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Esperança (Bernardo Guimarães)

Esperança
por Bernardo Guimarães
Poema publicado em Cantos da Solidão.


Espère, enfant! - demain! - et puis demain encore;
                Et puis, toujours demain! (V. Hugo)


Singrando vai por mares não sulcados
Aventureiro nauta, que demanda
Ignotas regiões, sonhados mundos;
Ei-lo que audaz se entranha
Na solidão dos mares - a esperança
Em lisonjeiros sonhos já lhe pinta
Rica e formosa a terra suspirada,
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
Além um ponto surde no horizonte
Confuso - é terra! - e o coração lhe pula
De insólito prazer.
Terra! - terra! - bradou - e era uma nuvem!
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
No profundo horizonte os olhos ávidos
Ansioso embebe; - ai! que só divisa
Ermos céus, ermas ondas.
O desalento já lhe coa n'alma;
Oh! não; eis nos confins lá do oceano
Um monte se desenha;
Não é mais ilusão - já mais distinto
Surge acima das ondas - oh! é terra!
Terra! - terra! - bradou; era um rochedo,
Onde as ondas batendo eternamente
Rugindo se espedaçam.
Eis do nosso passar por sobre a terra
Em breve quadro uma fiel pintura;
É a vida oceano de desejos
Intérmino, sem praias,
Onde a esmo e sem bússola boiamos
Sempre, sempre com os olhos enlevados
Na luz desse fanal misterioso,
Que alma esperança mostra-nos sorrindo
Nas sombras do porvir.

E corre, e corre a existência,
E cada dia que cai
Nos abismos do passado
É um sonho que se esvai,

Um almejo de noss'alma,
Anelo de felicidade
Que em suas mãos espedaça
A cruel realidade;

Mais um riso que nos lábios
Para sempre vai murchar,
Mais uma lágrima ardente
Que as faces nos vem sulcar;

Um reflexo de esperança
No seio d'alma apagado,
Uma fibra que se rompe
No coração ulcerado.

Pouco e pouco as ilusões
Do seio nos vão fugindo,
Como folhas ressequidas,
Que vão d'árvore caindo;

E nua fica nossa alma
Onde a esp'rança se extinguiu,
Como tronco sem folhagem
Que o frio inverno despiu.

Mas como o tronco remoça
E torna ao que d'antes era,
Vestindo folhagem nova
Co volver da primavera,

Assim na mente nos pousa
Novo enxame de ilusões,
De novo o porvir se arreia
De mil douradas visões.

A cismar com o futuro
A alma de sonhar não cansa,
E de sonhos se alimenta,
Bafejada da esperança.

Esperança, que és tu? Ah! que minha harpa
Já não tem para ti sons lisonjeiros;
Sim - nestas cordas já por ti malditas
Acaso tu não ouves
As queixas abafadas que sussurram,
E em voz funérea soluçando vibram
Um cântico de anátema?
Chamem-te embora bálsamo do aflito,
Anjo do céu que nos alenta os passos
Nas sendas da existência;
Nunca mais poderás, fada enganosa,
Com teu canto embalar-me, eu já não creio
Nas tuas vãs promessas;
Não creio mais nessas visões donosas
Fantásticos painéis, com que sorrindo
Matizas o futuro!
Estéreis flores, que um momento brilham
E caem murchas sem deixarem fruto
No tronco desornado.
- Vem após mim - ao desditoso dizes;
Não esmoreças, vem; - é vasto e belo
O campo do futuro; - lá florescem
As mil delicias que sonhou tua alma,
Lá te reserva o céu o doce asilo
A cuja sombra abrigarás teus dias.
Porém - é cedo - espera.
E ei-lo que vai com os olhos enlevados
Nas cores tão formosas
Com que bordas ao longe os horizontes...
E fascinado o mísero não sente
Que mais e mais se embrenha
Pela sombria noite do infortúnio.
E se dos lábios seus queixas exala,
Se o fel do coração enfim transborda
Em maldições, em gritos de agonia,
Em teu regaço, pérfida sereia,
Co'a voz embaidora, inda o acalentas;
- Não esmoreças, não; - é cedo; espera;
Lhe dizes tu sorrindo.
E quando enfim no coração quebrado
De tanta decepção, sofrer tão longo,
Nos vem roçar do desalento o sopro,
Quando enfim no horizonte tenebroso
A estrela derradeira em sombras morre,
Esperança, teu último lampejo,
Qual relâmpago em noite tormentosa,
Abre clarão sinistro, e mostra a campa
Nas trevas alvejando.