História do Brasil (Frei Vicente do Salvador)/V/XXXVIII

História do Brasil por Frei Vicente do Salvador
Livro quinto: da história do Brasil do tempo que o governou Gaspar de Souza até a vinda do governador Diogo Luiz de Oliveira, Capítulo XLVII: Do sucesso da nossa armada para o reino, e dos holandeses para a sua terra


Com tormenta partiu a nossa armada da Bahia, pelo que logo abriu muita água um galeão de Espanha, e lhe foi forçado tornar para dentro, para depois de tomada ir em companhia de outro que também, por se não poder concertar a tempo, não foi com a armada, à qual depois de partir sobreveio outra tormenta, tão grande, que não pôde tomar Pernambuco, onde a estavam esperando com muito alvoroço, não já para pelejar com a holandesa, que era ida, senão para regalarem a Sua Excelência, e mais senhores, para cujo recebimento tinham ordenadas muitas festas, especialmente sentiram não poder ver o senhor da terra Duarte de Albuquerque Coelho, e não devia ele de senti-lo menos, pois padecia a pena de Tântalo, não podendo gozar do que apetecia, e via, nem a vinda para a Bahia, nem a ida. Daqui começaram logo os navios a apartar-se, cada um para onde a força da tempestade o levava, e muito mais depois que lhes sobrevieram outras na altura das ilhas, com que se perdeu a almeiranta de Portugal na ilha de S. Jorge, mas salvou-se o almirante d. Francisco de Almeida, e os que com ele iam, com muito trabalho, e darem continuamente à bomba, sem comer, porque a matalotagem apodreceu com a água, donde depois na mesma ilha adoeceram, e morreram muitos, e entre eles d. Antônio de Castelo Branco, senhor de Pombeiro, que Nosso Senhor tenha em sua glória, como confio em sua divina Misericórdia, e pelo que sei dele no tempo que esteve nesta Bahia, que se confessava, e comungava cada semana, ouvia todos os dias missa, junto com ser muito esmoler, e outras virtudes, que como pedras preciosas, engastadas em fino ouro de sua nobreza, davam de si muito lustre.

O galeão em que ia d. Afonso de Alencastre, por fazer muita água, e não a poderem tomar, tomaram a gente em outro, e o mais que puderam, e puseram-lhe fogo. Constantino de Mello, e Diogo Varejão encontraram seis navios holandeses, com quem pelejaram, e sendo rendida a nau do Varejão, ficou só o Mello na sua naveta continuando a briga com tanto valor, que já o deixavam, se não sobrevieram três naus de estado, a que também resistiu, mas enfim o tomaram, e levaram a Holanda, roubando-lhe quanto levava, senão a fama do capitão, que foram publicando, e é bem se publique por todo o mundo.

D. Manuel de Menezes, general da armada de Portugal, chegou à Lisboa a 14 de outubro, havendo brigado na paragem da ilha de S. Miguel com dois galeões de holandeses, que iam de mina carregados, o qual depois de ter feito amainar um o deixou ao galeão Sant’Anna das Quatro Vilas, que ia na sua esteira, no qual ia o mestre de campo d. João de Orelhana, e se foi em seguimento do outro, que lhe ia fugindo, e porventura o tomara, segundo a sua nau era forte, e ligeira, se não fora necessário tornar atrás acudir ao galeão Sant’Anna, que ardia; porque havendo abordado e rendido o dos holandeses, e passados já muitos ao nosso, tirado alguns, que se não quiseram sair, não sei se por estes, ou se acaso se pegou fogo ao seu, e in continenti dele ao nosso, com que se abrasaram ambos, sem se salvar mais que 148 pessoas, que se lançaram a nadar, a que d. Manuel acudiu quando viu o fogo, deixando o galeão, que ia fugindo, e largando-lhes a fragata, cabos, jangadas, tábuas, e outras coisas, de que se pudessem valer, os livrou do perigo da água, morrendo todos os mais abrasados com o mestre de campo d. João de Orelhana, d. Antônio de Luna de Menezes, e outros muitos.

