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Eurico, o Presbítero
por Alexandre Herculano


"A desconforme profundeza do alto precipício aí está patente:
ele gera terror no homem que o contempla de cima."

Valério Bergidense: Explanações.


A hora de amanhecer aproximava‑se: o crespúsculo matutino alu­miava frouxamente as margens de rio mal‑assombrado, que corria turvo e caudal com as torrentes do inverno. Apertado entre ribas fragosas e escarpadas, sentia‑se mugir ao longe com incessante ruído. A espaços, destorcendo‑se em milhões de fios, despenhava‑se das catadupas em fundos pegos, onde refervia, escumava e, golfando em olheirões, atirava‑se maciço e atropelando‑se a si mesmo, pelo seu leito de rochas, até de novo ruir e despedaçar‑se no próximo despenhadeiro. Era o Sália, que de queda em queda, rompia de entre as montanhas e se encaminhava para o mar cantábrico. Perto ainda das suas fontes, o estio via‑o passar pobre e límpido, murmurando à sombra dos choupos e dos salgueiros, ora por meio das balças e silvados, que se debruçavam, aqui e acolá, sobre a sua corrente, ora por entre penedias calvas ou córregos estéreis, onde em vão tentava, estrepitando, recordar‑se do seu bramido do inverno. Mas quando as águas do céu começavam nos fins do outono a fustigar as faces pálidas dos cabeços, a ossada nua das serras, e a unir‑se em torrente pelas gargantas e vales, ou quando o sol vivo e o ar tépido de um dia formoso derretiam as orlas da neve que pousava eterna nos picos inacessíveis das montanhas mais elevadas, o Sália precipitava‑se co­mo uma besta‑fera raivosa e, impaciente na sua soberba, arrancava os penedos, aluía as raizes das árvores seculares, carreava as terras e rebramia com som medonho, até chegar às planícies, onde o solo o não comprimia e o deixava espraiar‑se pelos pauis e juncais, correndo ao mar, onde, enfim, repousava, como um homem completa­mente ébrio que adormece, depois de bracejar e lidar da embriaguez.

Na margem direita do rio, que então passava grosso de cabedais por um dos vales que retalham as montanhas das Astúrias no seu pendor ocidental, viam‑se ainda no princípio do oitavo século as ruínas de antigo castro ou arraial romano. Jaziam estas em uma espécie de promontório de rochas, pendurado sobre a veia de água e talhado quase a pique por todos os lados. Na borda do espaçoso lajedo, que formava como uma eira irregular, avultavam fragmentos de grossos panos de valos de pedra, e no alto de uma ladeira íngreme que conduzia à entrada daquele circuito achavam‑se os vestígios de uma porta de campo, provavelmente a pretória: a decúmana, fronteira a ela, fazia, fora do valo, um limitado terreirinho, em cujo topo, e a bastante profundidade, passava o rio negro e veloz com mugido contínuo. Ainda na borda do rochedo aprumado sobre a água se enxergavam alguns orifícios profundos, que mostravam te­rem servido para embeber as traves de ponte lançada para a outra margem, também elevada e penhascosa. A situação daquelas ruínas, a forma quase circular dos valos e a sua disposição interior eviden­temente indicavam um desses hibernáculos ou arraiais de inverno alevantados pelas legiões de Roma nas suas tentativas repetidas e quase sempre inúteis para subjugar os celtiberos das cordilheiras da Cantábria e das Astúrias.

