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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro II, Capítulo XI


—A sua familia é conhecida?

Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, tudo que é ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que não possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é conhecido...

—A minha familia—respondeu frei Antonio—foi conhecida; mas não é de lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans regalias da sociedade, que v. ex.ª chamou conhecida! Penso que a minha familia não é conhecida.

—Mas deve estar aparentada...—replicou o fidalgo, instando nas perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.

—Creio que sim... O coronel ***...

—Já sei—interrompeu Alvaro—pois não!... é muito fidalgo, e está aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.ª é tio de uma menina muito falada?...

—Muito falada!?—atalhou o padre com sobresalto.

—Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.

—É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que valha a pena de mencionar-se. V. ex.ª já viu poesias ou romances, ou o retrato de minha sobrinha?

—Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de virtuosa tambem a tem; se não falei de virtude, é porque não sei verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma excellente menina a todos os respeitos.

—A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v. ex.ª o que é crime?

—Tambem não—respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de espirito-forte.

—Eis ahi—disse Fr. Antonio sorrindo—uma violencia que está fazendo á sua alma, sr. Silveira. V. ex.ª disse que minha sobrinha era dotada de bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta, romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e talento, para que lhe não vissem os defeitos...

—De certo não.

—Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha sobrinha?

—Creio que sim.

—E v. ex.ª?

Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:

—Eu... eu... naturalmente...

—Juntava a sua voz á opinião publica—interrompeu o padre—embora v. ex.ª não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.

—Assim é sempre—disse Silveira, com uma forçada resolução.

—E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a «verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.ª, insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é esse que se serve de v. ex.ª, como de uma machina para se exprimir? É a virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...

Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um tão generoso como irrespondivel adversario.

Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á «philosophia» irreconciliavel, para responder.

—Crê na virtude, sr. Silveira?—perguntou o padre com summa bondade e modestia.

—Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos—respondeu o mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que respeita.

—Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira. Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.ª não podia, sem horror, encarar um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.ª não póde, com indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?

—De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...

—Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.

—Mas diga-me v.ª sr.ª... não dizem que ha paizes onde os paes matam os filhos, e os filhos os paes, legalmente?

—Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.ª o que é permittido ahi pela lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.

—Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja preciso que o christianismo os declare criminosos?

—Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viuva. Os gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguem que o homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor e caridade?

—Penso que não.

—Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar, dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...

Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou:

—Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...

—Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita satisfação...

—Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser hospede de v. ex.ª...

—Mestre...—interrompeu Alvaro com alegria sincera.

—Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;—amigo, se v. ex.ª me quizer honrar com este parentesco.

—Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...—disse Alvaro, apertando-lhe cordealmente a mão.

—Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não faltará tempo proveitoso para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.ª que os padres teem um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de Deus, pedimos uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a riqueza da prece, com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não é isto uma consolação para os que são atheus por contagio e não por convicções; fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?

—A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...—disse Alvaro com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á ironia dos sabios, segundo a moda.

—Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra occasião...

E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava.