Diferenças entre edições de "Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1902"

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sem resumo de edição
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Escobar,
 
Envio-te a toda a família muitas felicitações. ― Mais uma filha… (aqui acodem-me ao bico de pena meia dúzia de considerações amargas-filosóficas que prudentemente calo). De qualquer modo envio-te um parabéns sincero: que ela cresça e te seja, mais tarde, quando te cobrirem desilusões e cabelos brancos, uma Cordélia carinhosa e pura. ― Seguem os jornais e cartas. ― Abraça-te o amoamº.
 
Euclides
Felizmente o Mesquita recebeu em tempo a minha carta. Não saiu o artigo; e ainda tremo pensando na singular figura que ia fazendo, nesta quadra de embrulhos e cutiladas, a tratar de coisas tão diversas.
Que ele não saia tão cedo ― ou nunca mais, o que é melhor.
Lembranças a todos os bons companheiros do confrade e amoamº.
 
Euclides
 
Saúdo-te. ― Ciente do que dizes na tua última carta. A viagem a S. Paulo, porém, deve ser feita nos dias 2 ou 3, pois se eu for a S. José deverei partir de 1o a 4 ou 5. Neste caso, o melhor é transferir a ida. Espera-me aí e voltaremos juntos a 6 para São Paulo. Serve?
Quanto ao mais: a tua inclusão no Diretório. Belo pensamento. Lembraste do profundo Xavier de Maistre? Que diabo, meu amigo! ― É preciso que deixemos ''la bête'' espojar-se um pouco… Nada de exagerado idealismo: nada de escravização completa à Teoria e ao Princípio ― umas coisas rebarbativas que estragam a vida e a dificultam.
Já não fazes (como eu) pouco, conservando uma forte Centelha de independência mental nessa Chateza (plena mania do maiúsculo!) horrorosa que aí vai. Depois… que estupendos contrastes, a gente passa duas ou três horas com o Taine, ou com o Camilo, ou qualquer outro velho amigo, e vai confabular com o Nascimento sobre a organização da mesa eleitoral e sobre o solerte eleitor B etc. Que tombo… mas também que belo exercício. O espírito também precisa de ginástica e não lhe vai mal às vezes um salto mortal desses.
Além disto assim está para salvar-te e não deixar que aí fiques muito convictamente membro de Diretório, a Ironia, a nossa boa irmã mais velha, cautelosa, previdente e cauta, cortando devagarinho na alcochoada papeira mental dessas boas almas desses santíssimos pândegos que se não existissem fora preciso inventá-los, adiposa ''chair à canon'' com que nós utrosoutros idealistas incorrigíveis, damos o nosso diário combate ao Tédio e a Tristeza…
Assim a tua resolução tem meu beneplácito franco. Lamento apenas que a nova situação te impossibilite em parte de conversar mais folgadamente sobre a comédia republicana, que vai no seu período agudíssimo de graça mercê do último entreato hilariante de Ribeirãozinho, Araraquara e malocas adjacentes. Infelizmente vai ela perdendo a forma antiga. Dispensou a princípio Tácito, extinta a decomposição sinistra do Encilhamento e das Revoltas: despedindo depois Molière desmoralizado e entremez eleitoral. ― desmoralizou depois Daudet, criando tipos que espantariam Tartarin: acalcanhou Sardou… agora é a ''pochade'' franca. O contra-regra é o Fregoli. Admiráveis tempos…
Mas veja o que faz a ausência! Estou aí com uns pensamentos esparsos tão desconexos que outro qualquer, não entenderá o que vou dizendo.
Faço por este ponto ― e aguardo a réplica ― enviando-te agora um abraço.
 
Respondo a tua carta, agora recebida. ― Pilhérico sonho, o teu… Ministro! Ministro da Viação este teu pobre amigo! Só mesmo em sonhos… Mas queres saber de uma coisa? Prefiro ser realmente ministro nos breves minutos de um sonho, ocupando a imaginação de um amigo, do que o ser, de fato, nesta terra onde não há mais altas e baixas posições… Minado tudo.
Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus ''Sertões''; fui lê-lo com mais cuidado e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente… Um horror! Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro? Manda-me dizer daí algo a respeito. Imagina que lá encontrei ''à falcão'', ''à pranchada'', ''braço à braço'', ''tempos à tempos'', etc. etc.
Não te posso dizer como fiquei. Por fim abrindo, ao acaso, depois do jantar, uma página, encontrei isto: “Não iludiu à história…”
Não te descrevo o que houve! Quer isto dizer que estou à mercê de quanto meninote erudito brune as esquinas; e passível da férula brutal dos terríveis gramatiqueiros que passam por ai os dias a remascar preposições e a disciplinar pronomes!
Vou escrever ao Laemmert para reduzir quanto possível, a primeira edição, se houver tempo.
Mas, egoisticamente, falei-te só no que me dizia respeito. Desculpa-me; e escreva-me logo. Quero que venha daí, de longe partindo dessa boa alma de velho companheiro, uma palavra que me anime um pouco.
Adeus. Recomenda aos teus ― o velho amo amº.
 