A ponte romana, porém, se outrora aí existira, haviam‑na con­sumido as injúrias das estações. Em lugar dela, os habitantes daque­les desvios tinham tombado através do Sália um roble gigante, um dos filhos primogénitos da terra, que nos seus dias seculares fora enredando as raízes nos seios da pedra, até irem beber no leito do rio. A árvore monstruosa, derribada por cima da corrente, caíra sobre o alcantil fronteiro e vivia de uma vegetação moribunda, que mal podia conservar através do cepo, arrancado quase inteiramente do solo. Calva e musgosa, apenas alguma vergôntea, que lhe rompia da enrugada epiderme na primavera para morrer no estio, dava sinal de que o rei dos bosques ainda não era inteiramente cadáver. Mas essa pouca vida bastava para que a obra rude dos bárbaros montanheses durasse por mais anos que a edificação regular e sólida dos antigos metatores ou engenheiros das legiões romanas. Para aqueles, todavia, que não estivessem afeitos a perseguir a zebra pelas encostas escarpadas, a galgar os precipícios após a cabra mon­tês e a combater com os ursos e javalis nas bordas dos fojos, sem se lhes turbar a vista; para esses tais a ponte vegetal dos astúrios seria um sítio arriscado. No meio do passo estreito, irregular e ci­líndrico, sentindo e vendo mugir e desaparecer debaixo dos pés a corrente inchada e turva, quase impossível lhes fora não vacilar: mas ao vacilar seguir‑se‑ia o despenhar‑se, e ao despenhar‑se, a morte. À altura da queda e ao ímpeto das águas ajuntava‑se o agudo dos rochedos, entre os quais o rio, escumando, se estorcia e despedaçava.

Ao partir de Covadonga e ao dirigir‑se para o campo de Abdu­laziz, os cavaleiros cristãos tinham rodeado o Vínio, seguindo mais ao oriente; mas, habituados, nas suas contínuas correrias, a discorrerem pelos atalhos e carris das montanhas, de antemão previam que, no caso de levarem a cabo a temerária empresa que cometiam, a agrura da serra seria a sua melhor defesa contra a perseguição dos árabes. Assim delinearam o caminho que deviam seguir na fuga, vindo atravessar o Sália, já perto do seu esconderijo, naquela espé­cie de passo fortificado, conhecido ainda entre os godos pelo nome de Castrum Paganorum ou arraial dos pagãos.

Foi justamente ao tingir‑se o céu da faixa avermelhada que precede o surgir do sol, que dois cavaleiros galgaram ao galope a ladeira que dava acesso para as ruínas do castro romano. No meio deles, cavalgando também um alazão ágil e ao mesmo tempo robusto, uma dama vestida de branco parecia mal poder já manter‑se na sela, segurando-se umas vezes ao arção, outras às crinas flutuantes do valente animal. Eram Hermengarda e os seus dois guardadores que chegavam, finalmente, às margens do Sália. Pouco devia tardar o instante em que a formosa irmã de Pelágio achasse, depois de tantos perigos e terrores, abrigo e paz nos rudes paços de seu esforçado irmão.

Mas a corrida violenta e incessante por sendas montuosas e ásperas tinham exaurido as forças da filha de Favila, como os su­cessos por que passara desde que partira de Tárraco lhe tinham quase aniquilado as do espírito. Ao chegar ao meio daqueles restos do acampamento romano sentia‑se desfalecer de cansaço, ao passo que a febre e a sede lhe devoravam as entranhas. Os dois cavaleiros, olhando para ela, viram‑lhe, com a luz da alvorada, as faces tintas de palidez mortal. Às vezes, durante o caminho e, sobretudo, nos sítios mais altos, quando as lufadas do norte aclamavam momenta­neamente, percebiam ao longe um débil ruído soturno e continuo, que se assemelhava ao tropear de cavalos; mas havia horas em que apenas sentiam o estrupido do galopar dos próprios ginetes, bem que o vento houvesse caldo de todo na antemanhã. Inquietos, tam­bém, pela sorte dos companheiros que tinham deixado atrás de si, resolveram parar no meio daquelas ruínas. Salteados de improviso pelos árabes, fácil lhes seria transpor a ponte natural que tinham diante, e as poucas raizes que prendiam o moribundo carvalho à margem oposta cederiam bem depressa aos gumes afiados dos seus franquisques. Então o tronco da velha árvore se despenharia no abismo, e o leito profundo e escarpado do Sália ficaria como uma barreira entre eles e os inimigos.

