Jeca Tatú

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MONTEIRO LOBATO


 
Jeca Tatú


 
VIDA E COSTUMES
 

CONTO BRAZILEIRO

 
Celebrisado pelo
Conselheiro Ruy Barbosa

— 1919 —
IMPRENSA CARVALHO
Rua do Corpo Santo N. 76 e 78—(1º. andar)
BAHIA
 


O balsamico indianismo de Alencar esbora-se pelo iconoclasta advento dos Rondons que, ao enves de imaginarem indios num gabinete, com rentiniscencias de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, mettem-se a palmilhar os sertões de Winchester em punho.

Morreu Pery, incomparavel idealização dum homem natural como o sonhava J. J. Rousseau, prototypo de tantas perfeições humanas que, no romance, em concurso com nobilissimos typos de civilizados, a todos sobreleva em belleza d’alma e corpo. Contrapoz-lhe a cruel ethnologia do sertanista hodierno um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, mortalmente, de amar Cecy.

Por felicidade nossa, e de D. Antonio de Mariz, não os viu Alencar, sonhou-os, como Rosseau; do contrario la teriamos o filho de Araré a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.

A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Perí e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.

Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inubias, tacapes, borés, piagas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais...

Não morreu, todavia. Evoluiu. O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de "caboclismo". O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; a ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxada; o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambú; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito. Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perys e Ubirajaras. Este setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu "Y--Juca Pirama", o seu "Canto do Piaga" e talvez de opera heroica. Completo o cyclo, virão destroçar o inverno em flor da illusao indianista os prosaicos demolidores de idolos, gente má e sem poesia. Os malvados irao esgaravatar o icone, com a cureta da sciencia. E que feias se hao de entrever por elles as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varella! E que chamboes e sornos os perys de calça, camisa e lapeana à cinta!

Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o "Ai Jesus! nacional. E' de ver o orgulho entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: Sou raça de caboclo!

Annos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare. Dia virá em que os veremos, murchos d'orgulho, confessar o verdadeiro avo, um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Thome de Souza um "Satellite" daquelles tempos, nosso mui nobre e fecundo Mayflower.

Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso.

Feia e sorna, nada a põe de pé.

Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito historico e o país desperta estrovinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.

Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uff! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.

A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifica-se ante o inopinado da mudança. Mas o caboclo não dá pela coisa.

Vem Floriano; estouram as granadas de Custódio; Gumercindo bate às portas de Roma; Incitatus derranca o país. O caboclo continua de cócoras, a modorrar...

Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.

Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epitome de carne onde se resumem todas as características da raça. Eil-o que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.

— "Não vê que...

De pé ou assentado as idea sentramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.

De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para "aquental-o", imitado da mulher e da prole. Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostar um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre seguro. Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, e de cocoras, como um fakir do Bhramaputra, que vigia os cachinhos de brejauva ou o feixe de tres palmitos.

Pobre Jeca Tatú! Como és bonito no romance e feio na realidade!

Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca philosofo...

Quando comparece as feiras, todo mundo logo adivinha o que elle traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher — cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jatahys, pinhões, orchidéas; ou artefatos de taquara poca, peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador; ou utensilios de madeira mole — gamellas, pilõesinhos, colheres de páo. Nada mais.

Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço, e nisto vai longe. Começa a applicação da lei da moradia. Sua casa de sapé e lama faz rir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão de barro. Pura biboca de boschimano.

Mobilia, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de pery posta sobre o chão batido. Ás vezes se dá ao luxo de um banquinho de tres pernas — para os hospedes. Tres pernas dão equilibrio; inutil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão.

Para que assentos, se a natureza os dotou de solidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?

Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo, colher, garfo e faca a um tempo?

No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.

Nada de armarios ou bahús. A roupa, guarda-a no corpo. Se tem dois parelhos; um que traz no uso e outro na barrella. Os mantimentos apaiola nos cantos da casa.

Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na extremidade e um disco de lata no alto: ali pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos. Da parede pende a espingarda picapao, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.

Seus remotos avós não gozaram maiores commodidades. Seus netos não meterão quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.

Se pelotas de barro cahem, abrindo setteiras na parede, Jeca não se move a repol-as no logar. Ficam as janellinhas abertas para o resto da vida, a entremostrarem nesgas de céu.

Se a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jeca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamellinha a água gottejante...

Remendos... Para quê? se uma casa dura dez annos e faltam "apenas" cinco para que ele abandonar aquella?

Esta philosofia economiza reparos.

Na mansao de Jeca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldame. A fim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas consequências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela — santo de mascate.

