História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/V/XXXVI

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro quinto: da história do Brasil do tempo que o governou Gaspar de Souza até a vinda do governador Diogo Luiz de Oliveira, Capítulo XLIV: Da guerra que o governador Mathias de Albuquerque mandou dar ao gentio da Serra da Copaoba, que se rebelou na ocasião dos holandeses


Não só o gentio da beira-mar se rebelou nesta ocasião dos holandeses contra os portugueses, mas também os do sertão e serra de Copaoba, e a esta conta mataram logo 18 vizinhos seus, e lhes cativaram seis filhas moças donzelas, e alguns meninos; pelo que o capitão-mor da Paraíba, Afonso de Franca, tanto que Francisco Coelho se partiu, mandou a capitão Antônio Lopes de Oliveira, e à sua ardem os capitães Antônio de Valadares e João Afonso Pinheiro com muita gente branca, e o padre Gaspar da Cruz com os índios Tabajaras, nossos amigos, e inimigos antigos dos Potiguares rebelados, para que lhes fossem fazer guerra, e os castigassem como mereciam: os quais os não acharam já na serra, porque pressentindo isto / coisa mui natural nos que se sentem culpados /, pondo fogo às aldeias e igrejas, que nelas tinham,/ porque já muitos haviam recebido o Sacramento do Batismo /, se haviam ido meter com os Tapuias, dali mais de 100 léguas, para que os ajudassem, e defendessem dos portugueses, levando-lhe de presente as donzelas e meninos, que haviam tomado na Paraíba, do que tudo informado o governador Mathias de Albuquerque, mandou suster na jornada Antônio Lopes de Oliveira, e os mais capitães que iam da Paraíba, até se informar melhor do caso, e tomar conselho sobre a justiça da guerra; para o que fez ajuntar em sua casa os prelados das religiões, teólogos, e outros letrados, canonistas e legistas, e concluindo-se entre eles ser a causa da guerra justa, e pelo conseguinte os que fossem nela tomados escravos, que são no Brasil os despojos dos soldados, e ainda o soldo, porque o gentio não possui outros bens, nem os que vão a estas guerras recebem outro soldo.

Logo o governador mandou os capitães Simão Fernandes Jacome e Gomes de Abreu Soares, e por cabo deles Gregório Lopes de Abreu, com suas companhias; os quais chegando a Paraíba, e informados de Antônio Lopes de Oliveira do lugar para onde o gentio tinha fugido, mandaram os mantimentos, e alguma gente até o Rio Grande por mar, e se partiram por terra para daí levarem outra companhia, que por mandado do governador geral lhe deu o capitão Francisco Gomes de Mello, e foi por capitão dela Pero Vaz Pinto a ordem também de Gregório Lopes de Abreu, os quais começaram todos a marchar pelo sertão, onde padeceram grandes fomes, e sedes, e aconteceu andarem três dias sem acharem água para beber, pelo que desesperados de todo o remédio humano, e esperando só nos merecimentos e intercessão do bem-aventurado Santo Antônio, cuja imagem levavam consigo, o começaram a invocar uma tarde, e cavar na terra seca pedindo que lhes desse água, e foi coisa maravilhosa, que a poucas enxadadas saiu em tanta quantidade, que todos os do alojamento muito se abastaram aquela noite, e o dia seguinte, enchendo suas vasilhas para caminharem, a água se secou.

Dali a três jornadas deram com uns poucos dos índios, e os tomaram para lhes servirem de guias, posto que fugiu um, que levou aviso aos mais; pelo que quando chegaram os nossos os acharam já postos em arma; mas nem isso bastou, para que os não cometessem com tanto ímpeto, e ânimo, que lhes mataram muitos, não perdoando os nossos Tabajaras a mulheres nem meninos, pela vontade que levavam aos rebeldes, o que visto pelos Tapuias, depois de haverem sustentado a briga dois dias, mandaram perguntar a Gregório Lopes, cabo das nossas companhias, que vinda fora aquela às suas terras, donde nunca foram brancos a fazer-lhes guerra, não lhes tendo eles dado causa a ela? O qual respondeu que não o haviam com eles, senão enquanto eram fautores e defensores dos Potiguares, que se haviam rebelado contra o seu rei, havendo-lhe prometido vassalagem, e se haviam confederado com os holandeses, e morto os portugueses seus vizinhos contra as pazes, que tinham celebradas, e assim se desenganassem que, senão, iria sem os levar cativos ao governador, ou lhes custaria a vida, com o qual desengano lhe trouxe o principal dos Tapuias, dois principais dos rebeldes, chamado um Cipoúna, e outro Tiquaruçu, para que tratassem de pazes, e concerto, como trataram; e em resolução foi que se queriam entregar com toda a sua gente da serra de Copaoba ao governador, para que dispusesse deles como lhe parecesse justiça, dando-lhe para isto um mês de espera; o que o capitão Gregório Lopes aceitou pela necessidade em que os seus estavam de mantimento, trazendo logo consigo muitos dos filhos em reféns, e as moças brancas, e meninos, que tinham presos.

Nem este concerto aceitou, e fez com o principal Tiquaruçu, que era mais culpado, antes o mandou matar logo em presença de todos às cutiladas. Não com Cipoúna, o qual cumpriu depois à risca, trazendo toda a sua gente, no tempo que ficou, para que o governador dispusesse dela à sua vontade, e o governador, sem tomar nenhum por si, cometeu ao desembargador João de Sousa Cardines que os repartisse pelos soldados e outros moradores, para que os servissem em pena de sua culpa, e rebelião, mas muitos se acolheram a sagrado das doutrinas dos padres da companhia, onde foram bem acolhidos, porque ali se doutrinam, e conservam melhor, que nas casas dos seculares, como já outras vezes tenho dito.

NB. Este capítulo quadragésimo quarto foi copiado desta História do Brasil por frei Vicente do Salvador; porém o capítulo quadragésimo quarto que está nas adições e emendas a esta História é o que se segue.