Descavalgados, os dois guerreiros tomaram nos braços a irmã de Pelágio e foram recliná‑la sobre um montículo coberto de relva e musgos, que, pela sua situação no lugar onde, provavelmente, ficava a divisão entre o pretório e a parte inferior do campo, dava indícios de ser o assento das aras dos deuses, que os romanos usavam colocar no meio dos arraiais. Regelada exteriormente, ao passo que o ardor febril lhe queimava o sangue, Hermengarda, apenas tocou em terra, só pôde pronunciar a palavra "sede", caindo amortecida sobre a relva orvalhada. O único sinal que nela revelava a vida era o tremor convulso que violentamente a agitava.

Enquanto Astrimiro subia ao valo, de cujo topo se descortinava melhor, posto que a breve distância, o caminho que haviam seguido, Gudesteu trabalhava em ajuntar alguns troncos de árvores e as fo­lhas secas amontoadas pelos ventos do estio que as chuvas outonais ainda não tinham arrastado. Brevemente o ar tépido de uma fo­gueira fez volver a si a donzela: o cavaleiro ofereceu‑lhe um pequeno frasco de sícera que desprendera do arção e que lhe restituiu algum vigor aos membros entorpecidos. Depois, Gudesteu chamou o seu companheiro e disse‑lhe:

"Os ginetes não podem passar além. Ide e lançai‑os para o lado oriental da montanha: eles buscarão o trilho acima das fontes do Sália e descerão a Covadonga."

E Astrimiro, guiando os três ginetes pela ladeira abaixo, afagou­‑os um a um, e segurando‑lhes as rédeas à efípia, deu um silvo com soldo particular. Os ginetes fitaram as orelhas, aspiraram ruidosamente o ar e partiram ao galope, por meio da selva, para o lado que Gudesteu indicara.

Este, apenas os viu desaparecer, dirigiu‑se para Hermengarda. ‑ É necessário, senhora ‑ disse ele ‑ uma derradeira prova de esforço: é necessário partir já. Os nossos ginetes, ensinados a voltarem sós ao campo cristão do deserto quando os ardis ou os perigos da guerra nos obrigam a abandoná‑los, não causariam nem estranheza nem receio ao aparecerem aí sem seus donos, se não fossem as circunstâncias extraordinárias da nossa correria. Mas quem poderá dizer ao duque de Cantábria qual sorte nos coube na temerária empresa que cometemos? Quem, senão vós mesma, res­tituída aos seus braços, lhe dará a certeza de que estais salva das mãos dos infiéis? Para nós, habituados a descer precipícios e a salvar torrentes, aquela ponte estreita e selvática é fácil de transpor, galgando‑a rapidamente e sem volver os olhos para o abismo. In­vocai toda a energia da vossa alma, todas as vossas forças, para vencer este último obstáculo, e, dentro de poucas horas, veremos os cabeços que rodeiam a caverna de Covadonga. Em leito de ramos tomar‑vos‑emos sobre nossos ombros na margem fronteira; homens livres e gardingos, faremos mister de servos; porque sois uma dama e porque sois a irmã do nobre e valente Pelágio... Astrimiro, mos­trai que o risco só existe quando existe o temor.

Então Astrimiro, olhando fito ante si, atravessou com passos firmes e ligeiros por cima do tronco arredondado e nodoso, e, num relancear de olhos, achou‑se do outro lado.

Hermengarda compreendera bem a necessidade de coligir toda a robustez da sua alma naquele momento; mas, ao erguer‑se, conheceu que os membros doridos e exaustos quase recusavam obedecer‑lhe. Firmando‑se, todavia, no braço de Gudesteu, encaminhou‑se para o terreirinho exterior que se abria além dos valos sobre a torrente. Aí, antes de chegar ao temeroso trânsito, ajoelhou e, alevantando as mãos e os olhos ao céu, nem sequer se lhe viam mover os lábios, embebida em oração fervorosa e íntima. Com os seus trajos brancos e em completa imobilidade, dir‑se‑ia que era um destes anjos curva­dos sobre os lódãos de capitel gótico, que, no frontispício de catedral, parecem ser o símbolo da morada das preces, se os primeiros raios do sol, cujo orbe mal despontava detrás das colinas, não revelassem nela a vida, cintilando‑lhe nos cabelos dourados e no véu de duas lágrimas que lhe ofuscava os olhos e começava a deslizar‑se‑lhe em dois fios brilhantes ao longo das faces, onde o rubor da febre rom­pia por entre a palidez, como as papoulas rompem no meio da seara madura.

