Girândola de Amores/III

Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo III: Polícias e cócegas


Justamente no dia do malogrado casamento de Gregório, o Dr. Ludgero, então chefe de polícia da Corte, acabava de entrar na casa de sua residência à rua da Ajuda, quando o ordenança lhe entregou, por mandado do ativo delegado Benevides, a parte de um grande crime, que nessa mesma tarde se havia cometido nos armazéns de rapé do popular fabricante Paulo Cordeiro.

Ludgero levantou-se incontinenti da mesa, tomou apressado o chapéu e a bengala, meteu-se no carro e disse ao cocheiro que tocasse para a ladeira da Conceição.

O carro parou à entrada de uma espécie de corredor, que conduzia sinistramente a um lugar apertado, sujo e abafado pelo teto. Era aí que a polícia detinha os cadáveres complicados em qualquer crime. Ainda não existia o Necrotério.

Fazia péssima impressão entrar naquela pocilga da morte, cujo aspecto repulsivo dizia todos os mistérios da miséria humana. Constava de um pequeno quarto, estreito e úmido, com duas mesas de pau. Havia também, na parede do fundo, uma cruz negra, que abria na sombra os braços, muito triste, como se estivesse em vão à espera do seu crucificado.

Sobre uma das mesas, jazia, glacial e rígido, o corpo ensangüentado de um homem branco. Ao lado, dentro de um caixão de forma especial e com as tábuas ensebadas pelo hábito de carregar os despojos das autópsias, viam-se matérias informes, de uma cor estranha e repugnante, dentre as quais sobressaíam vísceras humanas, gordas e brancas como carne de porco, e um crânio, cerrado ao meio, deixando transbordar a massa compacta dos miolos. Em torno de tudo isto zumbiam moscas.

Veio à porta receber o chefe de polícia um homenzinho magro e amarelo, tão feio e tão morto de fisionomia, que lembrava os próprios defuntos que lhe cabia vigiar.

O ofício comera-lhe o pavor natural que todo o homem sente à vista da morte, e familiarizara-o com as degradações pavorosas da carne sem vida. Dava-se perfeitamente bem no meio de tudo aquilo: ali comia, ali dormia e ali amava. Quando pilhava algum dinheiro para comprar luz, corria à venda a bebê-lo de aguardente, e à noite deixava-se ficar no escuro com os inalteráveis companheiros de casa, que seguro não o incomodariam durante o sono.

O Ludgero disse-lhe alguma coisa; e o guarda, sem nada responder, conduziu-o para defronte da mesa em que estava o cadáver.

Então o chefe de polícia armou as suas lunetas de vidro graduado, e ficou a observar o morto por algum tempo.

Era um defunto comprido, magro, com barbas empastadas de sangue pelo lado inferior. Estava descalço e tinha o corpo nu, ligeiramente esverdeado. O assassino rasgara-lhe a garganta à faca e puxara o golpe até às regiões dérmicas do tórax.

O chefe mandou chamar o escrivão e o médico, procedeu ao corpo de delito, e, depois de apoderar-se de um farrapo de casimira cinzenta, encontrado na mão direita do morto, meteu-se de novo no carro, e tomou o caminho da Secretaria de Polícia, que nesse tempo era ainda na rua do Sabão.

Aí procurou logo o delegado, com quem conversou algum tempo, terminando por entregar-lhe o farrapo de casimira e recomendar-lhe que procedesse às preliminares do inquérito no local do crime, e desse as providências para as competentes pesquisas.

Nessa ocasião acabava de chegar o Caixa da Casa Paulo Cordeiro, sobre quem recaía o prejuízo causado pelo roubo que dera lugar ao crime. O delegado tomou-o de parte, e os dois ficaram a falar a meia voz.

O chefe entretanto passara à sala de audiência, onde, entre outras pessoas, foi introduzida uma senhora ainda moça, de boa aparência, que dizia querer soltar um escravo seu, preso na véspera.

O chefe ouviu-a com toda a atenção, chamou um empregado e mandou lavrar o alvará de soltura. A senhora levantou-se, e agradeceu, mas, na ocasião em que transpunha a porta para sair, foi detida por uma frase que ouvira destacada da conversa do delegado.

Parou, e protegida por um reposteiro, prestou toda a atenção.

— É o que lhe digo, Sr. delegado, repisava o queixoso. Nada podemos fazer sem primeiro ouvirmos o rapaz.

— Mas onde mora esse Gregório?

— Mora nas Laranjeiras.

— Em que se ocupa?

— É zangão da praça.

— O senhor viu-o hoje?

— Nem hoje, nem ontem.

— E ele então sabia que o senhor recebeu ontem à tarde os vinte contos de réis?

