História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/V/XV

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro quinto: da história do Brasil do tempo que o governou Gaspar de Souza até a vinda do governador Diogo Luiz de Oliveira, Capítulo XXIII: De como o governador Diogo de Mendonça foi preso dos holandeses, e o seu coronel d. João Vandort ficou governando a cidade


O governador vendo que a gente era toda fugida, ainda que não faltou quem lhe dissesse que fizesse o mesmo, respondeu que nunca lhe estava bem dizer-se dele que fugira, e antes se poria o fogo, e se abrasaria, e vendo passar dois religiosos nossos pela praça os chamou, e confessando-se com um deles se recolheu dentro de sua casa só com seu filho Antônio de Mendonça, Lourenço de Brito, o sargento-mor Francisco de Almeida de Brito, e Pero Casqueiro da Rocha.

Pela manhã chegaram os holandeses à porta da cidade, e a outras entradas, que ficam daquela parte de S. Bento, onde se haviam alojado de noite, e não achando quem lho contradissesse, entraram, e tomaram dela posse pacífica, subiram alguns à casa do governador, que neste tempo quis pôr fogo a uns barris de pólvora para abrasar-se, se Pero Casqueiro lhe não tirara o morrão da mão, e vendo-os entrar levou da espada, e remeteu a eles, mas enfim o prenderam, e aos que com ele estavam, e os repartiram pelas naus.

Daí a dois dias chegou o coronel d. João Vandort, que como dissemos no capítulo passado não havia entrado com os mais, e começou a governar as coisas da terra, porque o general, que era um homem velho chamado Jacob Vilguis, nunca, ou rarissimamente saiu da nau: o coronel era homem pacífico, e se mostrava pesaroso do dano feito aos portugueses, e desejoso da sua paz e amizade, e assim aos que quiseram tornar passou passaportes, e lhes mandou dar quanto quiseram, não sem os seus lho estranharem, porque segundo o princípio que levava lhe houveram de levar tudo; porém a não serem os portugueses tão firmes na fé da Santa Igreja Católica Romana, e tão leais aos seus reis como são, não lhes fizera menos guerra com estas dádivas, sujeitando os ânimos dos que as recebiam, do que os seus a faziam por outra parte com as armas, tomando quanto podiam pelas roças circunvizinhas da cidade, e isto com tanto atrevimento como se foram senhores de tudo, e assim se atreveram só três ou quatro a ir ao tanque dos padres da companhia, que dista da cidade um terço de légua, e em sua presença falando-lhes um deles latim, e dizendo-lhes: «Quid existimabatis quando vidisti classem nostram»; fazendo dos calções alforjes, e enchendo-os de prata da igreja, e de outra que ali acharam, os puseram aos ombros, e se foram mui contentes; porém quatro negros dos padres, que não tinham tanta paciência, os foram aguardar ao caminho com seus arcos e flechas, e matando o latino, fizeram fugir os outros, e largar a prata que levavam.

Da mesma maneira foram onde a várzea de Tapuípe, que dista pouco mais de meia légua, e mataram uma vaca, mas estando esfolando-a deu sobre eles Francisco de Castro, George de Aguiar, e outros cinco homens brancos, e doze índios, e mataram cinco dos holandeses, e logo chegou também Manuel Gonçalves, e seguindo os outros que fugiam matou quatro, e feriu dois feridos, que levaram a nova, deixando a vaca morta e esfolada aos índios, que a comeram, e as suas armas aos nossos soldados.

Nem só andavam os holandeses insolentes por estes caminhos, mas muito mais os negros, que se meteram com eles, entre os quais houve um escravo de um serralheiro que prendeu seu senhor na roça de Pero Garcia, onde se havia acolhido, e depois de o esbofetear, dizendo-lhe que já não era seu senhor, senão seu escravo, não contente só com isto lhe cortou a cabeça, ajudado de outros negros, e de quatro holandeses, e a levou ao coronel, o qual lhe deu duas patacas, e o mandou logo enforcar, que quem fizera aquilo a seu senhor, também o faria a ele se pudesse.

Melhor o fez outro negro, que nos servia na horta, chamado Bastião, o qual também se meteu com os holandeses, mas porque lhe quiseram tomar um facão, que levava na cinta, e o ameaçaram que o enforcariam, se saiu da cidade com outros dois ou três negros, os quais encontraram à fonte nova, que é logo a saída, seis holandeses, que lhe começaram a buscar as algibeiras, mas como o Bastião levava ainda o seu facão, temendo-se que se lho vissem o quereriam outra vez enforcar, o escondeu no peito de um, e matando-o lançou a correr pelo caminho, que vai para o rio Vermelho, onde encontrou uns criados de Antônio Cardoso de Barros, os quais informados do caso fingiram também que fugiam com o negro, e se foram todos embrenhar adiante, donde depois que os holandeses passaram lhes saíram nas costas, e os foram levando até um lameiro, e atoleiro, onde mataram quatro, e cativaram um, e será bem saber-se para glória dos valentes, que o era tanto um dos mortos homem já velho, que metido no atoleiro quase até a cinta ali aguardava as flechas tão destramente com a espada, que todas as desviava, e cortava no ar, o que visto por Bastião se meteu também no lodo, e lhe deu com um pau nos braços, atormentando-lhos de modo que não pôde mais manear a espada.