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Esquecimento
por Cruz e Sousa
Poema publicado em Faróis


Ó Estrelas tranqüilas, esquecidas
         No seio das Esferas,
Velhos bilhões de lágrimas, de vidas,
         Refulgentes Quimeras.

Astros que recordais infâncias de ouro,
         Castidades serenas,
Irradiações de mágico tesouro,
         Aromas de açucenas.

Rosas de luz do céu resplandecente
         Ó Estrelas divinas,
Sereias brancas da região do Oriente
         Ó Visões peregrinas!

Aves de ninhos de frouxéis de prata
        Que cantais no Infinito
As Letras da Canção intemerata
         Do Mistério bendito.

Turíbulos de graça e encantamento
        Das sidérias umbelas,
Desvendai-me as Mansões do Esquecimento
         Radiantes sentinelas.

 Dizei que palidez de mortos lírios
        Há por estas estradas
E se terminam todos os martírios
         Nas brumas encantadas.

Se nessas brumas encantadas choram
         Os anseios da Terra,
Se os lírios mortos que há por lá se auroram
         De púrpuras de guerra.

Se as que há por cá titânicas cegueiras,
         Atordoadas vitórias
Embebedam os seres nas poncheiras
         E no gozo das glórias!

O céu é o berço das estrelas brancas
         Que dormem de cansaço...
E das almas olímpicas e francas
         O ridente regaço...

Só ele sabe, o claro céu tranqüilo
         Dos grandes resplendores,
Qual é das almas o eternal sigilo,
         Qual o cunho das cores.

Só ele sabe, o céu das quint'essências,
         O Esquecimento ignoto
Que tudo envolve nas letais diluências
         De um ocaso remoto...

O Esquecimento é flor, sutil, celeste,
         De palidez risonha.
A alma das coisas languemente veste
         De um véu, como quem sonha.

Tudo no esquecimento se adelgaça...
         E nas zonas de tudo
Na candura de tudo, extremo, passa
         Certo mistério mudo.

Como que o coração fica cantando
         Porque, trêmulo, esquece,
Vivendo a vida de quem vai sonhando
         E no sonho estremece...

Como que o coração fica sorrindo
         De um modo grave e triste,
Languidamente a meditar, sentindo
         Que o esquecimento existe.

Sentindo que um encanto etéreo e mago,
         Mas um lívido encanto,
Põe nos semblantes um luar mais vago,
         Enche tudo de pranto.

Que um concerto de suplicas de magoa,
         De martírios secretos,
Vai os olhos tornando rasos d’água
         E turvando os objetos...

Que um soluço cruel, desesperado
         Na garganta rebenta...
Enquanto o Esquecimento alucinado
         Move a sombra nevoenta!

O rio roxo e triste, Ó rio morto,
         O rio roxo, amargo...
Rio de vãs melancolias de Horto
         Caídas do céu largo!

Rio do esquecimento tenebroso,
         Amargamente frio,
Amargamente sepulcral, lutuoso,
         Amargamente rio!

Quanta dor nessas ondas que tu levas,
         Nessas ondas que arrastas,
Quanto suplício nessas tuas trevas,
         Quantas lágrimas castas!

Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,
         Meu tormento e meu vinho,
Minha sagrada embriaguez e arrulho
         De aves formando ninho.

Verso que me acompanhas no Perigo
         Como lança preclara,
Que este peito defende do inimigo
         Por estrada tão rara!

O meu verso, ó meu verso soluçante,
         Meu segredo e meu guia,
Tem dó de mim lá no supremo instante
         Da suprema agonia.

Não te esqueças de mim, meu verso insano,
         Meu verso solitário,
Minha terra, meu céu, meu vasto oceano,
         Meu templo, meu sacrário.

Embora o esquecimento vão dissolva
         Tudo, sempre, no mundo,
Verso! que ao menos o meu ser se envolva
         No teu amor profundo!

Esquecer e andar entre destroços
         Que além se multiplicam,
Sem reparar na lividez dos ossos
         Nem nas cinzas que ficam...

É caminhar por entre pesadelos,
         Sonâmbulo perfeito,
Coberto de nevoeiros e de gelos,
         Com certa ânsia no peito.

Esquecer é não ter lágrimas puras,
         Nem asas para beijos
Que voem procurando sepulturas
         E queixas e desejos!

Esquecimento! eclipse de horas mortas.
         Relógio mudo, incerto,
Casa vazia... de cerradas portas,
         Grande vácuo, deserto.

Cinza que cai nas almas, que as consome,
         Que apaga toda a flama,
Infinito crepúsculo sem nome,
         Voz morta a voz que a chama.

Harpa da noite, irmã do Imponderável,
         De sons langues e enfermos,
Que Deus com o seu mistério formidável
         Faz calar pelos ermos.

Solidão de uma plaga extrema e nua,
         Onde trágica e densa
Chora seus lírios virginais a lua
         Lividamente imensa.

Silêncio dos silêncios sugestivos,
         Grito sem eco, eterno
Sudário dos Azuis contemplativos,
         Florescência do Inferno.

Esquecimento! Fluido estranho, de ânsias,
         De negra majestade,
Soluço nebuloso das Distancias
         Enchendo a Eternidade!