Depois de alguns instantes, alevantou‑se de novo e encaminhou­‑se para o roble, cujo topo monstruoso se assemelhava à cabeça calva de um gigante que, inteiriçado, fincasse os pés na outra riba. Gudesteu seguia‑a de perto, estendendo os braços involuntariamente, como querendo sustê‑la, enquanto Astrimiro, também por movimento maquinal, em pé sobre as raízes torcidas da árvore e curvando‑se para diante, lhe oferecia a mão robusta, como se a distância lhe permitisse alcançá‑la.

No momento em que já punha o pé sobre o tronco, o reflexo alvacento da escuma, que fervia lá embaixo, no meio do crepúsculo frouxo do córrego profundo, e o estrépito da torrente, espadanando por entre os musgos e limos estampados nos panos irregulares do despenhadeiro, fizeram abaixar os olhos a Hermengarda para o abismo, como fascinação irresistível, como conjuro diabólico. Cravados naquele horrendo espetáculo, fitos, espantados, ela não podia despregá‑los desse caos infernal das águas, que, redemoinhando ou jorrando contra os rochedos, ora negrejavam, precipitando‑se compactas para diante, ora, repelidas, despedaçadas em ondas de escuma, repuxando cruzadas no ar ou espalmando‑se nas faces da penedia, misturavam no seu confuso soído um murmurar e rugir como de dor, de cólera, de desesperação, de agonia, que vozes humanas não sabe­riam ajuntar e que só pode ser semelhante ao concerto de blasfêmias dos condenados, entoando o hino atroz das eternas maldições contra Deus.

E Hermengarda sentia uma ânsia vertiginosa de se atirar àquela voragem; uma como atração magnética, voluptuária, indizível, a favor da qual lutava um sentimento misterioso e vago, mas que nem por isso era menos ardente, ao mesmo tempo que alma e corpo a repeliam pelo instinto e pelo amor da vida. Com as mãos contraídas, a fronte pendida e o olhar incerto de um moribundo, a donzela parecia haver sido petrificada no momento em que dera a primeira passada para transpor essa meta, além da qual, unicamente, existia a esperança.

Observando o gesto da irmã de Pelágio, Gudesteu viu que um instante bastaria para aniquilar o fruto dos perigos até aí corridos. Mais de uma vez, antes que se habituasse à sua vida de foragido, passando pelas bordas dos fojos, pelas quinas dos precipícios, ele próprio sentira essa fascinação do terror, esse magnetismo da morte que costuma subjugar‑nos e atrair‑nos quando pelas primeiras vezes nos achamos sobranceiros a algum abismo; sentimento de voluptuo­sidade dolorosa, que, paralisando‑nos os movimentos, porque dobra em nós o terror, nos salva, talvez, do suicídio, ao mesmo tempo que para ele nos convida com atrativo inexplicável.

O cavaleiro, segurando violentamente o braço da donzela, desfez aquela espécie de encanto fatal, obrigando‑a a recuar alguns passos. Então Hermengarda, como se acordasse de um sonho murmurou: ‑ "Não posso!" ‑ E soluçava e as lágrimas rolavam‑lhe abundantes pelas faces macilentas. Em tremor convulso, os joelhos vergavam­‑lhe, e teria caído por terra, se Gudesteu não a houvera retido.

Astrimiro, que vira o movimento do seu companheiro, atraves­sou de novo a arriscada passagem. Um pensamento horrível passou a ambos pelo espírito: era que os árabes podiam chegar! Encararam­‑se mutuamente, e cada um deles notou que o outro tinha o gesto demudado. Gudesteu, volvendo a cabeça, lançou os olhos para a selva de que haviam saído, porque lhe parecera ouvir um rumor abafado. Astrimiro, que crera ouvir o mesmo, correu de novo ao valo.

E o ruído soava, de feito. Os dois cavaleiros nem respiravam. Era um tropear de cavalos à rédea solta: não havia que duvidar. Para eles em alguns instantes se resumiu, então, um século de tran­ses mortais.