— Foi a única pessoa estranha ao negócio, que soube disso.

— Bem, disse o delegado; escreva o nome e a moradia desse rapaz, e deixe tudo mais por minha conta.

A mulher que os escutava, aproveitou o momento em que os dois se afastaram, para sair do seu esconderijo e descer precipitadamente a escada.

À rua tomou um carro e seguiu para a casa de Clorinda. Pelo sobressalto em que ia e pelo ar de dolorosa ansiedade espalhado em todo o seu rosto, pálido e simpático, conhecia-se facilmente que a pobre mulher estava sob a influência de uma grande emoção.

Antes porém de voltarmos com ela à casa da noiva, que em tão triste situação deixamos no primeiro capítulo, cumpre dizermos alguma coisa a respeito deste novo personagem.

Imagine o leitor uma mulher cheia de corpo, um tanto baixa, porém esbelta e garrida; dê-lhe um par de olhos castanhos, vivos e graciosos, uma boca risonha, um narizinho arrebitado, uns cabelos da cor dos olhos, um pescoço carnudo e bom torneado; e terá o leitor, pouco mais ou menos, a figura simpática que se dirigia para a casa de Clorinda.

Chamava-se Júlia Guterres; fora atriz por muito tempo e afinal, a instâncias do homem com quem casara, teve de abandonar por sua vez o palco.

O marido faleceu cinco anos depois do casamento, deixando à viúva um legado que lhe assegurava o resto da vida.

Júlia Guterres reuniu o que possuía, vendeu alguns bens que lhe não convinham, alugou o prédio em que morara com o marido, dispôs de alguns escravos, comprou um belo chalezinho na Tijuca, e meteu-se aí, com a intenção de envelhecer tranqüilamente.

Foi nessa casa que ela travou relações de amizade com Gregório. Viram-se os dois à primeira vez por ocasião do batizado da filha de uma amiga. Gregório teria então vinte anos, gozava de alguma fama de estróina e figurava na vida romântica de uma tal Olímpia, a quem o leitor mais tarde virá a conhecer perfeitamente.

Um dia, sentia-se ela aborrecida e nervosa, sem saber o que tinha, nem o que queria; tudo nessa ocasião parecia enfastiá-la profundamente. Vestiu-se, mas não teve a coragem de sair; abriu um livro e não leu uma página sequer; acendeu um cigarro e arremessou-o logo pela janela.

Nisto entrou o criado no seu quarto e disse-lhe que o Sr. Gregório a procurava.

— Não estou em casa! respondeu a senhora, de mau humor.

Mas, quando o criado ia a sair, acrescentou consigo:

— Que idéia!...

E mandou que se abrisse a porta ao rapaz. O chalezinho da viúva compunha-se de poucas peças. Havia a sala de visitas, uma alcova, a sala de jantar, um gabinete de trabalho e mais dois ou três pequenitos cômodos de utilidade secundária.

Mas tudo isto estava disposto e mobiliado com muito apuro e muita preocupação de gosto. Desde o jardim, à entrada, que se mostrava logo sentimento artístico na escolha e colocação dos jarros e das estátuas; sentia-se a mão caprichosa que encaminhara as hastes das trepadeiras para as grades da janela, e confrangera as parasitas a se encaracolarem pitorescamente pelos troncos colunares das palmeiras e pelos seixos grotescos do repuxo.

O aspecto rico das plantas, os canteiros moldurados de grama e desenhando pequeninas ruas de cascalho, diziam muito bem com o chalezinho alegre, a rir por entre a exuberância da verdura, e todo ele enfeitado de cores e arabescos, ao sabor particular das chácaras fluminenses; sabor que resulta naturalmente da fisionomia característica das paisagens da Corte.

Quem, com efeito, atravessa as províncias do norte do Brasil e procura compreender o caráter quente das suas múltiplas paisagens, onde predominam os rios e as planícies, chegando ao Rio de Janeiro não se pode furtar à estranha mas agradável impressão que produz ao espírito esta bela cidade, com a sua opulência de palmeiras, a sua variedade pompadouriana de folhagens, a sua pedra original, que aparece por toda a parte, e as suas montanhas, tristes e silenciosas, que se vão perder no céu por entre nuvens.

Gregório penetrou na sala de Júlia, tomado já de certo desânimo: ele há tanto fazia por agradar àquela mulher, e ela sempre a desdenhar dos seus protestos, a chamar-lhe criança e a rir dos seus desgostos, dos seus suspiros, das suas atitudes apaixonadas.

— Meu amigo! disse-lhe uma vez a viúva; o senhor perde o seu tempo! já não vivo de ilusões! passou a época dos sonhos! hoje, toda a minha felicidade consiste na certeza de que não tenho absolutamente a quem dar satisfação de meus atos!

