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Jornal Pedro II/1133/Correspondência

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Correspondência
por Antônio Rodrigues Ferreira


Sr. redactor. — Agora que me acho com o espirito mais calmo, permitta-me que occupe algum espaço nas columnas do seu periodico para respostar ao brilhante, polido, e comedido artigo que no periodico Cearense publicou o Sr. padre Pompêo contra mim.

Ha muito, Sr. redactor, que eu ouvia dizer que o Sr. Pompêo me votava odio mortal, o que nao podia acreditar, suppondo ser intriga de pessoas que vivem disso, como de seu natural alimento, por isso que nunca houve entre nós mais do que um pequeno jogo de palavras sem significação alguma, e isso mesmo não teria tido lugar, se o Sr. padre Pompêo não me tivesse aggredido, lançando-me um ridiculo, qualidade que dizem ser essencial do seu caracter, pelo que eu em represalia tive a imprudencia de em um pequeno artigo, que fiz publicar chamal-o feio; imprudencia digo, porque criei um inimigo terrivel na pessoa do Sr. padre Pompêo! E agora é que conheço o erro em que cahi; pois que melhor teria acertado, se em outra especie tivesse tocado, visto ser aquella a unica, de que se doe seu amor proprio; sao fraquezas da humanidade, cada um como Deos o fez....

Publicou-se n’esta cidade uma folhinha, á que derao o o nome de Furão, e que nao sei porque somma de rasao entendeu o Sr. Pompêo ser eu seu redactor, ou author d’um artigo, em que aquella folhinha teve a indiscriçao de descrever as qualidades physicas e moraes desse Sr., servindo-se da mesma palavra que eu me havia servido contra elle — FEIO — fatal palavra, que tanto desafiou as iras de S. S contra mim! ...

Isso foi bastante para dar-me a paternidade dessa publicação, e de deitar-se á mim com unhas, e dentes, sem ter em vista a piedade Evangelica, que sempre deve estar possuido um sacerdote, que como S. S tanto impõe de cathegorico! Fui portanto envolvido pela espessa e peçonhenta baba, com que costumava envenenar aquelles, que tem a infelicidade de o desagradar, arremessando sobre mim todo o velho, e sujo armamento de que se compõe o arsenal de sua educação moral.

Quem ouvir a emphase, com que esse Sr. chama a todos os seus adversarios ignorantes, viloes, assassinos, canalha &c. &c. ficará sem duvida persuadido de que é elle incapaz de qualquer fragilidade, a que está sujeita a humanidade, por ser um ente sobrenatural, ou que pelo menos é um dos descendentes do imperio celeste! Faz pena porém que a pelle encardida, e repugnante figura de S. S. desmintao o que pretende impôr, e que em resultado nao seja mais que um fofo papelao de Hamburgo, outr’ora o pequeno menino Pompêo nascido na pequena povoação de Santa Quiteria d’esta provincia, onde nao consta vivessem em tempo algum familias, cuja raça procedesse d’antigas fidalguias, d’onde nascessem, aida por linha obliqua os troncos do Sr. Pompêo, que foi educado ate ter de ir para Pernambuco (segundo dizem) a expenças do Sr Gregorio Francisco Torres de Vasconcellos, de Sobral.

Nao se esqueceo o Sr. Pompêo de mostrar sua erudição historica na copia, que tirou dos termos mais degradantes de quanto papel sujo tem lido, para lançar sobre mim; aos quaes responderei, apesar de me aconselharem, alguns amigos que o não faça, dizendo que esse Sr. nao tem consciencia do que escreve, e para exemplo do que me aconselhao, que veja eu o que disse do Sr Dr. José Lourenço, e como hoje vive fraternalmente ligado ao mesmo Sr.; mas eu que me não posso persuadir de que um sacerdote formado em leis, escriptor d’um periodico, vigario geral, não tenha consciencia do que faz, e diz, não quero deixar de repellir aquella parteem que S. S.ª me insinuacomo o horror da sociedade, e por isso dir-lhe-hei, que nunca me persuadi que se atrevesse a chamar minha casa cova de caco, que tenho comettido horriveis crimes, fasendo verter muitas lagrimas aos habitantes desta provincia, que assassinei João Facundo, que o meu recurso é o do bacamarte &c. &c., depois do que que conclue dizendo que comprehende a missao da imprensa, e o que deve ao publico, e á sua dignidade, mostrando assim que tem sabido resignar-se a dura provança de quatro annos, assentado na ardente cadeira do lycêo, donde apenas lhe resulta o rediculo ordenado de 600$ rs., e onde tem consumido os seus melhores dias na illustração da mocidade, restando-lhe apenas tempo para, impertigado, percorrer toda a cidade, e por meio de seu Cearense insultar a todos os seus adversarios politicos, por cuja penosa vida a seu tempo serao obrigados os seus correligionarios politicos a lhe darem um lugar no parlamento, sob pena de buscar quem melhor lhe pague.

