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Idílios matinais
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


                                                                     ... sunt numina amanti...

                                                   Tibullo — Elegia

I – Em Baixo

Vem. — Entremos por estas alamedas,
Onde a aurora amolece a treva a custo:
Leva-te o corpo um furacão de sedas,
Que vão cantando e zombam do teu susto.
 
Sim!... teu palor — é cedo, há frio — é justo.
O mais... Vê bem: as árvores ´stão quedas,
Só as aves, que saltam das veredas,
Dão um gesto ardiloso a cada arbusto.

Daqui a instante, ali na volta, um manto
De luz verás cobrir o sonorento
Rio, a artística ponte, o espaço; a um canto,
 
À esquerda, ao sol, num seixo, inculto assento
Terás, enquanto o ar te aroma, enquanto
Rola em teus olhos rindo o firmamento!...

II – Em Cima

Olha além, para cima do penedo:
Vês a linha que vai fazendo o fumo,
Nodoando a luz, riscando o ambiente a prumo?
Saibamos quem madruga ali tão cedo.
 
Ora!... não digas não... não tenhas medo;
Pelas pisadas acharemos rumo:
Há qualquer trilho oculto entre o arvoredo...
Vamos subir... subamos, em resumo.
 
Embora traço algum recente o indique,
É irmos: o teu braço ao meu apóia,
Não penses tu que o sol te prejudique;
 
E enquanto eu vou mostrar-te aquela jóia
Feita de palha e quatro paus a pique,
Mostra em ti um retrato em pé de Goya.