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Eurico, o Presbítero
por Alexandre Herculano


Por quantas desventuras a pátria dos godos tem sido abalada: quão repetidos a pungem os golpes
dos fugitivos e a nefanda soberba dos trânsfugas, quase ninguém ignora.

Código Visigótico, II ‑ 1 ‑ 7.


A passagem de tão avultado número de godos para os inimigos e o crepúsculo que descia obrigaram Roderico a fazer cessar o combate, enquanto a noite pousava tranqüila sobre aquela campina povoada de aflições e dores.

A aurora rompeu meiga e serena, como nos dias em que vinha trazer as alvoradas alegres às malhadas dos pastores, que, colmadas, amarelejavam outrora pelas margens relvosas do Críssus, em vez das tendas de guerra, que ali alvejavam agora com os primeiros resplendores da madrugada. O homem debatia‑se aí nas vascas da morte, e o sol passava envolto na sua glória, indiferente às angústias daqueles que, em seu ridículo orgulho, se chamavam monarcas e conquistadores do mundo; passava, sem lhe importar se os vermes vestidos de ferro chamados guerreiros se despedaçavam uns aos outros, com o delírio insensato das víboras no momento dos seus amorosos ardores.

Pelas trevas, um ruído sumido, mas incessante, de passadas de homens e de tropear de cavalos soara horas inteiras em um e em outro campo. Era que em eles ambos surgira uma idéia idêntica. O rei godo havia resolvido formar um corpo só das relíquias da sua hoste e com ele acometer a principal batalha dos inimigos, para a destruir rapidamente antes que as alas pudessem socorrê‑la. O mes­mo pensamento tivera Tárique. Semelhante à trovoada do estio, que se amontoa durante a noite em dois pólos encontrados e ao alvorecer semeia de coriscos as solidões do céu e povoa de estampidos discordes os ecos da terra, assim cada um dos campos se aglomerava em uma pinha gigante; convertia‑se num homem só, para em duelo de morte resolver com o seu contendor se os filhos das Espanhas deviam aceitar a lei do Alcorão ou continuar a abrigar‑se à sombra da divina cruz.

Tárique lançara na frente da hoste muçulmana os trânsfugas do inimigo. Sisebuto, Ebas, o bispo de Híspalis e o conde de Septum com os seus numerosos guerreiros constituíam a vanguarda. Seguia­‑se a cavalaria árabe. Os berberes cingiam este maciço de homens e ginetes, em parte cobertos de ferro, e os indisciplinados cavaleiros da Mauritânia, dispersos como almogaures, deviam vagar soltos para fazer entradas nas alas inimigas e impedir assim que elas pudessem a tempo socorrer o centro do exército, que o general árabe esperava desbaratar no primeiro ímpeto.

Roderico pela sua parte, tinha posto na vanguarda as tiufadias vitoriosas de Teodomiro, os cavaleiros da Cantábria guiados pelo moço Pelágio, filho de Favila, que sucedera a seu pai no governo daquela província, e, finalmente, os guerreiros escolhidos da Lusitânia e da Galécia, que ele próprio capitaneava. Como Tárique, o rei godo colocara de um e de outro lado na hoste apinhada os frecheiros e fundibulários selvagens do Hermínio e os montanheses vascônios, antiga raça de celtas, irmãos em linhagem, em valor, em crueza, em armas e em costumes. Na retaguarda estavam os soldados da província Cartaginense que não tinham seguido o exemplo dos trâns­fugas por andarem derramados em outros lugares ou, talvez, porque, não corrompidos, guardavam ainda no coração vestígios de amor da pátria.

Ao amanhecer, cada um dos capitães inimigos viu com assombro que a mesma traça de guerra de que pretendera valer‑se para obter a vitória ocorrera à mente do seu adversário. Era, porém, tarde para alterar a ordem da batalha. Ao mesmo tempo as trombetas godas e os anafis árabes deram o sinal do combate, e o grito de ‑ Cristo e avante! ‑ confundiu‑se em estampido medonho com o brado de ‑ AIlah hu Acbar! - o brado de guerra dos pelejadores sarracenos.