Tenho comettido horriveis crimes! porém o Sr. Pompêo, a quem desafio, não é capaz de apresentar um só provavel, e menos de quem tenha feito correr lagrimas; S. S.ª tem hoje entre as pessoas, que aqui compõe sua familia algumas, ou quasi todas a quem pode recorrer para que lhe digao quantas veses por intermedio do meu prestimo enxuguei as que lhes corrião por suas necessidades physicas, isso desde seu mais antigo membro: elles jamais deixarao de fallar a verdade, n’este sentido, se S. S.ª já lhes não tiver infiltrado o germen da ingratidão.

Quanto á morte do major Facundo direi o que S. S. disse a alguem — desgraçado, pretendes negociar com o sangue do infeliz major Facundo — com a differença para peio, que S. S. n’este genero vende por contrabando. visto que declarou que declinava de toda e qualquer responsabilidade politica de seu partido naquella parte em que não tiver figurado pessoalmente; o meu recurso é o do bacamarte!! .. e entretanto S. S. e todos os seus insultao-me diariamente com a maior injusça, e ainda um só não morreo por meio d’este recurso, que perfidamente me empresta!

Concluamos, e d’uma vez fique o Sr. padre Pompêo convencido que todos os seus esforços, e dos seus nao me farão perder na opiniao publica esse pequeno conceito de que gozo; moro no Ceará á 27 annos, sou demais conhecido, nao vivo, nem tenho familia que pretenda viver á custa da naçao, nunca percebi um só ceitil que nao fosse por meio de minha profissao, nunca tive a fofa pretençao de querer figurar na scena politica, portanto nao sou ganhador politico, sou devotado a meu partido por principios e sympathias, tenho consciencia de lhe ter prestado todo o apoio que me tem sido possivel com a melhor boa fe e lealdade.

Nunca fui nem sou ingrato ao Ceará do qual sou amigo decidido, e do que tenho dado exuberantes provas: todo meu trabalho no decurso destes 27 annos tem sido dedicado ao Ceará e aos Cearenses.

Vim de minha provincia — o Rio de Janeiro —, para aqui com idade de 25 annos, moço, robusto e solteiro, aqui me casei com uma Cearense mui pobre, e se hoje daqui tivesse de sahir sahiria pobre como entrei, com a differença de sahir velho na idade de 52 annos, com uma familia pesada, e carregado de desgostos, o que devo pois ao Ceará á exepção de sua hospitalidade, que diria d’elle a quem devo como disse essa hospitalidade e sympathias, porque elle nao tem culpa alguma das phases porque tem passado (politicamente fallando) trasidas por filhos desnaturados, e apesar de nao ter tido a fortuna de nascer eu seu torrão abençoado, nunca lhe promovi males, e nem consenteria que na minha presença d’elle mal dissesem.

Muito agradeço a S. S. a opinião que forma de mim, e a promessa que faz de não descer de sua alta dignidade para tocar-me, porque assim fico seguro, e izento de mais ser envenenada a minha conduta. Eu posso provar, e o farei, a essa parte do publico que ignora meus precedentes, que tenho sido mais util aos Cearenses n’um anno do que o Sr. Pompêo, talvez, em toda a sua vida possa ser, por que nao será pelo eu exemplo. eu maneira de proceder que lhe poderá trazer bens.

Ceará, 18 de junho de 1852.