Espumas Flutuantes (1913)/As Três Irmãs do Poeta

As Três Irmãs do Poeta
por Eugène Berthoud, traduzido por Castro Alves
Poema publicado em Espumas Flutuantes (1913).
AS TRES IRMÃS DO POETA


(Traduzido de E. Berthoud)


É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão tres pallidas virgens silenciosas
Atravez da procella irrequieta.
Vão três pallidas virgens... vão sombrias
Rindo collar n′um beijo as bocas frias...

Na fronte scimadora do — Poeta —,

— «Saude, irmão, eu sou a Indifferença.
Sou eu quem te sepulta a idóa immensa,
Quem no teu nome a escuridão projecta...
Fui eu que te vesti do meu sudario...
Que vais fazer tão triste e solitário?..»

— «Eu lactarei!» — responde-lhe o Poeta.

— «Saude, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome...
O teu misero pão, misero athleta!
Hoje, amanhã, depois... depois (qu′importa?!)
Virei sempre sentar-me á tua porta...»

— «Eu soffrerei!» — responde-lhe o Poeta.

— «Saude, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hymno augusto e forte.
Marquei-te a fronte, misero propheta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cantico gelar-se no meu seio?»

— «Eu cantarei no céo» — diz-lhe o Poeta!

S. Paulo, 25 de Agosto de 1868.