O chão pareceu afundir‑se com o encontro daquelas duas mós enormes de homens armados, e o eco dos botes das lanças nos escudos convexos e nas armas sonoras dos cavaleiros repercutiu nas encostas fronteiras e desvaneceu‑se ao longe, murmurando entre as quebradas. Desde o primeiro embate, não mais fora possível distin­guir os exércitos travados como dois lutadores furiosos. Era um vulto só, indelineável, monstruoso, imenso, cujo topo ondeava, seme­lhante ao de canavial movido pelo vento cujos contornos indecisos se agitavam, torciam, alargavam, diminuíam, oscilavam, como tape­tes de nenúfares sobre marnel revolto pelo despenhar das torrentes. Nuvens de setas sibilavam nos ares: as espadas sarracenas cruzavam‑se com as espadas godas: a cateia teutônica ia, zumbindo, abrir fundos regos nas fileiras árabes, e os membros ossudos dos peões lusitanos e cantabros estouravam debaixo das pancadas violentas dos manguais da peonagem mourisca. Muitos ginetes vagueavam sem donos; muitos cavaleiros combatiam a pé. Desgraçado do que, ferido, caía em terra; porque para ele não havia misericórdia: o punhal acabava o que o franquisque ou a cimitarra começara. Dir­‑se‑ia que os regatos de sangue, serpeando por entre as duas hostes enredadas e salpicando as frontes e corpos, eram as veias descar­nadas e rotas daquele grande vulto, coleando na derradeira agonia.

O cavaleiro negro, ao cessar a batalha do dia antecedente, desa­parecera do campo, sem que ninguém soubesse dizer como ou onde se escondera. Só Teodomiro parecia não o ignorar; porque, ao falarem do desconhecido e das suas quase incríveis façanhas, os tiufados e qüingentários que em volta dele esperavam o romper da manhã e o recomeçar da peleja, o duque de Córduba buscara sempre mudar de conversação ou respondera, carregando‑se‑lhe o semblante de tristeza: ‑ "É, porventura, algum desgraçado que procura o repouso da morte, e para o homem que resolveu morrer, que feito de valor será impos­sível? Se ele não quer deixar na terra nem o eco vão de um nome glorioso, respeitai‑lhe os desejos, porque profundo deve ser o abismo da sua desventura".

Ao som, porém, das trombetas que anunciavam o renovar do combate, o cavaleiro negro não tardara a aparecer onde mais acesa andava a briga. Via‑se, contudo, que era principalmente nas fileiras dos árabes, onde as puas agudas e cortadoras da sua temerosa borda ou maça de armas faziam maiores estragos. Mas, quando algum dos godos trânsfugas ousava esperar‑lhe os golpes ou tentavam feri‑lo, ouvia‑se‑lhe um rugido como o de maldição preso na garganta por cólera imensa, e o seu miserável contrário não tardava a golfar o sangue na terra da pátria que traíra e a entregar aos demônios a alma tisnada pela infâmia da perfídia. Os árabes supersticiosos quase criam ver nele Ibliz, o rei infernal do Geena, armado da es­pada percuciente, solto por Deus para os punir das ofensas cometidas contra o divino Alcorão. Diante dele recuavam os mais esforçados muçulmanos, e só de longe os frecheiros lhe disparavam alguns tiros, que se lhe empenavam no escudo ou, roçando por este, vinham bater‑lhe na armadura, debaixo da qual manava já o sangue de algumas feridas, e os membros lassos começavam a desmentir a impetuosidade do espírito.

Como na véspera, o sol inclinava‑se das alturas do céu para o ocaso, e ainda a batalha estava indecisa, se é que o terror que in­cutia o cavaleiro negro no lugar onde pelejava não fazia pender um pouco a balança do lado dos godos. De repente, um grito agudo partiu do mais espesso revolver do combate; este grito gigante, indi­zível, de íntima agonia, era o brado uníssono de muitos homens; era o anúncio doloroso de um sucesso tremendo. O cavaleiro negro, que, impelido pela ebriedade do sangue, e semelhante a rochedo que se despenha pelo pendor da montanha, ia derramando a morte através dos esquadrões do Islame, volveu os olhos para o lugar onde soara o bramido retumbante da multidão. Era no centro do exército godo. As tiufadias vergavam em semicírculos para a banda do Crís­sus, como o açude minado pela torrente, a ponto de desprender‑se das margens, oscila e se curva, bojando sobre a veia inferior das águas. A muralha de ferro que, posta entre o islamismo e a Europa, dizia à religião do profeta de Iatribe ‑ não passarás daqui ‑ vacila, como a quadrela de cidade fortificada batida muitos dias por vaivém de inimigos. Por fim, aqueles vastos maciços de homens ligados pela cadeia fortíssima da disciplina, do pudor militar e do esforço, deri­vam rotos ante os turbilhões dos árabes, ondeam e derramam‑se na campina. Pelo boqueirão enorme aberto no centro da hoste goda precipitam‑se as ondas dos cavaleiros maometanos, e, após eles, a turba dos berberes, com um bramido bárbaro. Debalde as alas tentam ajuntar‑se, travar‑se uma com a outra, soldar os membros despedaçados do leão ibérico. Passa por lá a impetuosa corrente dos netos de Agar que envolve e arrasta os que pretendem vadeá‑la. Deus contara os dias do império de Leovigildo, e o sol do último deles era o que descia já para o ocidente!

