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História da Donzela Teodora (recolha de Luís da Câmara Cascudo)

História da Donzela Teodora
por anônimo
Versão do histórico romance dada pelo eminente folclorista Luís da Câmara Cascudo em seu livro "Vaqueiros e Cantadores" (EDUSP, 1984); afirma o autor que esta é a versão original saída do sertão brasileiro


         
            1

Houve no reino de Tunes
Um grande negociante,
Era natural da Hungria
Negociava ambulante,
A quem se podia chamar
Um´alma pura e constante.

            2

Andando um dia na praça,
Numa porta pôde ver
Uma donzela cristã
Ali para se vender;
O mercador viu aquilo
Não mais pôde se conter.

            3

Tinha feições de fidalga,
Era uma espanhola bela,
Ele perguntou ao mouro
Quanto queria por ela;
Entraram então em negócio
Negociaram a donzela.

            4

O húngaro conheceu nela
As formas de fidalguia,
Mandou educá-la bem
Na melhor casa que havia,
Em pouco tempo ela soube
O que ninguém mais sabia.

            5

Mandou ensinar primeiro
Música e filosofia,
Ela sem mestre estudou
Metafísica e astrologia,
Descrever com distinção
História e anatomia.

            6

Ela que já era um ente
Nascido por excelência
Como que tivesse vindo
Das entranhas da ciência
Tinha por pai o saber
Por mãe a inteligência

            7

Tinha ela em pouco tempo
Tão grande adiantamento,
Que só Salomão teria
Um tamanho conhecimento;
Cantava música e tocava
Qualquer que fosse o instrumento

            8

Estudou e conhecia
As sete artes liberais
Conhecia a natureza
De todos os vegetais
Descrevia muito bem
A casta dos animais

            9

Descrevia os doze signos
De que é composto o ano
Da cabeça até os pés,
Conhecia o corpo humano
E dava definição
De tudo no oceano.

            10

Admirou todo o mundo
O saber desta donzela,
Tudo que era ciência
Podia se encontrar nela,
O professor que a ensinou
Depois aprendeu com ela.

            11

Mas como tudo no mundo
É mutável e inconstante
Esse rico mercador
Negociava ambulante
E toda sua fortuna
Perdeu no mar num instante.

            12

Atrás do bem vem o mal,
Atrás da honra a torpeza,
Quando ele saiu de casa
Levava grande riqueza,
Voltou trazendo somente
Uma extremosa pobreza.

           13

Em torno de si via só
O vil manto da mazela,
Em casa só lhe restava
A mulher e a donzela
Então chamou Teodora
E pediu o parecer dela.

           14

Disse a ela: minha filha
Bem vês minha natureza
E sabes que o oceano
Sepultou minha riqueza,
Espero que teus conselhos
Me tirem dessa pobreza.

           15

Ela quando ouviu aquilo
Sentiu no peito uma dor
E lhe disse tenha fé,
Em Deus nosso salvador,
Estudou logo o remédio
Que salvaria o senhor.

           16

Dizendo: meu senhor saia,
Procure um amigo seu,
É bom ir logo na casa,
Do mouro que me vendeu,
Chegue, converse com ele
Conte o que lhe sucedeu.

           17

O que ele oferecer-lhe
De muito bom grado aceite
E veja se ele lhe vende
Vestidos com que me endireite
Compre a ele todas as jóias
Que a uma donzela enfeite

           18

Se o mouro vender-lhe tudo
Com que possa eu me compor
Vossa mercê vai daqui
Vender-me ao rei Almançor,
É esse o único meio
Que salvará o senhor.

           19

El´Rei lhe perguntará
Por quanto vai me vender;
Por dez mil dobras de ouro
O senhor há de dizer
Quando ele admirar-se
Veja o que vai responder.

           20

Dizendo: alto senhor!
Não fiques admirado
Eu a vendo com precisão
Não peço preço alterado;
O dobro desta quantia
Tenho com ela gastado

           21

É esse o único meio
Para sua salvação
Se o mouro vender-lhe tudo
Descanse seu coração;
Daqui para o fim da vida
Não terá mais precisão

           22

O mercador seguiu tudo
Quanto a donzela ditava
Chegou ao mouro contou-lhe
O desespero em que estava,
Então o mouro vendeu-lhe
Tudo quanto precisava

           23

Roupa, objetos e jóias
Para enfeitar a donzela,
As roupas vinham que só
Sendo cortadas por ela,
Ela quando botou tudo
Pareceu ficar mais bela

           24

O mercador aprontou-se
E seguiu com brevidade
Falou ao guarda da corte
Com muita amabilidade
Para deixá-lo falar
Com a real Majestade.