São nove: nove os que saem da espessura, correndo desordena­dos, e que se precipitam para as ruínas. São godos! Os largos ferros dos franquisques lá reluzem batendo‑lhes sobre as coxas no rápido galope: o lodo dos brejos enodoa‑lhes as armas escuras e polidas. Ondeiam eriçadas as crinas dos corcéis, cujos peitos mosqueia a escuma, cujos freios tinge o sangue. O misterioso cavaleiro negro vem à frente deles. Ei‑los ‑ brada Astrimiro, com uma espécie de alegria frenética. Estão salvos!

‑ Salvos?! ‑ interrompeu tristemente Gudesteu, e, sem se mover, olhou para Astrimiro, e, depois, para Hermengarda, que sustinha nos braços.

‑ Perdidos! perdidos conosco e como nós ‑ replicou em tom lúgubre Astrimiro, para quem a interrupção e o olhar de Gudesteu tinham sido raio de luz medonha. O Sália era linha traçada pela feiticeira com a verbena mágica, além da qual não passará jamais aquele ante cujos pés ela a riscou. O juramento que tinham dado e, mais do que isso, a lealdade de guerreiros godos não lhes consen­tiam abandonarem a irmã do seu capitão; não lho consentiria o fero cavaleiro negro, esse homem ou esse fantasma, cuja vida era um segredo, cuja vontade era de ferro, cuja voz era um terror para inimigos e, para os seus, um decreto de cima.

E os nove num relance transpuseram o valo, galgaram a ladeira e atiraram‑se de tropel ao meio das ruínas do arraial romano. O cavaleiro negro foi o primeiro em desmontar; os outros oito imi­taram‑no.

‑ Rápido, rápido ‑ disse ele. Lançai os cavalos para as brenhas, e atravessemos o Sália! Não há um momento que perder, se queremos salvar‑nos.

E ouviu‑se um silvo acorde, único, estridente de todos os recém­‑vindos. Os ginetes soltos desceram de novo a ladeira, respirando com violência e seguiram a pista dos três que pouco antes, ao sibilar de Astrimiro, se haviam embrenhado na floresta, seguindo ao oriente as margens do Sália.

O cavaleiro negro, porém, ao volver‑se, recuou com um grito de espanto, que não pôde conter: fora naquele momento que vira Gudesteu e Hermengarda quase desfalecida, que este amparava.

‑ Vós aqui?! Ainda aqui?! ‑ exclamou ele, com gesto de espanto misturado de aflição e perdendo a compostura solene e altiva que soubera até então conservar nas mais arriscadas situações, nos transes mais dolorosos. ‑ Prestes, passai o rio. Os infiéis seguem­‑nos de perto, e os seus esquadrões não tardarão a transpor aquelas colinas. O Sália é a única barreira que pode tolher os passos a esses corredores africanos, iguais em robustez e ligeireza aos nossos cor­céis das montanhas. Irmã de Pelágio! ‑ acrescentou, dirigindo‑se à donzela, que parecia alheia ao que passava junto dela, volvendo de instante a instante para a borda do despenhadeiro um olhar de terror. ‑ Irmã de Pelágio, por Deus, que cobreis ânimo! Dois dos mais valentes guerreiros da cruz lá os deixamos despedaçados sob os pés da cavalaria árabe: estes que vedes breve acabarão nos gumes dos ferros inimigos, se não puderem salvar‑vos. Juraram‑no: hão de cumpri‑lo. Não vo‑lo imploro por mim: não quero; não posso querer de vós recompensa; mas os meus rogos são pelos irmãos de armas do duque de Cantábria, pelos que têm misturado com as dele as lágri­mas do desterro, com ele tragado o pão negro do proscrito. Diante do Senhor não vos pediriam conta do seu sangue; não valera a pena: mas, quem sabe se não vo‑la pedirá o Cristo pela sua religião, a Espanha pela sua liberdade?

