História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/III/IV

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro terceiro: da história do Brasil do tempo que o governou Tomé de Souza até a vinda do governador Manuel Teles Barreto, Capítulo IV: De uma nau da Índia, que arribou a esta Bahia no tempo do governador D. Duarte da Costa


No segundo ano do governador d. Duarte da Costa, que foi o do Senhor de mil quinhentos cinqüenta e cinco, em o mês de maio, arribou a esta Bahia, por falta de água, a nau São Paulo, que ia para a Índia em companhia de outras quatro, das quais todas ia por capitão-mor d. João de Menezes de Sequeira, e por capitão desta arribada Antônio Fernandes, que era senhor dela; vinham nesta nau muitos doentes, os quais o governador mandou recolher no hospital, e aos sãos ordenou darem-lhes mesa cinco meses que aqui estiveram, por se tomar parecer entre os oficiais da nau, e outros da terra / presente o governador, e d. Antônio de Noronha, o catarraz, que ia servir à capitania de Diu / e assentaram todos que, se partisse em outubro poderia passar à Índia, como aconteceu, e em menos de quatro meses chegou a Cochim, onde ainda achou a nau Capitânia, de que era capitão d. João de Menezes, e o dia seguinte deu a vela para Goa muito contente por levar novas daquela nau, que já se tinha por perdida, ainda que mui descontente com outras que levava da morte do ínclito infante d. Luiz, duque de Beja, e Condestable de Portugal, senhor de Serpa, Moura, Cavilhão, e Almada, e governador do priorado de Crato, que faleceu este ano de mil quinhentos cinqüenta e cinco, o qual, entre outras muitas virtudes, e excelências, de que foi adornado, principalmente teve duas, zelo da religião cristã e ciência da arte militar, e ainda que em seu tempo se moveram poucas guerras, em que ele se pudesse achar, sabendo que o imperador Carlos Quinto, seu cunhado, passava a África, se foi para ele sem licença alguma, nem companhia, por saber que o havia el-rei seu irmão de negar, como já em outras ocasiões o havia feito, ao que todavia el-rei acudiu logo dando licença a alguns fidalgos, que o seguissem, e mandando a uma armada sua, que já lá estava, lhe obedecesse, de que era capitão Antônio de Saldanha, e para todo o dinheiro que gastasse lhe mandou grande crédito, e por esta via se achou com formosa cavalaria de nobreza de seu reino acompanhado, em ajuda do invictíssimo imperador na conquista da Goleta, e de Tunes, que por seu conselho se conquistou contra o parecer de muitos capitães mais antigos, experimentados, que o contrário diziam.

Mas o nosso infante, não podendo sofrer que no exército onde ele se achava se enxergasse ponto algum de covardia, tanto insistiu neste seu parecer que o imperador deixou de levantar o cerco, como determinava pelo conselho dos outros, e o mandou prosseguir como o infante dizia, o qual militando debaixo da bandeira do imperador, se mostrou soldado digno de tal capitão, e ele se havia por bem-afortunado da milícia de tal soldado, parecendo-lhe que no Conselho tinha um Nestor, e no Exército um Achiles; era aos estrangeiros benigno, aos naturais afável, e com todos geralmente liberalíssimo, pelo que de todos era amado, e de todos louvado.

Nunca casou nem teve filhos, mais que um natural, que foi o senhor d. Antônio, o qual, por não ser legítimo, não foi rei de Portugal, posto que em algumas partes do reino chegou a ser levantado por rei.

Também este mesmo ano de mil quinhentos cinqüenta e cinco se recolheu o imperador Carlos Quinto à religião no Convento de S. Jerônimo de Juste, por ser lugar sadio, e acomodado a quem larga o governo, e inquietações do mundo, que ele deixou ao muito católico príncipe d. Felipe seu filho.