— Por que não remenda essa parede, homem de Deus?

Jeca sorri superiormente.

— Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?

Não obstante, por via das duvidas, quando ronca a trovoada elle abandona a toca e vae agachar-se no oco dum velho embirussú do quintal para se saborear—de longe com a eficácia da escora santa. Um pedaço de pau dispensaria o milagre , mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço não vacila. E' coherente.

Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores — nada revelador de permanencia.

Há mil razoes para isso; porque não é sua a terra; porque se o "tocarem" não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a "creação" come; porque...

— "Mas, criatura, com um vedozinho por ali... A madeira está à mão, o cipó é tanto..."

Jeca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.

— Não paga a pena.

Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.

Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza;basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Nao impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer terra. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. É sem vergonha.

Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudara de vida.

O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia.

Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa.

Ha bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.

Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jeca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.

Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jeca a opulência de um seu vizinho e compadre que "está muito bem."

A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca. Vive num corropio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo, o pae.

A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas inda assim valia dez mil réis mais do que o rocinante zanaga.

Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jeca, para quem, fino como o compadre, "home"... nem mesmo o vigário de Itaoca

Aos domingos vae a villa bifurcado na magreza ventruda da «Serena», e leva appenso a garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.

O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras; entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidaria.

Vota. Não sabe em quem, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama sua graça.

Se ha tumultos, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, a fim de novamente lhe depor nas mãos o "dipeloma". Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de mão e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.

Representa o typo classico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, discolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jeca Tatu.

Jeca por dentro rivaliza com Jeca por fóra. O mobiliario cerebral, a parte o succulento recheio de superstiçoes, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de ideas: sao as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.

O sentimento de patria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vem baianos pernósticos e cocos. Perguntem ao Jeca quem e o presidente da República.

— O homem que manda em nós tudo?

— Sim.

— Pois de certo que há de ser o imperador.

Em matéria de civismo nao sobe de ponto, antes desce.

— Havendo uma guerra voce vae defender o paiz?

— "Guerra? T’esconjuro! Meu pae viveu afundado no mato p'ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. Eu, para escapar do "reculutamento", sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço.

— Guerra, defeza nacional, acção administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – "reculutamento". Quando, em começos da Presidencia ineffavel, andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo "havéra de ser reculutamento", e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.

A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuarios escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não ha rir, porque o epilogo e sempre lugubre.

A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.

Aplica as mezinhas é o "curador", um Eusebio Macario de pé no chão e cérebro trancado como moita de taquaruçú. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.

Doenças hajam que remédios não faltam. Para bronchite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo. Para "quebranto de ossos", já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã; mete-se tudo numa gamela d'água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. E' infallível!

O especifico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.

Para dór de peito que "responde na cacunda", cataplasma de jasmim de cachorro é um porrete, Alem desta alopathia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.

O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jeca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-folio d'alto fôlego ao Silvio Romero bastante operoso que se propuzesse a consolidal-o.

Num parto difícil nada tão eficaz como engulir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de São Benedito.

Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe: a criança morreria pagã.

A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém-nascido.

A posse de certos objetos confere dotes, sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia. Esta planta, conta Jeca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhê-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre, mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.

Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhe as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada anastomose.

Não havendo distinguir onde para uma e começa outra. A idéa de Deus e dos santos torna-se jeco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos. Dahi o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamaçao, muito parente do "Allah Kebir" do beduíno.

E na arte? Nada.

A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escól. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbárie crassa. Os vestuários nacionais da Ukrania nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.

No Samoyeda, no pele-vermelha, no abexim, no papúa, um arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas – como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos. Que nada é isso, sabido como já o homem prehistorico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.

Egresso à regra, Jeca nao denuncia traço remoto dum sentimento nascido com o troglodyta.

Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existencia do mais vago senso esthetico? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do guatambú: é tudo.

Ás vezes surge numa família um genio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Eil-o na viola: concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordas e "tempera". E fica nisso, no tempero.

Dirão: e a modinha?

A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no paiz, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estheticos, borbulha d’envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.

O caboclo é soturno. Não canta senão rezas lugubres. Não dansa senão o batuque aladainhado. Não esculpe o cabo da faca como o Kabyla. Não compõe sua canção, como o fallah do Egypto. Triste como o curiango, nem sequer assobia.

No meio da natureza brasilica, tão rica deformas e cores, onde os ipés floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescencia dos cedros, as primeiras chuvas de setembro, abre a dansa dos tangarás; onde ha abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisiaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupe de páo podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas.

Só elle não fala, não canta, não ri, não ama.

Só elle, no meio de tanta vida, não vive...