— Mas quem deseja escravizá-la? perguntou em resposta, Gregório, procurando pôr uma intenção sutil nas suas palavras. Quem é?

— Quem? interrogou ela, abrindo para o moço apaixonado seus belos olhos de cor híbrida. Quem?! O senhor, meu querido sonso. Ande lá! Tenho muito medo destes inocentes!... parece que não são capazes de quebrar um prato, entretanto...

E fazendo um gesto de graciosa impaciência:

— Homem, menino! mudemos de conversa! Falemos antes de D. Olímpia...

Gregório fez que não ouviu este nome e insistiu em que a viúva acabasse a sua frase.

— Já nem me lembra o que queria dizer...

— E até onde pode chegar o espírito da tirania! Bem! não a importunarei mais! Adeus.

— Vai suicidar-se ou vai para a casa de Olímpia?! perguntou a viúva, com um espanto exagerado. Se vai suicidar-se, previna, que preciso preparar o sentimento!

— Não me fale desse modo! Para que há de fingir aquilo que não é?! Sei que a senhora tem muito e muito coração! Não se queira fazer indiferente e cínica, quando possui aliás tesouros de amor e de ternura...

— Mau!... replicou ela; o senhor vai por mau terreno...

— Por quê?...

— Porque já se tinha despedido e deixa-se ficar.

— Nesse caso...

— Adeus.

— Até quando, ingrata?...

— Até à primeira ausência da lua.

E a viúva fechou a porta com uma risada.

Depois deste significativo tiroteio, Gregório fez ainda duas ou três tentativas de assédio, mas de todas elas saiu derrotado. É por conseguinte de supor que ele não contasse já absolutamente com o triunfo, quando a criada lhe foi dizer à porta do chalé que a senhora consentia em ser vista.

Entrou vacilante e um pouco entalado na dúvida de mais algum desbaratamento. Júlia recebeu-o sem perturbação. Estava prostrada sobre uma otomana de cetim e aí se deixou ficar, com os olhos meio cerrados de preguiça ou de tédio, as pernas cruzadas indolentemente, e a cabeça esquecida sobre duas almofadas.

— Vim importuná-la mais uma vez...

— Não. Assente-se e converse. Traz-me alguma novidade? Que há por esse mundo do espírito?

— Trago-lhe um novo poeta, Teófilo Dias, conhece?

— Dê cá.

E a viúva abriu o livro e leu algumas estrofes.

— Que tal o acha?...

Ela não respondeu e ficou com os olhos cravados no teto; depois pousou-os de novo sobre o livro e continuou a leitura.

Gregório foi a pouco e pouco se aproximando e tomou-lhe uma das mãos. Ela consentiu ou não deu por isso, muito empenhada na leitura.

Gregório recolheu a mãozinha que tinha entre as suas e levou-a aos lábios com a sofreguidão de um faminto.

Ela continuou a ler.

Gregório aproximou-se mais e, todo vergado para a frente, chegou os lábios à cabeça da viúva e beijou-lhe a polpa macia do pescoço.

— Então? Que é isso! Deixe-me! disse ela, erguendo-se melindrada e deixando escapar o livro das mãos.

Gregório levantou-se também, mas prendeu a viúva nos braços.

— Não seja assim! Perdoe! disse ele com a voz cheia de súplica. Tenha pena de mim! Repare que sofro deveras por sua causa...

A viúva abaixou a cabeça e ficou a pensar.

Esta transição desconcertou um tanto o pobre namorado.

— Então?! disse ele afinal; em que pensa?...

— É o diabo... resmungou a bonita viúva, como se falasse só consigo. É o diabo!...

— O diabo o quê?... perguntou Gregório com o ar muito infeliz.

— Você tem vinte anos e eu tenho mais de trinta!

— Oh! exclamou ele.

— Oh! não! protestou ela; você no fim de contas é uma criança e eu sou mais que uma mulher!...

— Lá vem a mania de chamar-me criança!

— Mas se é!

— E quer responsabilizar-me por uma falta de que não sou culpado?!

— Culpada seria eu se não pensasse um pouco!

— Júlia!

— Não! Não!

— Meu amor!

— Então?!

— Eu te adoro!

— Tenha juízo!

— Tu me pões louco!

— Mas contenha-se, ou chamo a criada!

— Julinha!

— Solte-me o braço! Pior! Não faça cócegas!

Mas Gregório não respeitou a ordem; e Júlia, sem poder sustentar a sério, abriu a rir, a rir muito, a torcer-se toda nas mãos do rapaz, e afinal caiu prostrada na otomana, sem forças para nada, a chorar de riso, nervosamente, sem poder falar.

E tudo felizmente acabou em pura galhofa.