Hermengarda não tinha ouvido ainda ao cavaleiro negro senão os sons quase inarticulados do seu grito de guerra: agora, porém, estas palavras proferidas em tom enérgico, mas com voz trêmula, troaram‑lhe nos ouvidos, semelhantes à voz de alguém que na vida conhecera e que o sepulcro provavelmente tragara. O terror que lhe tolhia os membros redobrou com esta voz: por um ímpeto con­vulso e desesperação encaminhou‑se, todavia, com passos incertos para a ponte fatal; mas, ao chegar a ela, recuou. Tinha abaixado de novo os olhos para a torrente, e de novo a torrente, como um sortilégio diabólico, a havia fascinado.

‑ Por tudo quanto haveis amado, cavaleiros da cruz ‑ exclamou ela desvairada: ‑ em nome do céu, abandonai‑me! O desalento e o susto me abrigarão no seio da morte da violência dos infiéis. Não posso!... Não posso vencer esse terrível abismo, que há de tragar‑me!

Os guerreiros de Pelágio, escolhendo aquela senda para a fuga, não haviam calculado com um coração feminino, mistura de esforço e timidez, de energia e de fraqueza, que será sempre para a filosofia um mistério.

‑ Os árabes! ‑ Esta palavra, cem mil vezes repetida na Espanha, como o dobrar por finado em país assolado da peste, soou atrás dos cavaleiros apinhados junto aos vestígios da porta decúmana. Saíra da boca de Astrimiro, que, sem deixar o valo, tinha a vista cravada nos visos dos montes fronteiros até cujas gargantas se dila­tava a seiva.

Os guerreiros abriram subitamente aos lados, e olharam para as cumeadas da cordilheira coroadas de muçulmanos: os ferros polidos dos franquisques, que tinham pendentes dos pulsos por uma cadeia de ferro, cintilavam levemente trêmulos.

Só Hermengarda abaixou os olhos, e ajoelhou com as mãos er­guidas no meio deles, murmurando:

‑ Não posso! Abandona!‑me!

Então o cavaleiro negro, tomando‑a pela mão, correu a vista pelas duas alas: no seu gesto havia a mesma expressão imperiosa e sinistra de que se revestira quando em Covadonga embargara a saída de Pelágio.

‑ Qual de vós ousa tomar nos braços a irmã do duque de Can­tábria e conduzi‑la por cima do abismo para a outra margem? Qual de vós ousa jurar sobre a cruz da sua espada que sem vacilar o fará?

Houve um momento de silêncio: todos os rostos empalideceram; todos os lábios calaram.

Um alarido de muitas vozes o interrompeu: eram os infiéis, que a meia encosta haviam enxergado os fugitivos e que se atiravam para o vale.

‑ Não há entre vós um que o ouse? ‑ reperguntou o misterioso guerreiro, fitando o olhar sucessivamente em todos. ‑ Vai seguro o que o tentar. A entrada deste recinto é estreita, e os pagãos antes de chegarem ao Sália passarão por cima do meu cadáver. Direis depois a Pelágio que somente o cavaleiro negro lhe pede, a ele e a sua irmã, algumas lágrimas em memória de um tiufado de Vítiza, que deixou de viver... Chamava‑se Eurico... Ele nos tenros anos ainda o conheceu em Tárraco... Fruela, Gudesteu, e tu, Sancion, qual de vós será o mensageiro? qual de vós será o salvador de Hermengarda?

Todos calaram de novo; mas aqui não houve silêncio: ouvia‑se já o ruído dos corredores sarracenos, bem de perto, no fundo do vale.

E ao proferir o cavaleiro negro o nome de Eurico, a irmã de Pelágio soltou um gemido e deu em terra como se fora morta.

‑ Nenhum! ‑ rugiu o guerreiro quase sufocado de furor e de angústia; e, alongando a vista pelo portal do recinto, viu alvejar os turbantes, e, depois, surgirem rostos tostados, e depois reluzirem armas. Os árabes começavam a galgar a ladeira. Astrimiro descera de um pulo do valo.

A contração da agonia que neste momento passou nas faces do cavaleiro negro, estendendo para o céu os punhos cerrados, não ha­veria aí palavras humanas que a pintassem. Não disse mais nada. Tomou nos braços aquele corpo de mulher que lhe jazia aos pés e encaminhou‑se para a estreita ponte do Sália. Era o seu andar hirto, vagaroso, solene, como o de fantasma: parecia que as suas passadas não tinham som; que lhe cessara o coração de bater, e os pulmões de respirar.

