Girândola de Amores/XXII

Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo XXII: Tempestade solta


Jacó desde o momento em que desconfiara que Teresa enganava o marido, nunca mais a perdeu de vista. Os passeios ao campo de Santana e depois à nova casa de Portela em Catumbi não lhe passaram despercebidos; uma ocasião acom­panhou de perto a mulher do amo e ficou inteirado do lugar onde ela ia. Saber ao certo do objeto dessas visitas clandestinas era toda a sua preocupação; de sorte que, na última, em que vimos Portela falar tão cinicamente a respeito da van­tagem de matar o comendador, o fiel Jacó se havia precisa­mente introduzido, pela primeira vez, em casa do sedutor, e escutara o conluio entre os dois amantes.

Jacó, chegando a casa, sem mais rodeios contou tudo ao patrão.

— Hein?! E impossível! exclamou o comendador.

— Pois se lhe estou a dizer, meu rico amo!... Vossemecê estaria de passagem tomada para o outro mundo, se a fortuna não me pusesse a par dos projetos daquele malvado. Ele quer dar cabo de vossemecê, para ao depois tomar conta da Sra. D. Teresinha...

O comendador passeou agitado no quarto por alguns segundos, e tornou logo a interrogar o criado. Jacó explicou-lhe tudo.

— Bem! disse o pai de Olímpia. Obrigado. Eu tratarei de defender a minha vida!

Teresa nesse dia apareceu ao marido muito mais expan­siva e risonha. Todavia, um espírito observador teria notado que a sua alegria era fingida e que toda aquela expansão encobria algum projeto traiçoeiro.

O comendador, às horas do chá, queixou-se de que estava indisposto e recolheu-se ao quarto; Teresa não lhe abandonou a cabeceira da cama, senão quando o doente declarou que precisava ficar só.

No dia seguinte, na ocasião em que a esposa lhe foi dar os costumados bons dias, ele a encarou de modo estranho e disse-lhe, com uma resolução que Teresa lhe conhecia:

— Veja ali o papel e a pena!

— Quer escrever?... perguntou a manhosa, fingindo grande solicitude. Não vá isso lhe fazer mal!...

— Não sou eu quem tem de escrever; é a senhora! Vamos! faça o que lhe digo!

A porta do quarto estava previamente fechada. Teresa foi buscar o que o marido lhe ordenara.

— Bem, disse o velho, estendendo-se no leito; agora escreva o que lhe vou ditar.

— Para quê?! perguntou Teresa, empalidecendo.

— Mais tarde o saberá... Alguém duvida que a senhora seja uma esposa virtuosa e eu desejo provar o contrário. É um capricho da velhice ou talvez uma fantasia da enfermidade.

— Estou às suas ordens, balbuciou a mulher com a voz trêmula.

— Nesse caso faça o favor de escrever: "Meu caro Luiz". Teresa sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo; quis opor qualquer razão à ordem do marido, mas não encontrou uma palavra.

— Escreveu? perguntou ele.

— Está escrito, respondeu ela; mas confesso-lhe que não compreendo o que tudo isto quer dizer...

— Nem é necessário, afirmou o comendador tranqüi­lamente. E continuou a ditar: "Estou por tudo o que desejas..."

Teresa hesitou.

— Então?!... reclamou o marido. A senhora escreve ou não escreve?!

— Mas o senhor exige de mim um sacrifício superior às minhas forças; eu não sei a quem isto será dirigido!...

— A senhora sabe perfeitamente... Continue!

— Não! disse ela; não posso continuar! O senhor com certeza delira sob a influência da febre!

— É possível... disse o velho sorrindo ironicamente. Pode ser que tudo isto não passe de um delírio... em todo caso, a senhora há de escrever o que lhe estou ditando ou me obrigará a tomar resolução mais séria!

— Mas para que exige o senhor que eu escreva semelhante coisa?!

— Já disse que mais tarde o saberá! Por enquanto basta que me obedeça!

E o comendador, possuído de inesperada energia, levan­tou-se de um salto da cama e, segurando a mulher por um dos pulsos, exclamou arremessando-a contra a mesa:

— Escreva, ou eu a mato aqui mesmo!

— Socorro! gritou Teresa.

— Pode gritar à vontade, bramiu ele. A única pessoa que está em casa é o Jacó, e esse não se importará com os seus gritos!

— Nesse caso é melhor que o senhor me dê logo cabo da existência, em vez de obrigar-me a sofrer desta forma!

— Nessa não caio eu! exclamou o marido. Hei de amar­rá-los, um ao outro, e tanto me bastará para minha vingança! No dia em que qualquer responsabilidade os unir, estarei mais que vingado, porque vocês dois, miseráveis, hão de odiar-se em breve! e cada um se encarregará então de punir o compa­nheiro de crime!