O cavaleiro negro vira a fuga das batalhas godas, advertido pelo clamor que a precedera. Voltando as rédeas do seu murzelo, espo­reou‑o para aquela parte. Levava lançado às costas o escudo, onde os tiros dos arqueiros africanos ciciavam, como a saraiva no inverno batendo nos troncos despidos do roble. Pendia‑lhe da esquerda do arção a borda ensangüentada, da direita franquisque. O ginete tres­folegava na fúria da carreira, açoitando os ares com as crinas ondeantes e atirando‑se ao meio da espécie de voragem aberta nas fileiras cristãs, a qual como que tragava uns após outros os esquadrões muçulmanos. Ao chegar à confluência daquelas encontradas torrentes de homens armados, o guerreiro parou, e, olhando em roda por um momento, ouviu‑se‑lhe um grande brado. Era a primeira vez que a sua voz soava no meio da batalha, e a única palavra que lhe saiu da boca foi o nome de Teodomiro. Esse brado devia chegar longe, reboando como o trovão. Dir‑se‑ia que o cavaleiro estava habituado à conversação do bramido dos mares revoltos e do rugir das venta­nias pelas fragas das serras; porque naquele grito, conjunto inexpli­cável de cólera e de dor, havia uma semelhança, uma harmonia com o gemido imenso da natureza quando luta consigo mesma no passar da tempestade.

Mas aos ouvidos de Teodomiro não podia chegar a voz do des­conhecido. Arrastado pelos turbilhões de fugitivos, forcejando por obrigá‑los a voltar o rosto contra os árabes, ora com palavras de amarga repreensão, ora com o exemplo, o duque de Córduba comba­tia mui longe dele. Em vão o cavaleiro negro lhe repetia o nome: era inútil este chamar e, apenas, servia para atrair os golpes dos agarenos vitoriosos. As achas de armas, as cimitarras, os dardos faziam centelhar a armadura e o escudo do desconhecido, que, toma­do, ao que parecia, de um pensamento doloroso, alongava os olhos por toda a parte em busca de Teodomiro. Com um gemido de desa­lento, o cavaleiro saiu, enfim, da espécie de torpor que o tornava imóvel ante o espetáculo de tanta desventura, e o seu despertar foi tremendo. Erguendo em alto a maça de armas e vibrando‑a furiosa­mente em volta de si, começou a partir espadas e a abolar armadu­ras. Em breve, ao redor dele, no meio dos muçulmanos vencedores, o terror invadia os ânimos, como na véspera, como nesse mesmo dia, se espalhara por toda a parte onde haviam reluzido as puas da sua ensangüentada borda ou o ferro do seu cortador franquisque.

Apenas, à força de golpes, o cavaleiro negro abriu no meio dos muçulmanos vencedores uma larga clareira, esporeando o ginete, lançou‑se para o lado em que os godos desordenados se retraíam ante as espadas do Islame. No espaço intermédio entre os fugitivos e os árabes flutuava sem recuar o pendão do duque de Córduba. Em volta desse pendão tremulavam as signas das tiufadias da Bética, que, cercadas por todos os lados, resistiam ainda ao embate dos sarracenos. No meio, porém, dos que abandonavam vilmente o campo da batalha nem uma única bandeira se hasteava; mas pelo esplên­dido das armas, o guerreiro conheceu aqueles que não ousavam resgatar com a vida a honra das Espanhas. Eram os soldados esco­lhidos de Roderico; era a brilhante cavalaria que ele próprio capi­taneava! A indignação trasbordou da alma do guerreiro:

‑ Rei dos godos, rei dos godos! ‑ exclamou ele ‑ és covarde! Embora vás esconder a tua ignomínia nos muros de Toletum. Ainda neste campo de batalha restam homens valentes: ainda Teodomiro combate, não por teu trono desonrado, mas pela terra de nossos pais. Foge tu com os que não sabem morrer pela pátria; que nas margens do Críssus ficam os que hão de perecer com ela! Maldito o godo e cristão que foge para ser servo!

E o cavaleiro apertou de novo as esporas ao possante murzelo.

