Eneida Brazileira/Notas ao Livro XII

Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Notas ao Livro XII


NOTAS AO LIVRO XII.

Aqui he onde mais se usa do maravilhoso. Censura-se o quasi descanso dos deuses: Jupiter já não abala o Olympo; Juno já não suscita as borrascas, nem invoca as divindades infernaes. Mas, conforme Delille, he isto antes motivo de louvor que de vituperio: o que ha de mais potente se eclipsa ante a glória do chefe troiano; e a situação dos dous povos, o furor de Turno, a coragem do rival, offerecem majestade mais grave do que as máchinas epicas empregadas na occasião. Nada realça tanto o brilho de Enéas, como o represental-o apoderando-se das vontades celestes, e forçando a propria Juno a recorrer a um ardil, não para expulsar da Italia os Troianos, mas para salvar o seu protegido. «A surpresa e admiração, diz Segrais, sam frequentes. A fortuna, sempre voluvel, não cessa de entretêr a esperança e o temor. Fez-se a paz; he rôta por um agouro; peleja-se, vencem os Troianos; he ferido Enéas, sam repellidos os seus até aos arraiaes; Venus cura ao filho milagrosamente; o heroe levanta a coragem dos guerreiros; não podendo obrigar ao duello, vai assaltar a cidade; emfim Turno he constrangido a vir ás mãos. Cheia de incidentes a lucta, imprevisto sempre o desfecho, de contínuo cremos lá chegar, e novas circumstancias tendem a retardal-o." 383-440. — 368-423. — He ferido o heroe por mão desconhecida, e deixa vêr o poeta que foi pela deusa Juturna: nenhum mortal poude jactar-se de o haver feito. Cura-o Iapis, em quem Virgilio, por gratidão, representa Antonio Musa, seu médico e de Horacio e de Augusto; mas o médico tudo conseguiu com o soccorro de Venus. He nobilissima a impaciencia do heroe, que pede lhe arranquem o ferro, usem do meio mais prompto para tornar ao combate; e mal se opéra a cura, ainda coxeando da frechada, veste as armas, abraça e beija o filho, dizendo o que se lê na traducção, do verso 417-423. Aqui ha uma imitação de Homero, mas com a differença requerida pelas circumstancias. Mr. Nisard acha Homero muito superior: eu acho que ambos sam optimos, bem que diversos os quadros. Heitor beija a Astianaz, que se espanta da horrida crista do capacete; aos deuses o consagra, e lhes pede que um dia aquelle filho exceda a bravura paterna, e contando morto o seu inimigo, venha a ser o júbilo de sua mãe: he bella e sublime a despedida, e nunca foi o grande poeta assim pathetico, a não ser nas scenas passadas entre Achilles e Priamo depois da morte de Heitor.
Enéas, que fallava a um adolescente e não a uma criança, não podia servir-se de iguaes imagens; mas da coragem com que soffreu as dôres da operação, tira exemplo com que anime a Ascanio, a fim que se recorde sempre que o teve por pae e a Heitor por tio. Cada um dos dous genios igualmente soube aproveitar a situação. He por certo mais pathetico o lugar de Homero, porque o assumpto o ajudava; não foi porêm mais habil que o seu discipulo e êmulo.

681. — 665. — Enéas busca a Turno pelo campo, sem querer ferir os que lhe fogem, nem os que o arrostam; só quer o duello: vendo comtudo que Turno o evita, e que já um farpão de Messapo lhe tinha levado a cimeira e as plumas, se resolve a pelejar. O poeta retardou com arte o duello, para que os rivaes ainda assinalassem o seu indomado valor. Enéas, por inspiração de Venus, traça plano maior, ataca os muros de Laurento, depois de protestos solemnes. A raínha, ao vêr a entrada do inimigo, dando a Turno por morto no conflicto, suicida-se; o que mal sabe Turno, apezar das preces da irmã, corre a travar-se com Enéas. — O que se segue he admiravel; mas só direi dos versos 760 e 761, na traducção 737 e 738. Tem Mr. Amar que Segrais se acha embaraçado para justificar a Enéas de cobardia, por não têr consentido que substituissem a Turno a espada que se lhe quebrara. Aindaque não approvo que se collocasse o heroe na precisão de ser justificado, a pecha de cobardia não lhe cabe jamais; pois, não obstante haver Juturna trazido outra espada ao irmão, este não deixou de ser vencido e morto. Enéas tinha visto os pactos rotos já duas vezes, pelos capitães de mais nomeada que restavam a Turno, Tolumnio e Messapo; temeu que, a titulo de trazerem a nova espada, se introduzissem na liça dous ou mais campiões, que unidos a Turno, por si tam formidavel, o atacassem conjuntamente, a elle que não estava de todo são, nem com as suas fôrças e costumada ligeireza: sendo então o partido mui desigual, a perfidia podia fazel-o succumbir; e o chefe dos Troianos, cujo fim não era mostrar valentia, mas estabelecer os seus compatriotas, tinha a obrigação de prevenir os perigos.

O desfecho por um duello he como o da Iliada; mas Virgilio, vendo que a acção em Homero tinha enfraquecido com a continuação do poema por causa dos funeraes de Heitor, e vendo ao mesmo tempo que a pintura dos funeraes em si mesma era do mais bello effeito; imitando se houve com um tal gôsto que equivale ao menos á invenção: descreveu atrás os funeraes de Pallante com toques só proprios do seu pincel; e acaba a Eneida pelo duello, nada accrescentando ao dramatico deste remate.

«A Eneida, conclue Mr. Amar, he sem réplica uma admiravel obra de poesia, e uma das mais bellas de Homero, segundo se tem dito; mas, como epopéa, deixa infinitamente que desejar, quanto
ao plano, á disposição, e sôbre tudo ao caracter principal..... Um sabio moderno, L. A. Bartenstein, professor em Cobourg, vai mais longe: foram, no seu conceito, os louvores prodigalisados a Augusto e a seu govêrno que determinaram Virgilio moribundo a pedir que queimassem a Eneida; o que explicaria o afôgo do principe em a conservar.» Eu aqui não creio em Mr. Amar, nem em Bartenstein. Não sei como o primeiro acha infinitamente que desejar na Eneida: o que he infinitamente defeituoso não pode ser uma das melhores obras de Homero: he rebaixar em demasia o poeta grego, ou desconhecer a fôrça dos vocabulos. A hypothese de Bartenstein he mais uma das inumeraveis que não tem solida base: Virgilio queria queimar a sua obra só pela razão que os seculos tem acceitado, pela imperfeição do estilo mórmente dos ultimos seis livros. Bartenstein, como he mania de não poucos dos seus, gostava de ser o padre Hardouin, de aventurar conjecturas; e esta sua he derribada pelo poeta, que, no mesmo testamento onde mandava queimar a Eneida, levou a Augusto a quarta de seus bens. — Em vez de ser infinitamente defeituoso o caracter de Enéas, admira como poude Virgilio com tam feliz exito combinar tantas qualidades e virtudes, sem contradicção nem desparate nas acções, descontado o sacrificio de homens no túmulo de Pallante, que na superstição daquelles tempos barbaros tem a sua descarga. O heroe de Virgilio he um de Homero, afeiçoado e moldado na conformidade das idéas progressivas do genero humano.