Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas)/XIX
Quando ás vezes estavamos bebendo,
Uma roda de alegres camaradas, —
Com o copo na não todos se gabam, —
E diante de mim os companheiros
As mais lindas donzellas celebravam,
Innundando o louvor com taças cheias,
Fincados sobre à banca os cotovellos;
Em todo o meu socego, lh'escutava
As basofias. Depois ria comigo,
Retorcia os bigodes e empunhando
Uma taça bem cheia lhes dizia:
Tudo tem seu logar, mas ha na terra
Quem se compare á minha Margarida,
Ás mãos de minha irman quem deite agua?
Toque, toque, tlin, tlão, corria a roda,
Muitos gritavam — tem razão, é a perola
De todas as donzellas. E callavam-se
Os maiores falladores — E agora?
É p'ra arrancar a grenha e na parede
A cabeça partir! Com zombarias
Ou torcendo o nariz, qualquer brejeiro
Pode insultar-me, e vivo sempre em sustos,
Como mau pagador, estremecendo
A cada dito que fortuito escapa !
E ainda que em postas os fizesse —
Não podia chamar-lhes mentirosos.
Quem vem alli? Quem acolá se esquiva?
Parecem os tães dous de Margarida —
Mato-o, se é elle, não escapa vivo.
Como da fresta sáe da sacristia
Frouxo reflexo da perpetua lampada,
E cada vez mais fraco bruxulêa,
Pelas trevas de entorno circumscripto ;
Assim no peito meu é noite escura.
Pois eu estou como um gato em Janeiro,
Que canta o seu amor pelos telhados,
E detraz das paredes se espreguiça.
Estou perfeitamente, sinto uns longes
Da avidez do ladrão e uns ardores
De cubiçosa, soffrega lascivia.
Tal effeito produz já no meu corpo
A noite de Walpurgis portentosa,
Que depois de ámanhan torna de novo.
É noite que se vela de bom grado.
E no entretanto á superficie sobe
O thesouro
que em terra luzir vejo?
Has de ter muito breve o prazer grato
De pôr as mãos no precioso cofre.
Deitei-lhe ha pouco os olhos, e vi dentro
De bellas peças d'ouro gran quantia.
Porém nenhum annel, nenhum enfeite
Com que possa adornar a chara amante ?
Parece-me que lá vi cousa a modo
De perolas em fio.
Estou contente!
Pesa-me tanto ir vel-a sem levar-lhe
Algum presente.
Por algumas vezes
Gosardes gratis não deveis doer-vos.
Ides agora ouvir, pois que scintillam
Estrellados os ceus, um primor d'arte;
Para com mais certeza seduzil-a,
Uma canção moral eu vou cantar-lhe.
(Canta acompanhando-se na guitarra.)
Que estás aqui a fazer
Á porta do teu amado,
Cath'rina, ao alvorecer
Quando inda o sol não é nado?
Anda lá, deixa tu 'star;
Entras a porta donzella,
Mas não tornas a voltar
Como quando entraste nella.
Meninas, tento tomae,
Mal as cousas consummadas,
Boas noites; lá se vai
O amante e vós...coitadas!
Não façaes, se amor vos tendes,
A nenhum ladrão favores,
Se não quando o annel no dedo
Vos metterem, meus amores.
A quem vens engrazar? com mil demonios,
Caça ratos maldito, leva a breca
Essa guitarra e tu que a 'stás tocando.
Partiu-me a guitarra! esta perdeu-se.
E vou-te pôr ao sol esses miolos.
Oh lá senhor Doutor, nada de medos !
Cozei-vos bem comigo, eu vou guiar-vos;
Puxae por a catana e dae"stocada,
Eu pararei somente.
Pára esta.
E porque não?
Mais esta.
Com certeza.
Parece que me bato com o demonio!
Que é isto? tenho a mão entorpecida!
Atira.
Eu morro.
Ahi o tens bem manso.
Agora safa, temos de sumir-nos
Que não tarda algazarra furiosa;
Co'a policia sei eu mui bem haver-me,
Mas com crime de inorte, não.
Accudam!
Venha luz!
É uma briga, um alarido!
Um já 'stá morto.
O matador fugiu ?
Quem jaz por terra?
De tua mãe o filho.
Que desgraça, meu Deus omnipotente!
Eu morro! Diz-se breve e ainda mais breve
Succede. Porque estaes a prantear-me,
Mulheres ? vinde ouvir-me aqui de perto.
(Chegam-se a elle.)
Escuta, Margarida, inda és mui nova
Fazes as cousas mal. Aqui t'o digo
Entre nós, já que és mulher perdida,
Sabe sel-o ás direitas, pelo menos.
Ai, Deus Nosso Senhor, irmão, que é isso?
Deixa Nosso Senhor em paz! Passado,
Inda mal, é passado e d'ora ávante
Has de seguir o costumado trilho.
Com um amante começas em segredo,
Vem outro delle atraz e se uma duzia
Chegar a possuir-te, já pertences
Á inteira cidade!
Quando nasce,
Vem a torpeza ao mundo occultamente
E sobre a face lançam-lhe de pressa
O denso veu da noite. Bem quizeram
Suffocal-a á nascença. Mas se cresce
E ganha corpo, á luz do sol se affoita,
E todavia não se fez mais bella.
Com tanto mais ardor a luz procura,
Quanto mais se lhe augmenta a fealdade.
Já vejo o tempo vir em que se arrede
De ti, como d'um corpo corrompido,
Todo o burguez honrado, prostituta!
Ha de tremer-te o coração no peito
Se alguem te encarar! Nem cordão d'ouro
Tornarás a trazer, nem mais na Egreja
A chegar-te ao altar. Lenço de rendas
Não has de tu pôr mais, p'ra divertir-te
Nas danças aldeans. Num canto escuro,
Mettida entre aleijados e mendigos,
Embora do Senhor perdão alcances,
Has de na terra sempre ser maldicta!
Vossa alma ao senhor das misericordias
Recommendae, com maldicções ainda
A quereis carregar?
Maldicta velha,
Se podesse arrancar-te a pell' tisnada,
Tinha certo o perdão de meus peccados.
Que dizes, meu irmão, ai que tormento!
Já te disse que escondas essas lagrimas.
Quando a honra perdeste, mortal frida
Me rasgaste no peito. P'ra Deus subo,
Morrendo qual soldado valoroso.
(expira .)