— Não o compreendo! disse a mulher, afetando grande surpresa.

— Não seja hipócrita! gritou o velho procurando reaver o seu sangue frio. Já sei de tudo. Ele espera uma resposta sua para remeter o veneno com que a senhora me tinha de assassinar!

— Valha-me Deus! exclamou Teresa. Isso é uma terrível calúnia!

— Pois se é calúnia, escreva; que nesse caso a sua carta lhe servirá de defesa...

— Mas como hei de eu escrever uma coisa que não sinto?!

— Não me interrogue, porque não estou disposto a dar-lhe explicações. A senhora, ou escreve o que lhe vou ditar, ou não sairá viva deste quarto!

— O senhor não pode dispor assim de minha vida!

— E poderia a senhora, por acaso, dispor de minha honra como dispôs?

— Eu não o desonrei!

— Veremos agora. Escreva!

— Pois escrevo! O senhor ficará convencido de que sou inocente.

O comendador ditou então:

— "Estou por tudo o que me propuseste. Manda o fras­quinho e..."

— Não faço semelhante coisa, exclamou Teresa, arremes­sando a pena e levantando-se com ímpeto.

— Pois farei eu... disse o comendador, tomando o lugar que a mulher acabava de deixar. E gritou para fora: — O Jacó!

O criado bateu à porta.

— Abre e entra, respondeu o amo.

Ouviu-se ranger a fechadura, e em seguida surgiu no aposento o respeitável vulto do velho flâmulo.

— Tens de arranjar um portador para este bilhete, orde­nou-lhe o comendador. Já sabes do que se trata. Recomenda que esperem pela resposta e entrega-ma logo que chegar.

E voltando-se para a mulher, acrescentou:

— A senhora não sairá daqui enquanto não vier a decisão!

Teresa atirou-se aos pés do marido, a soluçar.

— Perdoa exclamou ela, abraçando-lhe os joelhos; perdoa! Eu não sei o que digo! eu não sei o que faço! Juro-te entre­tanto que não sou tão culpada como pareço! Desejava ser honesta; desejava ser o modelo das esposas; todo meu sonho era cumprir à risca os meus deveres! mas a natureza me arre­batava para os crimes de que me acusas; tudo me impelia para o mal, tudo me puxava para o adultério! Ah! tu não sabes decerto o que é ter a minha idade, o meu temperamento, o meu sangue! Tu não sabes o quê é a mulher! o que é a natureza! o que são estes nervos, esta carne, e tudo isto que grita dentro de nós, como bocas com fome! Já agora falo-te com toda a franqueza. Eu nunca tive a idéia de faltar-te ao res­peito; estimava-te, como se fosses meu pai; desejava o teu bem-estar, a tua felicidade, a tua alegria, como se deseja a ventura do melhor amigo mas eu precisava de amor, não do amor frio e adormecido que me proporcionavas, mas de um amor ardente, fecundo, apaixonado, de alguém que tivesse a minha idade. Sei que fiz mal em sucumbir aos reclamos desta miserável matéria; mas que queres tu?! não fui eu quem me fez e quem decretou as leis que haviam de reger os meus sen­tidos! Sucumbi, mas não sou a responsável pela minha queda! Se quiseres, mata-me; faze o que entenderes de mim; eu te não amaldiçoarei; mas, por amor de Deus! poupa aquele moço, que de nenhuma culpa tem do que sucedeu. Fui eu quem o arrastou, quem o seduziu! Ele não seria capaz de cometer essa infâmia, porque é homem e não está como nós outras, míseras mulheres, seguro pelas carnes e pelos cabelos às unhas do pecado!

— Tu o adoras, desgraçada! exclamou o comendador, ferido no coração.

— Sim! respondeu Teresa, pondo-se de pé e olhando fria­mente para o marido. Eu o adoro! Se me tivessem casado com um moço, é natural que me não lembrasse de ter um amante; mas tu és um velho, tu és um destroço; a ti poderia dedicar minha alma, mas meu corpo, esse teria de pertencer fatalmente a alguém que o escravizasse, a alguém que lhe pudesse domar os ímpetos!

E Teresa, ao terminar estas palavras, caiu arquejante sobre uma cadeira, a resfolegar aliviada, como se acabasse de des­pejar um grande peso da consciência.

O marido, imóvel ao lado dela, não lhe tirava de cima o seu frio olhar de cólera ciumenta.

— Já nada existe de comum entre nós... disse afinal a desgraçada, passando a mão pelo rosto. Foi até melhor que nos entendêssemos por uma vez! Eu, confesso, não podia suportar o senhor por mais tempo... Pesava-me enganá-lo; não sirvo para a traição e para o embuste: sou capaz de uma loucura, mas repugna-me praticar uma covardia...

