História da Donzela Teodora (recolha de Luís da Câmara Cascudo)

         
            1

Houve no reino de Tunes
Um grande negociante,
Era natural da Hungria
Negociava ambulante,
A quem se podia chamar
Um´alma pura e constante.

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Andando um dia na praça,
Numa porta pôde ver
Uma donzela cristã
Ali para se vender;
O mercador viu aquilo
Não mais pôde se conter.

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Tinha feições de fidalga,
Era uma espanhola bela,
Ele perguntou ao mouro
Quanto queria por ela;
Entraram então em negócio
Negociaram a donzela.

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O húngaro conheceu nela
As formas de fidalguia,
Mandou educá-la bem
Na melhor casa que havia,
Em pouco tempo ela soube
O que ninguém mais sabia.

            5

Mandou ensinar primeiro
Música e filosofia,
Ela sem mestre estudou
Metafísica e astrologia,
Descrever com distinção
História e anatomia.

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Ela que já era um ente
Nascido por excelência
Como que tivesse vindo
Das entranhas da ciência
Tinha por pai o saber
Por mãe a inteligência

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Tinha ela em pouco tempo
Tão grande adiantamento,
Que só Salomão teria
Um tamanho conhecimento;
Cantava música e tocava
Qualquer que fosse o instrumento

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Estudou e conhecia
As sete artes liberais
Conhecia a natureza
De todos os vegetais
Descrevia muito bem
A casta dos animais

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Descrevia os doze signos
De que é composto o ano
Da cabeça até os pés,
Conhecia o corpo humano
E dava definição
De tudo no oceano.

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Admirou todo o mundo
O saber desta donzela,
Tudo que era ciência
Podia se encontrar nela,
O professor que a ensinou
Depois aprendeu com ela.

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Mas como tudo no mundo
É mutável e inconstante
Esse rico mercador
Negociava ambulante
E toda sua fortuna
Perdeu no mar num instante.

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Atrás do bem vem o mal,
Atrás da honra a torpeza,
Quando ele saiu de casa
Levava grande riqueza,
Voltou trazendo somente
Uma extremosa pobreza.

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Em torno de si via só
O vil manto da mazela,
Em casa só lhe restava
A mulher e a donzela
Então chamou Teodora
E pediu o parecer dela.

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Disse a ela: minha filha
Bem vês minha natureza
E sabes que o oceano
Sepultou minha riqueza,
Espero que teus conselhos
Me tirem dessa pobreza.

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Ela quando ouviu aquilo
Sentiu no peito uma dor
E lhe disse tenha fé,
Em Deus nosso salvador,
Estudou logo o remédio
Que salvaria o senhor.

           16

Dizendo: meu senhor saia,
Procure um amigo seu,
É bom ir logo na casa,
Do mouro que me vendeu,
Chegue, converse com ele
Conte o que lhe sucedeu.

           17

O que ele oferecer-lhe
De muito bom grado aceite
E veja se ele lhe vende
Vestidos com que me endireite
Compre a ele todas as jóias
Que a uma donzela enfeite

           18

Se o mouro vender-lhe tudo
Com que possa eu me compor
Vossa mercê vai daqui
Vender-me ao rei Almançor,
É esse o único meio
Que salvará o senhor.

           19

El´Rei lhe perguntará
Por quanto vai me vender;
Por dez mil dobras de ouro
O senhor há de dizer
Quando ele admirar-se
Veja o que vai responder.

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Dizendo: alto senhor!
Não fiques admirado
Eu a vendo com precisão
Não peço preço alterado;
O dobro desta quantia
Tenho com ela gastado

           21

É esse o único meio
Para sua salvação
Se o mouro vender-lhe tudo
Descanse seu coração;
Daqui para o fim da vida
Não terá mais precisão

           22

O mercador seguiu tudo
Quanto a donzela ditava
Chegou ao mouro contou-lhe
O desespero em que estava,
Então o mouro vendeu-lhe
Tudo quanto precisava

           23

Roupa, objetos e jóias
Para enfeitar a donzela,
As roupas vinham que só
Sendo cortadas por ela,
Ela quando botou tudo
Pareceu ficar mais bela

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O mercador aprontou-se
E seguiu com brevidade
Falou ao guarda da corte
Com muita amabilidade
Para deixá-lo falar
Com a real Majestade.

