Lendas e Narrativas/Advertencia da primeira edição


Os breves romances e narrativas contidos neste volume foram impressos, em epochas mais ou menos remotas, nas duas publicações periodicas o Panorama e a Illustração, bem como o foram nestes ou em outros jornaes os que tem de formar o segundo volume das Lendas e Narrativas, colleccão que, se trabalhos mais arduos o consentirem, será continuada com alguns outros, apenas esboçados ou ineditos no todo ou em parte, que ainda restam entre os manuscriptos do auctor. Corrigindo-os e publicando-os de novo, para se ajunctarem a composições mais extensas e menos imperfeitas, que já viram a luz publica em volumes separados, elle quiz apenas preservar do esquecimento, a que por via de regra são condemnados mais cedo ou mais tarde os escriptos inseridos nas columnas das publicações periodicas, as primeiras tentativas do romance historico que se fizeram na lingua portuguesa. Monumentos dos esforços do auctor para introduzir na litteratura nacional um genero amplamente cultivado, nestes nossos tempos, em todos os paizes da Europa, é este o principal, ou talvez o unico merecimento delles; o titulo de que podem valer-se para não serem entregues de todo ao esquecimento. À singeleza da invenção, a pouca firmeza nos contornos de alguns caractéres, o menos bem travado do dialogo, imperfeições que nem sempre foi possivel remediar nesta nova edição, revelam a mão inexperiente. Na historia dos progressos litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe a liberdade do pensamento, e que o engenho pôde apparecer á luz do dia sem os anginhos de uma censura tão absurda na sua indole, como estupida na sua applicação e esterilisadora nos seus effeitos; nessa historia, dizemos, esta nova edição deve ser julgada principalmente com attenção ao seu motivo, á prioridade das composições nella insertas, e á precisão em que, ao escreve-las, o auctor se via de crear a substancia e a fórma; porque para o seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos.

A critica para ser justa não ha-de, porém, attender só a essas circumstancias: ha-de considerar também os resultados destas tentativas, que, a principio, é licito suppôr inspiraram outras analogas, como por exemplo os “Irmãos Carvajales” e “O que foram Portuguezes” do Sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria dos grandes talentos da nossa litteratura a emprehenderem composições analogas de mais largas dimensões, e melhor delineadas e vestidas. Todos conhecem o “Arco de Sanct’Anna”, cujo ultimo volume acaba de imprimir o primeiro poeta português deste seculo, o “Um ano na Côrte” do Sr. Corvo, cuja publicação se aproxima do seu termo, e o “Odio Velho Não Cansa” do Sr. Rebello da Silva, ensaio que, se as eloquencias parvoas e semsabores dos dicursos academicos não tivessem tornado indecentes as allusões mythologicas, se poderia comparar ao combate com o leão de Citheron, que revelou á Grecia no moço Hercules o futuro semideus; porque no Odio Velho começa a manifestar-se o auctor da “Mocidade de D. João V”, romance de que já se imprimiram algumas paginas admiraveis, mas que na parte inedita, que é quasi tudo, nos promete um emulo de Walter-Scott. Emfim o “Conde de Castella” do Sr. Oliveira Marreca, vasta concepção, posto que ainda incompleta, foi porventura inspirado pelo exemplo destas fracas tentativas, e das que, em dimensões maiores, o auctor emprehendeu no Eurico e no Monge de Cister. Caracter grave e austero, dignos dos tempos antigos, e que a providencia collocou em meio de uma sociedade gasta e definhada por muitos generos de corrupções, como uma condemnação muda; homem sobre tudo de sciencia e consciencia, o Sr. Marreca trouxe estes seus dotes eminentes para o campo do romance historico, onde ninguem, talvez, como elle poderia fazer a Portugal o serviço que DuMonteil fez á França, isto é, popularisar o estudo daquela parte da vida publica e privada dos seculos semi-barbaros, que não cabe no quadro da historia social e politica.

Taes foram, entre outros, os mais importantes resultados da introduccão do genero. No meio deste amplo desenvolvimento de uma literatura nova no paiz, o auctor das seguintes paginas merecerá talvez desculpa de recordar que estes ensaios, inferiores ás publicações que se lhe seguiram, foram a sementinha d’onde proveio a floresta. Seja-lhe pois licito consolar-se na sua inferioridade com haver precedido na ordem dos tempos aquelles que, na affeição do publico, devem provavelmente faze-lo esquecer. Persuadido de ter por isso direito á indulgencia, resolveu-se a transportar para o livro aquillo que, considerado em si, não mereceria talvez sair nunca das columnas do fugitivo jornal, salvando assim, não escriptos cuja apreciação exija largas paginas na historia litteraria, mas um marco humilde e tosco, que, nesta especie de litteratura, indique o ponto d’onde se partiu.