— Por que então se casou comigo!?... perguntou o comen­dador com a voz trêmula. Para que consentiu, se me não podia suportar, que ligassem o meu triste destino ao seu? Se me não amava, ou se não sentia a coragem de conservar-se fiel aos votos do matrimônio, por que o não declarou com franqueza antes de arriscar meu nome e minha honra? Para que me iludiu?! Oh! a senhora é perversa! Um pouco de bondade a teria levado a proceder de outro modo; se o marido, se o homem, não lhe merecia amor e dedicação, o pobre velho devia ao menos inspirar-lhe dó ou piedade! Que lhe custava esperar um pouco que eu fechasse os olhos?... Não tenho tanto a viver... e a senhora depois poderia fartar à vontade todos os seus instintos desordenados. Mas não! preferiu amar­gurar-me o resto da vida, preferiu cobrir-me a velhice de ver­gonha e desgostos; não consentiu que eu pudesse retirar-me para a sepultura sem ir amortalhado nos farrapos da minha pobre dignidade, que a senhora estraçalhou nos seus momentos desenfreados de luxúria!

— Oh! exclamou Teresa, cobrindo o rosto com as mãos. É demais!

— Tarde, bem tarde lhe assiste o pudor, minha senhora! continuou o velho, fazendo um gesto de desprezo. Não acre­dito que minhas palavras, por muito duras e grosseiras, possam encontrar eco em coração tão corrompido!

— Mas para que me há de o senhor insultar desta maneira? perguntou Teresa, erguendo-se de novo. Se me casei com o senhor, se consenti em ligar-me ao seu destino, não foi, repito, porque o quisesse enganar; foi porque não conhecia absoluta­mente os segredos do meu destino de mulher. Podia eu, por­ventura, prever o que me esperava? sabia eu por acaso o que é amar ou aborrecer um homem?... Uma criatura nas cir­cunstâncias em que me casei nada entende dessas coisas. Aceita o primeiro marido que atiram sobre ela, como aceitaria qualquer outro! Por que o iludi? perguntou o senhor; e eu, porventura, não fui também iludida?...

— Iludida?! interrogou o comendador, escancarando os olhos.

— Decerto! respondeu a adúltera. O senhor, durante o tempo em que me procurou agradar, não denunciou nenhum dos seus defeitos, nenhum dos seus achaques, nenhum dos seus lados antipáticos; fez, ao contrário, todo o possível para os encobrir com artifício e grande habilidade. Escondeu-me as suas misérias de velho, disfarçou a sua decrepitude e afetou entusiasmo pelas coisas do espírito; volveu-se moço, terno, apaixonado, estudou frases sedutoras, recitou versos, falou de prazeres ideais, fingiu abnegação, heroísmo, coragem, enfei­tou-se enfim de poesia; e, entretanto, uma vez apoderado de mim, uma vez que me julgou segura para todo o resto de sua vida, atirou com os disfarces pela janela e pôs à minha dispo­sição um resto de homem, egoísta, fraco, cheio de asma, rabu­gento e inútil!

— Senhora!

— É essa a verdade! Iludir! iludir! Iludida fui eu, porque eu era justamente a mais ingênua, a mais cândida e passiva, a mais fácil de enganar! Acredito que o senhor fosse igualmente iludido, mas foi por si próprio, porque se acreditou capaz de inspirar amor a uma mulher da idade que eu tinha então!

— Não foi isso o que me cegou, disse o comendador. Todo o meu erro foi supô-la virtuosa.

— Ora, meu caro senhor, a virtude é sempre uma coisa muito relativa; é sempre uma conseqüência e nunca um prin­cípio. Toda mulher é virtuosa, desde que ela tenha a quem dedicar essa virtude; é uma questão de gratidão, de recipro­cidade e às vezes de interesse próprio. Mas por onde fez o senhor para merecer minha virtude?... Por que era meu marido? Mas que espécie de marido era o senhor?! Admito que me lançasse em rosto aceitar o amor de um estranho, se eu tivesse à minha disposição o amor que o senhor me dedi­casse. Mas onde está ele? por onde mo revelou? Trazendo-me para esta casa e dando-me o que comer?! Isso não basta!

— Belas teorias! não há dúvida!... disse o comendador, sacudindo a cabeça.

— São pelo menos verdadeiras! respondeu Teresa, já can­sada de falar.