           25

Então subiu um vassalo
Deu parte ao rei Almançor,
O rei chegou à escada
Perguntou ao mercador,
Amigo, qual é o negócio
Que tem comigo o senhor?

           26

Então disse o mercador
Com muito grande humildade
Senhor, venho a vossa alteza
Com grande necessidade:
Ver se vendo esta donzela
À sua real Majestade.

           27

O rei olhou a donzela
E disse dentro de si,
Foi a mulher mais formosa
Que neste mundo já vi.
Trinta ou quarenta minutos
O Rei mirou ela ali.

           28

Perguntou ao mercador:
Por quanto vende a donzela?
Por dez mil dobras de ouro
É o que peço por ela
E não estou pedindo caro
Visto a habilidade dela

           29

Disse El´Rei ao mercador:
Senhor estou surpreendido.
Dez mil dobras de bom ouro
É preço desconhecido.
Ou tu não queres vendê-la
Ou estás fora do sentido.

           30

Disse o mercador: El´Rei
Não é cara esta donzela,
O dobro desta quantia
Gastei para ensinar a ela,
Excede todos os sábios
A sabedoria dela.

           31

O Rei mandou chamar logo
Um grande sábio que havia
O instrutor da cidade
Em física e astronomia,
Em matemática e retórica,
História e filosofia.

           32
Esse veio e perguntou-lhe:
Donzela estais preparada
Para responder-me tudo
Não titubear em nada?
Se não estiver seja franca,
Se não, sai envergonhada

           33

Então, ela respondeu:
Meste pode perguntar
Eu lhe responderei tudo
Sem cousa alguma faltar
Farei debaixo da lei
Tudo o que o senhor mandar.

           34

O sábio ali preparou-se
Para entrar em discussão.
Ela com muita vergonha
Mas não teve alteração
Pediu licença e El´Rei
E ficou de prontidão.

           35

Diz-me donzela o que Deus
Sobre o céu primeiro fez?
Respondeu: o sol e a lua
E esta por sua vez
É por uma obrigação
Cheia e nova todo mês.

           36

Além do sol e a lua
Doze signos foram feitos
Formando a constelação,
Sendo ao sol todos sujeitos
Desiguais nas naturezas
Com diversos preconceitos.

           37

Como se chamam esses signos?
Perguntou o emissário.
A donzela respondeu-lhe
É Capricórnio, e Aquário
Tauro, Câncer, Libra, Virgo,
Pices, Scorpio e Sagitário.

           38

Existem outros três signos
Aires, Léo e Geminis,
No signo Léo quem nascer
Será um homem feliz,
Inclinado a viajar
Por fora de seu país.

           39

Disse-lhe o sábio: donzela
É necessário dizer
Que condições tem o homem
Que em cada signo nascer?
Por influência do signo
De que forma pode ser?

           40

Disse ela o signo Aquário
Reina no mês de janeiro,
O homem que nascer nele
Tem crescimento vasqueiro,
Será amante às mulheres
Venturoso e lisonjeiro

           41

Pices reina em fevereiro,
Quem nesse signo nascer
É muito gentil do corpo,
Muito guloso em comer,
Bisonho gosta de viagem
Não faz o que prometer

           42

Em março governa Aires
Nesse signo nascerão
Homens nem pobres nem ricos
Por nada se zangarão,
Neles se nota um defeito
Falando sós andarão

           43

Em abril governa Tauro
Um signo bem conhecido,
O homem que nascer nele
Será muito presumido
Altivo de coração
Será rico e atrevido.

           44

Geminis governa em maio
Sua qualidade é quente,
O homem que nascer nele
Será fraco e diligente
Para os palácios e cortes
Se inclina constantemente

           45

Em junho governa Câncer,
Sua qualidade é fria,
O homem que nascer nele
É forte e tem energia;
É gentil tem muita força
E sempre tem alegria.

           46

Em julho governa Léo
Por um leão furado
O homem que nascer nele
Será calvo e muito honrado
Altivo de coração
Inteligente e letrado.

           47

Em agosto reina Virgo
Tem de terra a natureza
O homem que nascer nele
Aos princípios tem riqueza
Depois se descuidará
Por isso cai em pobreza

           48

Em setembro reina Libra
A Vênus assinalado
O homem que nascer nele
Será um pouco enclinado
A viajar pelo mar,
É lutador e honrado