantos autores ha, mesmo entre os vivos, que, depois de haverem troado contra as lisonjas de Horacio e Virgilio, vam accender podre incenso a rêis e magnatas, que sem possuirem as nobres qualidades de Augusto, só tem seus vicios e hypocrisia! — De mais, havia entre os dous grandes poetas e o imperador um ponto de contacto que os tornava amigos: apaixonados eram os tres da poesia e das bellas artes. Os poetas folgavam de louvar um principe esclarecido que as protegia, que tinha o mesmo gôsto que elles: nada ha mais natural. E note-se que Augusto com tanta igualdade os tratava, que os visitava em suas casas, e até compoz versos em honra de Virgilio. Luiz XIV, que fazia sentir que era monarca a Racine e aos outros seus protegidos, foi todavia lisongeado por todos; e não he tanto moda chamar a Racine adulador, como ao epico e ao lyrico romanos. Supponde que Augusto os houvesse olhado com desdem: em vez de estalar como o tragico francez, provavelmente Virgilio teria deixado a côrte sem nimio desprazer, indo para a sua Mantua ou para a sua aldêa de Andes; e o philosopho Horacio, em alguma satyra ou carta familiar, com finissimas allusões, teria rido da pequenez e do orgulho dos homens.

731. — 728. — O verso do remate, que Addison cria um dos mais bellos da Eneida, foi condemnado por Servio. Em materias de erudição he recommendavel o commentador, não em materias de gôsto. «Nesta descripção, diz Delille, o leitor havia perdido de vista a Enéas para só pensar em Augusto; mas Virgilio chama a attenção sôbre elle do modo mais destro e ingenhoso. N'um verso teve a arte de louvar os Romanos, lisongear a Augusto e celebrar o heroe. O presente, o passado, e o futuro, tudo alli se contêm, e o assumpto da Eneida se acha inteiro nesta imagem pictoresca.»




NotasEditar

  1. No original, está do.