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Hipótese
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Se me levas à boca a taça da aventura
Só por ver onde vai minha credulidade:
Se é convite falaz que em teu olhar fulgura,
Há gazua em teu riso, e em ti perversidade.
 
Mas eu hei de sair da minha sepultura,
Inda morto, inda tarde ouvirás a verdade:
E empoeirando de medo a tua formosura,
Medirei pela tua a minha crueldade.
 
Eu te direi: — Ninguém turva embalde uma vida;
És da festa, que acaba, a sobra corrompida;
És a úlcera, e dela, o rubro incêndio, e o horror.
 
Sombra, o teu infortúnio é grande, é sem remédio;
Teu passado é remorso, o teu futuro é tédio;
És o espectro do beijo, és o espectro do amor....