D. Fadrique de Toledo com grande parte da armada derrotou com o rigor do tempo avante do estreito ao porto de Málaga, e fazendo dali alguns fidalgos sua jornada a Portugal souberam de um correio de Sua Majestade junto a Sevilha ser aportado a Cadiz uma armada inglesa de 130 velas, per onde logo voltaram desandando o caminho, que já tinham andado, julgando ser aquele o mais próprio de quem eles eram, que o que depois de tão larga jornada levavam a suas casas: eram os que fizeram esta volta João da Silva Tello, d. Duarte de Menezes, conde de Tarouca, Francisco de Mello de Castro, d. Lopo da Cunha, senhor de Santar, d. Francisco Luiz de Faro, filho do conde d. Estevão de Faro, Antônio Taveira de Avelar, e d. Nuno Mascarenhas. Levaram seu caminho de Sevilha a Xeres onde o duque de Medina Sidônia, neto de Rui Gomes da Silva, pelo que tinha de português, lhes fez singulares demonstrações de agasalho, e estimação, que valia tão primoroso valor.

Trataram logo do fim da sua vinda, que era meterem-se em Cadiz, para que a ajudassem a defender, pedindo ao duque uma galé para nela passarem, e pelas dificuldades, que o duque representou, não puderam então levar avante esta sua deliberação, e assim se foram à defensão da ponte de Suasso, onde assistiam quatro mil homens, mas chegando depois recado de Cadiz de d. Fernando Girão, para que de noite lhe metessem na cidade trezentos homens escolhidos, foram os fidalgos os primeiros, que na vanguarda com seus piques partiram a este socorro, caminhando três léguas a pé, com chuva, e água em muitas partes pelos joelhos, até entrarem na cidade às 11 horas da noite, onde d. Fernando Girão os foi buscar a suas pousadas, significando com palavras, e com abraços, que sentiria muito fazer o inimigo leva da sua armada, pois com o favor de tais cavaleiros podia esperar desbaratá-lo. Em Cadiz assistiram como valorosos a todo o trabalho e perigo militar até o inimigo se ir. Não mereceram menos estimação d. Afonso de Noronha, Antônio Moniz Barreto, Henrique Henriques, e d. Afonso de Alencastre, porque ainda que quando chegaram a Cadiz estavam já os inimigos retirados, dizem os teólogos que a vontade eficaz é equivalente à obra, se não pode pôr-se em efeito, e por tal a estimou Sua Majestade, escrevendo ao Conselho que porque estava informado do valor com que os portugueses o serviram nesta ocasião, e que para morrer por seu serviço lhes não faltava vontade, e sobejava o ânimo, mandava que a cada um se desse o que tivesse da Coroa para filhos ou herdeiros, e lhes fizessem todas as mais mercês, que ele por outro decreto seu tinha concedido aos que morressem nesta empresa da Bahia, sem ser necessário a nenhum fazer sobre isto mais diligências. O teor da carta é o seguinte:

«Governadores amigos. Eu el-rei, vos envio muito saudar, como aqueles que amo. Havendo-se entendido o que os fidalgos portugueses, que foram cobrar a Baía de Todos os Santos, tem servido, e desejando que conheçam quão agradável me foi seu serviço, e quão satisfeito me acho de suas pessoas, rei por bem, em primeiro lugar, que se executem as mercês gerais, que fiz para os que morressem nesta jornada nos filhos de Martim Afonso de Oliveira, e que se me consulta em que outra poderia eu mostrar-lhes meu agradecimento, e sentimento da morte de seu pai, por ser tão honrado fidalgo, e tão zeloso do meu serviço, não reparando para o fazer em nenhum particular seu, ficando, se pode ser, tão satisfeito do seu modo de servir, como de seus mesmos serviços. E aos mais fidalgos me pareceu se lhes declarem, e dêem por feitas todas aquelas mercês, que se lhes fizeram pelo caso que morressem na jornada, pois da sua parte não lhes ficou mais que fazer. Desejando eu infinito que saibam os que me servem que gratifico o ânimo de fazê-lo, como a mesma obra, e que não hão mister mais solicitação, negociação, recordo, nem passos, que dados em meu serviço, e por esta razão sem consulta nenhuma o quis resolver assim. Escrita em Madri a 18 de setembro de 1625. Rei.”