Não tardou, porém, que o furor se lhe convertesse em tristeza, e que as lágrimas, rebentando‑lhe dos olhos, lhe apagassem a mal­dição que haviam murmurado os lábios. O seu valente cavalo galgava na carreira por cima de cadáveres e de moribundos, de cristãos e de infiéis, e a terra, convertida em brejo de sangue, apenas soava debaixo dos pés do ligeiro animal. Passando por meio dos esquadrões sarracenos, podia dizer‑se que o desconhecido se asse­melhava ao anjo do Senhor, quando desce por entre os mundos onde habitam os demônios, solitário e temido no império dos filhos das trevas que o odeiam. A fama das suas façanhas tinha‑o cercado de uma auréola de terror supersticioso, e, quando passava, os guer­reiros do deserto apontavam para ele e em voz sumida diziam uns aos outros ‑ "Ei‑lo que vem! ei‑lo, o cavaleiro negro!"

Mas, por que parou ele, sofreando subitamente o ginete? Que há aí, nessa extensa seara ceifada de homens de guerra, que possa atrair os olhos do mais incansável dos segadores? No sítio em que parou estava, poucas horas antes, hasteada a signa real: era o centro da hoste goda; mas dos que aí pelejavam, uns lá vão ao longe preci­pitar‑se no abismo da ignomínia; outros, os mais felizes, adormece­ram no seu último sono no regaço da pátria. O guerreiro fitou os olhos no chão: a foice da morte, passando por ali, cerceara a derradeira esperança do império de Teodorico. O espetáculo que se lhe anto­lhava era a explicação do terror que se apossara de tantos homens valentes. Fugiam: Roderico, porém, estava aí! mas retalhado de golpes; mas sem vida! Já não seria debaixo de seus pés que o trono da Espanha se desfaria aos golpes do machado dos árabes. Um cetro sem dono em Toletum e mais um cadáver junto às margens do Críssus, eis o que restava do último rei dos godos! Com a sua morte fenecera ao redor dele a esperança, e com a esperança dera em terra o esforço dos ânimos mais robustos. As alas ignoravam este triste acontecimento e por isso pelejavam ainda.

Mas pouco tardou a ser geral a rota; porque pouco tardou a espalhar‑se aquela nova fatal. Um dia bastara para aniquilar o império que durante quatro séculos fora o mais poderoso e civilizado entre as nações germânicas estabelecidas nas diversas províncias romanas. A corrupção dos últimos tempos concluíra a sua obra, e o edifício da monarquia gótica, ainda rico de majestade exterior, mos­trara, enfim, desconjuntando‑se e desabando, o fervor dos vermes que interiormente o roiam. A cruz, derribada com ele, só devia tornar a hastear‑se triunfante em todos os ângulos da Espanha depois do combater de oito séculos.

Uma parte do exército godo ainda pudera salvar‑se atravessando o rio: mas as pontes lançadas na véspera tinham por fim estalado, derivando pela corrente debaixo do peso dos fugitivos, e as águas devoravam muitos que o ferro havia poupado. Teodomiro, que não perdera o ânimo no meio daquela desventura, alcançara fazer passar à margem oposta as relíquias dos soldados da Bética e os restos de muitas tiufadias de outras províncias. Nos arraiais, os árabes, senhores do campo, saudavam a vitória com o som dos instrumentos bárbaros, e com clamores de alegria que iam sussurrar ao longe pelos vales e campos, desertos dos seus moradores. Um homem só comba­tia ainda daquele lado à beira do rio. Era o cavaleiro negro. Cercavam‑no muitos sarracenos, mas de longe, porque os que ousavam aproximar‑se dele caíam a seus pés moribundos. Às vezes, como que tentava romper por entre os inimigos, mas era tentar o impos­sível. No volver dos olhos inquietos para um e para outro lado, parecia buscar descobrir alguma coisa naquele vasto campo onde só descortinava os cadáveres dos vencidos e os vultos ferozes dos ven­cedores. Por fim, voltando o rosto para a margem oposta, viu flutuar sobre uma eminência o pendão de Teodomiro. Uma expressão fugi­tiva de contentamento lhe assomou então ao gesto. Despedindo das mãos a borda ensangüentada, que sibilou por meio dos árabes apinhados em volta, o guerreiro arrojou‑se à torrente. A luz do sol que se punha, viu‑se‑lhe umas poucas de vezes reluzir o elmo, alon­gando‑se pela superfície das águas e desaparecendo por largos es­paços. As trevas, que já desciam densas, e a impetuosidade da cor­rente que o arrastava não permitiram prever‑se qual seria a sua sorte. Eurico era a última e tenuíssima esperança que bruxuleava nos horizontes do império godo: como estrela cadente que se imerge nos mares, aquele esforço brilhante se desvanecera na escuridão que tingia as águas do Críssus!