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Farmacopéia
por Luís da Gama
Temos pimenta,

Grato elixir,
Que os vícios cura
Sem afligir;
Também sementes
De dormideiras
Que impáfias cura,
E frioleiras.

Do autor


Primores d’além sec’lo, já caducos,
Focinhudas raposas estufadas,
Vinde ao vasto armazém, de Citeréia,
Reformar as caraças desbotadas.

Temos carmim
Que a face enrubra,
Sem que a velhice
Fatal descubra,
Belos chinós —
Para as papalvas
Que encobre a cuia,
Das que são calvas.

Para o velho que sofre d’enxaquecas —
Trovões e pataratas de barriga,
Em seco fuzilando, sem proveito,
Para o fero Esculápio que o fustiga —

Temos seringas,
Lá do Pará,
Água de Celtz,
Mas feita cá;
Raiz saudável
Do almeirão,
Que cura tosse
E catarrão.

Estulta rapariga, apavonada,
Que campa de Doutora e sabichona,
Cuidando, por saber Paulo de Kock,
Que os foros já não tem de toleirona.

Venha que temos,
Para lhe dar,
Rotos calções
P’ra consertar;
Velhas ceroulas,
Uma vassoura,
Que a fama elevem
Da tal Doutora.

Matuto que se mete a saberete,
Esquecido do milho e das abob’ras,
Não sabendo escrever seu próprio nome,
Arrota que tem lido grandes obras —

Oh! para este
Temos arreio,
Albarda, esporas,
Cabresto e freio;
E se contente
Se não mostrar
Rebenque nele,
Toca a marchar.

Marido que a consorte não recata,
Entregue ao desvario, ao desatino;
Que na pândega alegre não repara,
A figura que faz de — Constantino

Tem sortimento,
Já reservado,
Grinalda e gorra,
Chapéu-armado,
Barrete, à moda,
Com dous raminhos,
Para descanso
Dos passarinhos.

Para as damas perluxas d’alto bordo,
Que servem, nos salões, de figurinos,
Enfeitadas bonecas de vidraça
Que alucinam os Vates colibrinos

Lindos toucados,
De seda fina,
Tendo na frente
Alva cortina;
E outros muitos
Com reposteiros,
Que também servem
De mosquiteiros.

Para as belas amantes do postiço,
Que metem barbatanas pela saia,
Onde o vento brejeiro, remexendo,
Deixa ver as perninhas de lacraia —

Temos balões,
Torcida e gás —
Estopa grossa
Com aguarrás;
E de farelos
Um travesseiro,
Para enfunar
O alcatreiro.

Para o tolo mancebo desfrutável,
Que cem moças namora de pancada;
E julgando-se Adônis — na beleza,
De perfumes se borra, e de pomada —

Casa de orates,
Dieta e bichas,
Crânio rapado,
Lambadas fixas;
Camisa longa,
Purga e sal,
Que a bola afresca,
E cura o mal.

P’ra o torpe jornalista que não sente,
A pena mergulhando na desonra;
E de vícios coberto, o saltimbancos,
Só trata de cuspir na alheia honra —

Prudência e tino,
Critério e siso;
Também vergonha,
Se for preciso:
E se esta dose
Lhe não bastar
Um bom cacete
Para o coçar.

Para os finos garotos, e filantes
De cigarros de palha, ou de charutos,
Que levam noite e dia a pedinchar,
De carinha lavada, e muito enxutos —

Um — já não tenho —
Aos tais flaudérios,
Que a mais é bucha —
Fora gaudérios! —
E se teimarem
Com tal chincar,
Um quebra-queixos,
P’ra os desmamar.

Para os velhos carolas, marralheiros
Que afetam de santinhos — só de dia;
E sendo noute velha — encapotados,
Não resistem de amor à fanfurria.

Cheiroso banho,
D’alta janela,
Que os ponha a trote,
Fugindo d’Ela;
Topada e queda,
Nariz quebrado
Um bom vergalho,
Mas bem puxado,

Para o filho do pai agonçalado,
Sem brio, sem saber, sem criação;
Que os velhos venerandos não respeita,
Entre ovelhas mostrando-se leão —

Quartel, chibata,
Marinha ou praça,
Que um cordeirinho
O lobo faça;
E se o tratante
Não for barão,
Morada grátis
Na Correção,

P’ra o ancho protetor das letras pátrias
Mais cacório que chisme — no fintar;
E que cheio d’oral filantropia,
Os impressos chupita, sem pagar.

Um santo breve,
Uma defesa;
Um patuá
Contra a esperteza;
E se o maçante
Inda insistir,
Sebo nas pernas —
Toca a fugir.

Para o gênio sagaz de um pai da pátria,
Amante da pobreza desvalida,
Que lambiscar aos patetas o que pode,
E lá mete n’aljaba fementida.

Uma denúncia,
Com documentos,
Onde as ratadas
Pulem aos centos.
Depois cadeia,
Calceta ao pé;
Que é coisa santa
Contra o filé.





Mas basta; oh Musa minha, não prossigas.
D’alguém desagradar já me arreceio;
Termina, mas falando dos trovistas,
Que malham com furor no vício feio.

“Bebem do roxo,
“Tomam café,
“Pitam charuto,
“Cheiram rapé.
“Jogam pacau,
“Truque, manilha;
“Quando Deus quer,
“Também o pilha.”