Histórias de Niterói

Histórias de Niterói
por Lima Barreto
Crônica publicada em Vida Urbana


Aquela Cantareira da antiga Praia Grande é a companhia de navegação e de viação mais fantástica que se pode imaginar.

Há poucos anos, tencionando dar um simples passeio na outra banda da Guanabara, tomei uma das suas tartarugas e quase fui parar em Montevidéo ou Buenos Aires. Não só eu, como os demais passageiros.

Eram sete horas da tarde, em junho, portanto, noite fechada. Chuviscava. Tomei no Largo do Paço a Terceira - que, como as demais outras companheiras, só merecia uma numeração - Última.

Todas elas são o que há de mais "último" em ordinário e imprestável.

Tomei a barca, apesar do tempo; e, a bem dizer, por causa do tempo, porquanto queria apreciar a chuva no mar.

A barca moveu-se vagarosamente e parecia que as coisas corriam placidamente, quando, de súbito, ela parou no meio da baía. Que foi? Que não foi? Os poucos passageiros encheram-se de susto; a chuva e o vento recrudesceram vio­lentamente.

Não se via um palmo adiante da proa da barca.

O que houve? A caldeira ameaçava arrebentar e o ma­quinista julgou de bom alvitre descarregar todo o vapor. Des­sa forma, nem apitar se podia.

Alguns passageiros lembraram fazer uma gritaria. Todos se puseram a gritar como loucos; em breve, estavam todos exaustos. A barca derivava mansamente em direção à barra.

Era no tempo da nossa guerra branca e por isso foi lembrado o perigo das minas.

A barca perigava... Chovia, ventava e a noite estava escura como breu.

Os passageiros já tinham descansado as gargantas e iam de novo fazer gritaria; mas, mr Sharp, pastor protestante da seita dos Adventistas, julgou que era melhor entoar um sal­mo em uníssono.

Ninguém sabia esse salmo. Então, o senhor Silva Sousa, doutor em medicina, bacharel em ciências fisicas e matemá­ticas, advogado formado, cirurgião-dentista, farmacêutico, nor­malista diplomado pela Escola Normal de Campos e mem­bro da Academia de Letras de Cubango (Niterói), propôs que se cantasse uma canção de sua lavra que devia fazer parte de uma revista de sua autoria, a ser levada em breve num cinema da capital Fluminense.

Foi aceito o alvitre e cantarolava-se uma coisa alegre enquanto a barca derivava em pleno oceano.

De repente, um jorro de luz inundou toda a barca. Era o holofote da fortaleza de Copacabana; logo em seguida, um tiro e um "melão" passou de raspão pela barca.

Certamente, os da fortaleza tinham tomado a barca por um couraçado alemão.

Não conto todas as peripécias, para não me tornar fastidioso. Para encurtar razões, direi somente aos senhores que fomos salvos já no litoral de São Paulo, depois de dois dias, por um navio suíço que passava na ocasião.

Não ficam só nisso, as proezas da Cantareira. Muitas outras ela tem realizado.

Ainda há dias, tanto perseguiu os seus bondes, negando-lhes tratamento e descanso, que os pobrezinhos endoideceram nas vias públicas de Niterói.

Suponho que os leitores tiveram notícia daqueles bondes que, sem tir-te nem guar-te, em plena cidade vizinha, deram o desespero, cuspiram na via pública motorneiros e passagei­ros; e até um deles veio em disparada pela cidade afora para só suspender a sua furiosa carreira, na ponte das barcas, envolvido em labaredas.

Tem-se visto muita coisa de pasmar; mas um bonde en­louquecer desse modo, só a Cantareira podia conseguir.

Careta, Rio, 1-11-1919.