Diferenças entre edições de "Espumas Flutuantes (1913)/Prólogo"

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<pages index="Espumas fluctuantes (corr. e augm.).djvu" from=21 to=23 />
Era por uma dessas tardes em que o azul do céu oriental &mdash; é pálido e saudoso, em que o rumor do vento
nas vergas &mdash; e monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio&mdash; e queixoso e tétrico.
 
[[Categoria:Texto rubricado pelo autor em 1870]]
Das bandas do ocidente o sol se atufava nos mares ''como um brigue em chamas..." e daquele vasto
[[Categoria:Espumas Flutuantes| ]]
incêndio do crepúsculo alastrava-se a cabeça loura das ondas.
 
Além... os cerros de granito dessa formosa terra de Guanabara, vacilantes, a lutarem com a onda invasora de azul, que descia das alturas... recortavam-se indecisos na penumbra do horizonte.
 
Longe, inda mais longe... os cimos fantásticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distância sumiam-se, abismavam-se numa espécie de naufrágio celeste.
 
Só e triste, encostado à borda do navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento indefinido e minha alma apegava-se à forma vacilante das montanhas &mdash; derradeiras atalaias dos meus arraiais da mocidade.
 
E que lá, dessas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os entusiasmos, o viço de todas
as ilusões, os meus vinte anos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de glória e de futuro;... é que dessas terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Rafael subindo as escadas do Vaticano";... volvia agora silencioso e alquebrado... trazendo por única ambição-a esperança de repouso em minha pátria.
 
Foi então que, em face destas duas tristezas &mdash; a noite que descia dos céus, a solidão que subia do
oceano, recordei-me de vós, ó meus amigos!
 
E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara;
nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...
 
Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!... Vós bem sabeis quanto
sois efêmeros... &mdash; passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
 
E quando-comediantes do infinito&mdash; vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que resta de vós?
 
&mdash; Uma esteira de espumas... &mdash; flores perdidas na vasta indiferença do oceano.&mdash; Um punhado de versos... &mdash; espumas flutuantes no dorso fero da vida!...
 
E o que são na verdade estes meus cantos?...
 
Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, eles são filhos da musa-este sopro
do alto: do coração &mdash; este pélago da alma.
 
E como as espumas são, às vezes, a flora sombria da tempestade, eles por vezes rebentaram ao estalar
fatídico do látego da desgraça
 
E como também o aljofre dourado das espumas reflete as opalas, rutilantes do arco-íris, eles por acaso refletiram o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo&mdash; estes signos brilhantes da aliança de Deus com a juventude!
 
Mas, como as espumas flutuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lágrima saudosa do marujo...
possam eles, ó meus amigos! &mdash; efêmeros filhos de minh'ahna-levar uma lembrança de mim às vossas plagas!
 
{{d|CASTRO ALVES
:Curralinho,
1 de junho de 1870.}}
 
[[Categoria:Espumas Flutuantes]]