História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/V/XXI

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro quinto: da história do Brasil do tempo que o governou Gaspar de Souza até a vinda do governador Diogo Luiz de Oliveira, Capítulo XXIX: De como Mathias de Albuquerque, depois que recebeu a provisão do governo, tratou do socorro da Bahia, e fortificação de Pernambuco, onde deteve a Francisco Coelho de Carvalho, governador do Maranhão


Recebida por Mathias de Albuquerque em Pernambuco a provisão do governo do Brasil na vagante de Diogo Mendonça Furtado, fez logo uma junta dos oficiais da Câmera, capitães, prelados da religião, e outras pessoas qualificadas sobre se viria em pessoa socorrer a Bahia, o que por todos lhe foi contradito; assim porque não bastaria o socorro, que de lá podia trazer para recuperá-la, como pelo perigo em que deixava estoutra capitania, de cuja fortificação e defensa se devia também tratar, pois viam arder as barbas dos seus vizinhos, com a qual resolução mandou Antônio de Moraes, que de cá havia ido, e achado no caminho um grande pedaço de âmbar, tornasse por terra com socorro de alguns soldados com suas armas, e munições, fazendo também tornar outros, que encontrasse pelo caminho, e assim chegou ao arraial uma boa companhia.

O governador se ficou fortificando na vila de Olinda com muita diligência, cercando toda a praia, e pondo nela soldados com seus capitães nas estâncias necessárias, como também fez no rio Tapado um terço de légua da vila, e o Pau Amarelo, que dista dela três léguas, e é porto onde podem entrar lanchas, e patachos; e porque o do Recife é o principal onde estão os nossos navios, e duas fortalezas, que são as chaves de todo o Pernambuco, pediu a Francisco Coelho de Carvalho, governador do Maranhão, que pouco havia ali chegara do reino, não quisesse em aquela ocasião seguir sua viagem para o Maranhão, encarregando-lhe o dito porto e povo do Recife, e o governo dele, sobre o qual ambos escreveram a. Sua Majestade que se houvesse disso por bem servido, e por esta causa se ficou ali Francisco Coelho de Carvalho com três companhias de soldados, que do reino levava, e juntamente com ele seu filho Feliciano Coelho de Carvalho, Manuel Soares, seu sargento-mor, Jacome de Reimonde, provedor-mor da fazenda do Maranhão, e Manuel de Souza Deça, capitão-mor do Pará, e mandou só um barco ao Maranhão com alguns velhos, e mulheres, no qual se embarcou nosso irmão frei Cristóvão Severim, que ia por custódio com 15 frades, que trazia da província, e cinco que se lhe ajuntaram desta custódia do Brasil, a quem também o administrador de Pernambuco, que então era o dr. Bartolomeu Ferreira, deu poderes de vigário-geral, e provisor, como os trazia do Santo Ofício para rever e qualificar os livros, o que tudo era mui necessário naquelas partes.

Partiram do Recife a 12 de julho de 1624, e aportaram aos dezoito do mês na enseada de Mocaripe, três léguas do Ceará, donde os veio buscar o capitão-mor Martim Soares Moreno para o forte, em que se detiveram 15 dias, sacramentando os brancos, e doutrinando os índios de duas aldeias, que ali estavam, com os quais o custódio deixou dois religiosos, por requerimento, que o capitão lhe fez, para quietação dos índios, que com esperanças de alcançá-los os haviam até ali sustentado.

Os mais chegaram ao Maranhão em seis de agosto, onde começaram a edificar uma casa, e igreja de taipa, em que se disse a primeira missa no ano seguinte dia de Nossa Senhora das Candeias, ajudando Deus a obra como sua com algumas maravilhas, e milagres notáveis; um foi que dizendo os pedreiros que para se rebocarem as paredes eram necessárias 60 pipas de cal, e não havendo mais que 25 com elas se rebocaram, e sobejaram ainda 17 pipas, não sem grande admiração dos oficiais, que com juramento afirmaram era milagre.

Outro foi que trazendo-se para a obra em um carro uma mui grande e pesada trave, caiu o carreiro que ia diante, e passando a roda do carro por cima dele com todo aquele peso, não lhe fez dano algum, mas logo se levantou são, e prosseguiu sua carreira, ficando-lhe só o sinal da roda impresso no peito por onde passou para prova do milagre.

Nem trabalhou menos o padre custódio no edifício espiritual das almas, que na visita achou estragadas, e na conversão dos índios. O mesmo fez no Pará, onde reduziu a paz dos portugueses os gentios Tocantins, que escandalizados de agravos, que lhe haviam feito, estavam quase rebelados, e levou consigo os filhos dos principais para os doutrinar, e domesticar, proibiu com excomunhão venderem-se os índios forros, como faziam, dizendo que só lhe vendiam o serviço.

Queimou muitos livros, que achou dos franceses hereges, e muitas cartas de tocar, e orações supersticiosas, de que muitos usavam, apartou os amancebados das concubinas, e fez outras muitas obras do serviço de Nosso Senhor, e bem das almas, não sem muito trabalho, e perseguições, que por isto padeceu, sabendo que são bem-aventurados os que padecem pela justiça.