Fabulas de Esopo/O Veado e o Caçador

Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Veado e o Caçador


FABULA LXVII.


O Veado e o Caçador.

Bebendo o Veado em huma ribeira, vio seus cornos, ramos e as pernas delgadas: parecêrão-lhe as pernas mal e ficou pesaroso de as ter, e por outra parte tão satisfeito da formosura dos cornos, que se fez soberbo de contente. Ainda bem não sahia da agua, quando dá sobre elle hum Caçador. Foi-lhe forçado valer-se dos pés, que pouco antes despresara, e elles o punhão em salvo. Mas entrando por hum arvoredo basto, embaraçárão-lhe os cornos com os ramos das arvores, com que se embaraçou e foi tomado. Pelo que dizia, vendo-se preso e ferido: Grande parvo fui, que o que me era bom desestimei, fazendo muito caso do que me causou a morte.


MORALIDADE.


A cegueira deste Veado temos todos os que temos nossa bemaventurança em haver cousas, que depois de alcançadas, ainda que no principio nos alegrem, são depois causa de nossa destruição.

Por tanto aprendamos a pedir a Deos nos dê cousas, com que o sirvamos, e nos salvemos; porque elle sabe o que a cada hum he bom, e nós não sabemos nada.