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Lágrimas Abençoadas por Camilo Castelo Branco
Livro III, Capítulo VII


Á primeira visita succederam outras.

Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde que visitara a obscura familia de frei Antonio.

Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas, passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de Maria dos Prazeres.

Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que frequentaram juntos a casa do coronel.

—Parece-me que és feliz, Alvaro.

—Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato a Deus.

—Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a tempestade vier depois da bonança...

—Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me. Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.

—Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração, porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.

—No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração que se morre...

—Se a virtude nos não vale...

—A intenção com que me diz essas palavras...

—É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho, e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam vencer por pequenas resistencias...

—Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que me anime a falar-lhe.

—Adivinhei a tua alma?

—Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...

—Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.

—Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?

—Que sentes por ella, Alvaro?

—O pae adivinhou-me... é um anjo que nos tem captivos a ambos; mas o meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...

—Amá-la!?...—interrompeu o pae com sobresalto.

—Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti, vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga, adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae, provocar as tempestades do coração?

—É, filho.

—É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...

—Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e grandes expiações a soffrer na terra.

—Pois bem, meu pae...

Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas se mostraram.

—Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É sensibilidade ou arrependimento?

—Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.

—De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas palavras, na educação...

—Não é o coração de Maria dos Prazeres.

—Pois qual?

—O de meu pae.

—É o coração de um pae... que mais queres que te diga?

—Gosta de Maria dos Prazeres?

—Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?

—O pae quereria ter uma assim?

—Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...

—E uma esposa?—disse Alvaro balbuciante.

O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos; e, depois de alguns segundos, disse:

—Queria.

—Queria assim dar-me um esposa?

—Queria. E serias tu digno d'ella?

—Não ouso responder.

—Pois medita.

Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção, dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:

—O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua crueldade. Medita, Alvaro.

E deixou-o.