Viram‑no atravessar, lento como sombra; como sombra, lento, hirto, solene, internar‑se com Hermengarda na selva da outra mar­gem.

Era um corpo ou um cadáver que conduzia? Estava morta ou estava salva?

Sancion e os demais godos tinham ficado imóveis de espanto e de susto. Aquele homem, menos habituado a transitar por meio dos precipícios das montanhas, cometera um feito, para o qual lhes falecera o ânimo. Mal sabiam eles quanto os alcantis do Calpe eram mais ásperos, os seus despenhadeiros mais freqüentes, os seus córregos mais fundos, e quantas vezes esse homem os havia galgado na escuri­dão da alta noite, por entre o redemoinhar e bramir do vento e das tempestades!

Foi por um momento rapidíssimo que durou a imobilidade dos godos, porque tanto bastou ao cavaleiro negro para transpor a breve largura do Sália e sumir‑se na floresta que, descendo das montanhas fronteiras, vinha quase tocar na borda dos alcantis pendurados sobre as águas.

Os dez guerreiros, uns após outros, galgaram ligeiros por cima do roble nodoso, sem abaixarem os olhos para a espécie de sorvedouro negro, revolto, ruidoso, que, mugindo lá embaixo, parecia, com seu estrépito violento, tentar atraí‑los e devorá‑los.

Sancion foi o derradeiro a passar: a meio rio sentiu após si o tumulto dos árabes que se precipitavam dentro dos arruinados valos romanos. Não titubeou e seguiu avante. Chegando à margem oposta, volveu os olhos e viu que alguns dos inimigos punham pé em terra e, cegos na sua fúria, se arrojavam para a ponte fatal.

‑ Godos, aqui! ‑ gritou ele: e o primeiro golpe de franquisque deu um som baço entrando nas raízes ainda vivas da velha árvore.

E, manso e manso, os agarenos, lançando‑se ao comprido sobre o cepo que estremecera ao golpe de Sancion e segurando‑se às cavi­dades do velho tronco e às asperezas do seu grosseiro córtex, se aproximavam, semelhantes ao estélio que se arrasta, nas ruínas de Balbeque, ao longo de coluna tombada.


Cristãos e infiéis fizeram silêncio: era uma destas situações em que a voz expira na garganta; porque o viver parece quase para­lisar‑se.

E os árabes avançavam sempre, e os golpes das pesadas secures godas batiam roucos e cada vez mais violentos e repetidos nas raízes que estalavam, lascando; e já os olhos esverdeados de cólera, faiscantes, desvairados dos infiéis, cujas barbas negras varriam o tronco, se encontravam com o olhar torvo de Sancion, curvo, vibrando golpes sobre golpes, e cercado de alguns companheiros que o imitavam ‑ aqueles a quem o consentia a apertura do sítio, enquanto os outros, com os franquisques nas mãos, se preparavam para repelir os inimi­gos, que só um a um poderiam transpor a estreita passagem.

Subitamente estouram as últimas fibras do lenho; a árvore monstruosa despenha‑se da sua base de pedra, escapa da riba fronteira, tomba pelas pontas dos rochedos limosos, fá‑las voar em rachas e bate sobre o dorso da torrente, cujo ruído não pôde devorar inteiramente o alarido dos infiéis precipitados, que deixam os fragmentos das armas, dos vestidos e dos membros pendentes dos bicos das rochas. As águas, espadanando, trepam em lençóis de escuma pelas paredes anfractuosas do precipício e lambem o sangue que por instantes as tingiu. Depois, o grosso madeiro flutua, deriva pela corrente e lá vai, de envolta com ela, em demanda das solidões do mar.

Os árabes que enchem o recinto das ruínas recuam diante de tão horroroso espetáculo: os godos enviam‑lhes uma risada feroz de insulto e desaparecem na espessura das brenhas que se dilatam até às raízes das montanhas de Auseba, onde deve ser o termo da sua viagem.