E, depois de tomar fôlego, acrescentou:

— E ainda vem o senhor dizer, no seu fraseado cheio de afetação, que eu devia ao menos ter dó ou piedade do pobre velho, já que o homem, o marido, não me havia merecido amor! Mas valha-me Deus! Eu não me casei para ter dó de quem quer que fosse!... Eu não me propus ser uma irmã de caridade; eu apenas me propus dar amor em troca de amor; ceder o meu valimento de mulher em troca da competência de um homem! "Devia ao menos ter dó do pobre velho!" E o velho teve porventura dó de mim?! Não sabia ele que, o ligar-se a uma rapariga forte, perfeita, em plena saúde e em pleno vigor do sangue, eqüivalia a encarcerá-la num convento, entregue aos sobressaltos da sua mocidade e ao jugo inquisi­torial dos seus desejos?! Se entre nós houver um mau, sem piedade e sem dó, foi o senhor, porque, jungida como me achei ao seu destino triste e desconsolado, tinha eu fatalmente, ou de me conformar com o círculo de ferro que o senhor traçou em volta dos meus sentidos, ou tinha de romper com ele e cair no desprezo da sociedade, sem nunca mais poder arrancar de mim o terrível estigma do adultério!

— E é isto naturalmente o que me está reservado... acrescentou ela, depois de uma pausa, enquanto o comendador meditava; com a diferença de que o senhor continuará a fre­qüentar as suas relações, jogará o seu voltarete, ouvirá o seu bocado de música em casa dos amigos, terá a sua chávena de chá, como dantes, e continuará a ser respeitado, ouvido e galanteado pela sociedade; ao passo que eu, desde que trans­ponha aquela porta, terei de renunciar a tudo isso e de con­formar-me com a obscuridade e com o abandono do meu novo estado. Qualquer um se julgará, desde então, com o direito de me lançar em rosto a falta pela qual aliás não sou respon­sável, e todos me apontarão às filhas e às esposas como um monstro venenoso e traiçoeiro que é preciso evitar com o maior desvelo! Para o senhor: toda a indulgência, toda a compaixão, todas as simpatias de vítima; para mim: todo o desprezo, todo o ódio, toda a indignação e toda a repugnância! Oh! Esta teoria sim, esta teoria é que o senhor acha sem dúvida razoável!...

— E então o seu amante?! Esqueceu-se de que deve contar com ele?! Pois esse grande amor, que os impeliu um para o outro até ao crime, não é quanto basta para encher a vida de ambos?!...

E o comendador sorriu sarcasticamente.

— O senhor faz-me perder a paciência! respondeu Teresa com tédio. A que vem agora semelhante pergunta?! Está bem claro que o amor é indispensável para a vida da mulher e que sem ele não encontramos encanto em coisa alguma; mas a nossa vida compõe-se de duas partes: a privada e a exterior; nascem ambas à porta de nossa casa, uma, porém, se estende para dentro e a outra para fora. A primeira, com efeito, baseia a sua felicidade essencialmente no amor, mas a segunda pre­cisa de outros alicerces; sem as considerações sociais, sem a estima de umas tantas pessoas, sem o concurso de umas tantas coisas, não poderá esta última existir e nem terá razão de ser. Não se confundem as duas, é verdade, mas auxiliam-se mutuamente. Uma é o complemento da outra. Se a vida exterior nos fatiga, a privada nos retempera; e vice-versa. De sorte que, por maior felicidade íntima de que possamos gozar, esta nunca produzirá o seu verdadeiro efeito, se não a pudermos constatar de vez em quando com as regalias do meio exterior; da mesma forma se converterá este em puro martírio e aborrecimento se, ao sair dele, não encontrarmos em casa o consolo tépido de um amor legítimo e duradouro.

E Teresa, recuperando inteiramente o sangue frio, acres­centou ainda, como se conversasse com um estranho:

— Vê o senhor, por conseguinte, pelos meus raciocínios e por esta calma, que, antes de sucumbir, calculei bem o alcance da minha queda. Sabia eu de antemão tudo o que ia perder e tudo o que tinha de afrontar; e, tão grande reconheci meu sacrifício, que desdenhei compadecer-me de mais ninguém que não fosse eu própria. Incontestavelmente, meu caro, quem mais perde e quem mais sofre em tudo isto, não é de­certo, o senhor... o senhor continuará a ser: "O Sr. comen­dador Ferreira" e eu irei ser: "Uma mulher de reputação suspeita...

— Queixe-se de si própria, disse o comendador.

— Não! não é de mim que me tenho de queixar; é do senhor, que nunca devia ter sido meu marido; é de meus pais, que consentiram neste casamento imoral e disparatado; é da sociedade, que não sabe fazer justiça a ninguém; e é, final­mente, das leis que não nos facultam o direito de desfazer-nos licitamente de um marido, quando este nos sai errado e se torna incompatível conosco!

O comendador ia replicar, mas foram ambos interrompidos pelo velho Jacó, que voltava com o resultado da sua delicada missão contra o Portela.