Euclides
 
Antes de tudo um parabéns sincero por vê-lo assim ― como o mensageiro da Maratona ― exausto da carreira, mas levando a notícia do triunfo. É a fadiga heróica de um grego. Não a tenho eu. Nessa meia escravidão de engenheiro oficial a seguir e a voltar, a voltar e a seguir, as intermináveis viagens, para os mesmos pontos, tenho a miserável canseira de um Sísifo que é o fardo de si mesmo a rolar por essas estradas… ou então realizo cada dia aquela sombria tarefa siberiana de que nos fala Dostoievski, consistindo em abrir todos os dias desmesurada vala e preenchê-la, depois, todos os dias. Assim vou, no círculo vicioso de uma faina ingrata. Ao passo que o meu bom amigo desaparece adiante ― numa tangente retilínea, e firme, e dilatada e vai ― como mensageiro da Maratona ― senão para Atenas, para o futuro onde já está chegando, levando o grito da vitória. E não descansará na reta. As férias de que fala, sei que as aproveitará para maiores trabalhos; e bom será se delas aproveitar alguns dias para vir até cá, a esta Tebaida-caipira de Lorena, onde o aguardarei com a satisfação mais viva. Peço, porém, para mais ou menos prefixar o dia, de modo que, desde já, disponha as coisas para não me achar na ocasião numa das minhas viagens.
No dia 8 estarei em S. Paulo, Hotel da França. Disseram-me que o ''Correio da Manhã'' de ontem, anuncia para hoje o artigo de José Veríssimo sobre ''Os Sertões''. Outros virão, talvez. Alguns, talvez, acerbos. E pensando nestes nem sei como enfrentar os adversários prováveis nessa atitude deplorável de engenheiro-cometa manietado pelo ofício e pela turba reclamadora de empreiteiros roazes.
O resultado será levar pancada como ''cavalo acuado'', como dizem pinturescamente os nossos admiráveis patrícios dos sertões. Restar-me-á, nesse caso, o consolo de haver feito por eles o último sacrifício ― e o recurso para apelar para as gentes do futuro para as quais especialmente está escrito aquele livro mau e implacável. E restar-me-ão os fartos corações de alguns amigos.
Não sei porque o Laemmert não te enviou ainda o livro. Lá deixei recomendação expressa. Não admira porque também eu não tenho um único! O que tinha, tirou-me, à força em S. Paulo, um irmão mais velho, o Mesquita.
Até breve. Saúdo respeitosamente a tua Exma. senhora.
Exmo sr. José Veríssimo
 
Ao ler no ''Correio'' de ontem a notícia do seu juízo critico sobre ''Os Sertões'', tive, renascida, uma velha comoção que já supunha morta ― a de calouro, nos bons tempos passados, em véspera de exame. E não era para menos, dada a competência do juiz. Felizmente este foi generoso. Demonstra-o o belo artigo que acabo de ler, no qual, atendendo principalmente às observações relativas à minha maneira de escrever, colhi proveitosos ensinamentos.
Num ponto apenas vacilo ― o que se refere ao emprego de termos técnicos. Aí, a meu ver, a crítica não foi justa.
Sagrados pela ciência e sendo de algum modo, permita-me a expressão, os aristocratas da linguagem, nada justifica o sistemático desprezo que lhes votam os homens de letras ― sobretudo se considerarmos que o consórcio da ciência e da arte, sob qualquer de seus aspectos, e a tendência mais elevada do pensamento humano. Um grande sábio e um notável escritor, igualmente notável como químico e como prosador, Berthelot, definiu, faz poucos anos, o fenômeno, no memorável d com que entrou na Academia Francesa.
Segundo se colhe de suas deduções rigorosíssimas, o escritor futuro será forçosamente um polígrafo; e qualquer trabalho literário se distinguirá dos estritamente científicos, apenas, por uma síntese mais delicada, excluída apenas a aridez característica das análises e das experiências.
Se não mo impedisse esta minha vida perturbada de ''commis-voyageur'' da engenharia (e hoje mesmo seguirei para S. Luís do Paraitinga em viagem urgente!) abordaria esta questão pela imprensa. Mais competente, porém, para isto, é o sr., que, ademais, tem grandes responsabilidades pelo nosso movimento literário. Por que não a agita? Eu estou convencido que a verdadeira impressão artística exige, fundamentalmente, a noção científica do caso que a desperta ― e que, nesse caso, a comedida intervenção de uma tecnografia própria se impõe obrigatoriamente ― e é justo desde que se não exagere ao ponto de dar um aspecto de compêndio ao livro que se escreve, mesmo porque em tal caso a feição sintética desapareceria e com ela a obra de arte.
Desejo muito conhecer o seu pensamento acerca desta questão; e comprometo-me desde já a defender, na medida das minhas forças, a tese acima esboçada.
Terminando, resta-me agradecer de todo o coração o nobilitador juízo que manifestou por mim e a verdadeiramente admirável compreensão que teve do meu livro, em que pese a uma leitura naturalmente rápida.
Peço-lhe que me recomende à Exma. senhora e filhos, acreditando sempre na alta consideração do ― amoamº. e admirador
 
Euclides da Cunha