Não se poderá ver maior demonstração do amor de Sua Majestade à Coroa de Portugal; pois sem consulta do estado, só pela do amor, foi servido de seu moto próprio formar um real decreto tão favorável a esta Coroa. Nem menos grato se mostrou aos que vieram pela Coroa de Castela, fazendo a uns e outros grandes mercês; mas muito maiores as recebeu de Deus este mesmo ano, que foi o de mil seiscentos e vinte e cinco, e bem parece que era o do Jubileu geral, em que o vigário de Cristo em Roma tão liberalmente abre, e comunica aos fiéis o tesouro da igreja.

Daquela armada inglesa tão poderosa, da qual livrou também tão milagrosamente a frota das Índias, que aquele ano trazia dezessete milhões em ouro, prata, e frutos da terra, e o milagre foi, que tanto que os ingleses aportaram em Cadiz, mandou Sua Majestade despachar seis caravelas com grandes prêmios à frota, para que fosse aportar a Lisboa ou Galiza por não ser presa dos inimigos. Caiu uma das caravelas nas mãos dos ingleses, os quais tendo por certo que esperando a frota em quarenta graus se fariam senhores dela, partiram logo de Cadiz a pôr-se naquela altura; mas foi Deus servido que nenhuma caravela das nossas acertou com a frota, e assim veio direita a Cadiz vinte dias depois da inglesa a estar esperando na paragem por onde houveram de vir se lhe deram o recado de Sua Majestade; pelo que reconhecido el-rei de tão grande mercê, deu graças a Nosso Senhor, e muito mais depois que soube ser quase toda a armada inimiga com tempestades, e tormentas, de sorte que a menor parte dela tornou à sua terra. Em Flandres foi tomada aos hereges a poderosa cidade de Buda. No Brasil recuperada de outros a Bahia, que o ano dantes a tinham ocupada. Mas que havia de ser, se neste ano foi celebrada a canonização de Santa Isabel Rainha de Portugal, natural do reino de Aragão, por cuja intercessão e merecimentos podemos crer que fez, e fará Deus muitas mercês a estes reinos.

Também padeceram grandes tormentas no mar os holandeses, que foram da Bahia, ainda que levavam os navios mais descarregados, que é um bem só nas tormentas conhecido; e não foi menor a que padeceram em terra depois que chegaram à Holanda, porque logo foram todos presos pelos seus, e sentenciados à morte por se haverem entregues a partido tão cedo com a cidade, e o mais que tinham, e haviam ganhado na Bahia, sem esperarem pela sua armada do socorro, ao que acudiram as mulheres, filhos, e parentes com embargos, alegando que não fora possível deixarem de se entregarem, ou morrerem todos, pela muita tardança do seu socorro, e grande aperto em que os nossos os tinham postos: e outras coisas, pelas quais enfim os soltaram, e lhes concederam as vidas, condenando-os somente em que se lhes não pagassem os soldos, que se lhes devia.

Os outros que haviam vindo de socorro, se foram da baía da Traição a Porto Rico, que é em Índias de Castela, onde achando a gente descuidada desembarcaram, e saquearam o lugar, depois acudiu o capitão da fortaleza da barra, que por ser estreita e como porta daquele porto, lho cerrou de modo que não puderam sair como entraram, antes se viram em tanto aperto, que já de concerto largaram quanto tinham roubado, e ainda alguma coisa do seu, porque os deixassem sair, o que o capitão lhes não quis conceder, assim por entender que os tinha vencidos, como por recear que el-rei lho estranhasse, e em ambas as coisas se enganou, porque os inimigos estavam mui fortes em suas naus, com tudo quanto saqueado, ensacado, e metido dentro nelas, esperando só uma noite escura de tormenta, e vento, que lhes servisse para saírem, como lhes sucedeu em uma em que saíram, e se foram, sem lho poderem impedir nem fazer-lhes algum dano, mais que em uma não velha, que puseram por... (sic), e Sua Majestade mandou cortar a cabeça ao capitão da fortaleza, e não por aceitar o concerto, que lhe cometiam os holandeses, no que ele só cuidava que estava toda a culpa.

N. B — Nas adições e emendas vem este capítulo, porém onde no fim dele diz: “e Sua Majestade mandou cortar a cabeça ao capitão da fortaleza, e não por aceitar o concerto, que lhe cometiam os holandeses, no que ele só cuidava que estava toda a culpa.» nas emendas só diz o seguinte: “E Sua Majestade não se houve por tão bem servido do capitão da fortaleza como ele imaginou.”