           25

Então subiu um vassalo
Deu parte ao rei Almançor,
O rei chegou à escada
Perguntou ao mercador,
Amigo, qual é o negócio
Que tem comigo o senhor?

           26

Então disse o mercador
Com muito grande humildade
Senhor, venho a vossa alteza
Com grande necessidade:
Ver se vendo esta donzela
À sua real Majestade.

           27

O rei olhou a donzela
E disse dentro de si,
Foi a mulher mais formosa
Que neste mundo já vi.
Trinta ou quarenta minutos
O Rei mirou ela ali.

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Perguntou ao mercador:
Por quanto vende a donzela?
Por dez mil dobras de ouro
É o que peço por ela
E não estou pedindo caro
Visto a habilidade dela

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Disse El´Rei ao mercador:
Senhor estou surpreendido.
Dez mil dobras de bom ouro
É preço desconhecido.
Ou tu não queres vendê-la
Ou estás fora do sentido.

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Disse o mercador: El´Rei
Não é cara esta donzela,
O dobro desta quantia
Gastei para ensinar a ela,
Excede todos os sábios
A sabedoria dela.

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O Rei mandou chamar logo
Um grande sábio que havia
O instrutor da cidade
Em física e astronomia,
Em matemática e retórica,
História e filosofia.

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Esse veio e perguntou-lhe:
Donzela estais preparada
Para responder-me tudo
Não titubear em nada?
Se não estiver seja franca,
Se não, sai envergonhada

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Então, ela respondeu:
Meste pode perguntar
Eu lhe responderei tudo
Sem cousa alguma faltar
Farei debaixo da lei
Tudo o que o senhor mandar.

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O sábio ali preparou-se
Para entrar em discussão.
Ela com muita vergonha
Mas não teve alteração
Pediu licença e El´Rei
E ficou de prontidão.

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Diz-me donzela o que Deus
Sobre o céu primeiro fez?
Respondeu: o sol e a lua
E esta por sua vez
É por uma obrigação
Cheia e nova todo mês.

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Além do sol e a lua
Doze signos foram feitos
Formando a constelação,
Sendo ao sol todos sujeitos
Desiguais nas naturezas
Com diversos preconceitos.

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Como se chamam esses signos?
Perguntou o emissário.
A donzela respondeu-lhe
É Capricórnio, e Aquário
Tauro, Câncer, Libra, Virgo,
Pices, Scorpio e Sagitário.

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Existem outros três signos
Aires, Léo e Geminis,
No signo Léo quem nascer
Será um homem feliz,
Inclinado a viajar
Por fora de seu país.

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Disse-lhe o sábio: donzela
É necessário dizer
Que condições tem o homem
Que em cada signo nascer?
Por influência do signo
De que forma pode ser?

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Disse ela o signo Aquário
Reina no mês de janeiro,
O homem que nascer nele
Tem crescimento vasqueiro,
Será amante às mulheres
Venturoso e lisonjeiro

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Pices reina em fevereiro,
Quem nesse signo nascer
É muito gentil do corpo,
Muito guloso em comer,
Bisonho gosta de viagem
Não faz o que prometer

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Em março governa Aires
Nesse signo nascerão
Homens nem pobres nem ricos
Por nada se zangarão,
Neles se nota um defeito
Falando sós andarão

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Em abril governa Tauro
Um signo bem conhecido,
O homem que nascer nele
Será muito presumido
Altivo de coração
Será rico e atrevido.

           44

Geminis governa em maio
Sua qualidade é quente,
O homem que nascer nele
Será fraco e diligente
Para os palácios e cortes
Se inclina constantemente

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Em junho governa Câncer,
Sua qualidade é fria,
O homem que nascer nele
É forte e tem energia;
É gentil tem muita força
E sempre tem alegria.

           46

Em julho governa Léo
Por um leão furado
O homem que nascer nele
Será calvo e muito honrado
Altivo de coração
Inteligente e letrado.

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Em agosto reina Virgo
Tem de terra a natureza
O homem que nascer nele
Aos princípios tem riqueza
Depois se descuidará
Por isso cai em pobreza

           48

Em setembro reina Libra
A Vênus assinalado
O homem que nascer nele
Será um pouco enclinado
A viajar pelo mar,
É lutador e honrado