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Leonor (Gottfried August Bürger)

Leonor
por Gottfried August Bürger, traduzido por Alexandre Herculano
Poema originalmente publicado no jornal O Panorama, sendo posteriormente agrupado em Poesias (1850).

Ralada de ruins sonhos
    Já desperta está Leonor,
    E 'inda agora os céus d'oriente
    Da manhan tingiu o alvor.

«Guilherme, és morto?―ella exclama―
    Ou trahiste a pobre amante?
    Se vives, porque retardas
    De te eu ver feliz instante?»

Nas tropas de Friderico
    Tempo havia que partíra
    Para a batalha de Praga,
    E cartas delle quem vira?

Mas a imperatriz e o rei[1]
    De guerras, emfim, cansados,
    Depondo os animos feros,
    De paz faziam tractados.

Já aos seus lares tornavam
    Ambas as hostes folgando.
    Cingem frentes ramos verdes;
    Vem atabales rufando.

E por montes e por valles
    Velhos e moços chegavam,
    Dando brados de alegria,
    A encontrar os que voltavam.

―«Boa vinda! Adeus!―diziam
    As filhas, noivas, e esposas.
    E Leonor? Nenhum dos vindos
    Lhe faz caricias saudosas.

Por Guilherme ella pergunta;
    Por qual estrada viria.
    Vão trabalho; vans perguntas:
    Novas delle quem sabia?

Não o vê. Passaram todos...
    Em furioso devaneio,
    Ei-la arranca as negras tranças;
    Fere crú o lindo seio.

Sua mãe, correndo a ella:
    ―«Valha-me Deus!―lhe bradou.―
    Minha filha, pois que é isso?!»―
    E entre os braços a apertou.

―«Minha mãe, perdeu-se tudo!
    O mundo, tudo perdi:
    De nada Deus se condoe...
    Oh dor, oh pobre de mi!»―

―«Ai! Jesus venha á minha alma!
    Filha, um padre-nosso resa.
    Deus é pae: sempre nos ouve:
    Nunca a humana dor despreza.»―

―«Minha mãe, inutil crença!
    Que bens me tem feito Deus?
    Padre-nossos!.. padre-nossos!..
    Que importam resas aos ceus?»―

―«Ai! Jesus venha á minha alma!
    Pois não é quem resa ouvido?
    Busca da igreja o consolo
    Verás teu pesar vencido.»―

―«Mãe, oh mãe, esta amargura
    Nenhum sacramento adoça:
    Não sei nenhum sacramento,
    Que aos mortos dar vida possa.»―

―«Filha, quem sabe se, ingrato,
    Elle ás promessas faltou;
    E lá na remota Hungria
    Novo amor o captivou?

Se, mudavel, te abandona,
    Do crime o premio terá:
    Do ultimo trance na angustia
    O remorso o punirá.»―

―«Morreu-me, oh mãe, a esperança.
    Perdido... tudo é perdido!
    Morrer, tambem, só me resta.
    Nunca eu houvera nascido!

Foge, oh sol resplandecente!
    Manda a noite e os seus terrores...
    Deus, oh Deus, que nunca escutas
    O gemer de humanas dores.»―

―«Meu Senhor! A desditosa
    Não pensa o que a lingua exprime.
    Não julgues a filha tua:
    Nem te lembres do seu crime.

Vans paixões esquece, oh filha:
    Cogita no goso eterno,
    No sangue que te remiu,
    E nos tormentos do inferno.»―

–«O que é goso eterno, oh mãe,
    E o inferno em que consiste?
    Com Guilherme ha goso eterno,
    Sem Guilherme o inferno existe.

Sem elle, que a luz fugindo,
    Se troque em nocturno horror;
    Sem elle, no céu, na terra
    Só conheço acerba dor!»–

Assim no sangue e na mente
    Furia insana lhe fervia:
    Cruel chamando ao Senhor,
    Mil blasphemias repetia.

Desde o sol brilhar no oriente
    Até que o céu se estrellava,
    As mãos, louca, retorcia,
    O brando seio pisava.




Porém ouçamos!.. A terra
    Pisa um cavallo lá fóra!..
    E pelos degraus da escada
    Tinem sons d'espada e espóra...

Ouçamos! Batem na argola
    Pancadas que mal feriram...
    E através das portas, claro,
    Estas palavras se ouviram:

―«Oh lá, querida, abre a porta.
    Dormes? Estás acordada?
    Folgas em riso? Pranteias?
    De mim és 'inda lembrada?»―

―«Guilherme, tu?! Na alta noite?
    Tenho velado e gemido.
    Quanto padeci!.. Mas, d'onde
    Até 'qui tens tu corrido?!»―

―«Nós montamos á meia-noite
    Só. Vim tarde, mas ligeiro,
    Desde a Bohemia, e comigo
    Levar-te-hei, por derradeiro.»―

―«Oh meu querido Guilherme,
    Vem depressa: aqui te abriga
    Entre meus braços; que o vento
    Do bosque as crinas fustiga.»―

―«Rugir o deixa nos matos.
    Sibilla? Sibille embora!
    Não paro... que o meu ginete
    Escarva o chão... tine a espóra...

Nosso leito nupcial
    Dista cem milhas d'aqui.
    Sobraça as roupas... vem... salta
    No murzelo, atrás de mi.»―

«Além cem milhas, me queres
    Hoje ao thalamo guiar?
    Ouve... o relogio ainda soa:
    Doze vezes fere o ar.»―

―«Olha em roda! A lua é clara:
    Nós e os mortos bem corremos.
    Aposto eu que n'um instante
    Ao leito nupcial iremos?»―

―«Mas dize-me, onde é que habitas?
    Como é o leito do noivado?―
    «Longe, quedo, fresco, breve:
    De oito taboas é formado.»―

―«Para dous?―«Para nós ambos.
    Sobraça as roupas: vem cá.
    Os convidados esperam:
    O quarto patente está.»―

Sobraçada a roupa, a bella
    Para o ginete saltou,
    E ao seu leal cavalleiro
    Co' as alvas mãos se enlaçou.

Ei-los vão! Soa a corrida.
    Ei-los vão, á fula-fula!
    Ginete e guerreiro arquejam:
    A faisca, a pedra pula.

Ui, como, á direita, á esquerda,
    Ante seus olhos se escoam
    Prado e selva, e do galope
    Sob a ponte os sons ecchoam!

―«Tremes, cara? A lua é pura.
    Depressa o morto andar usa.
    Tens medo de mortos?―«Não.
    Mas delles falar se escusa.»―

―«Que sons e cantos são estes?
    O corvo alli remoinha!
    Sons de sino? Hymnos de morte?
    É morto que se avizinha!»―

Era de feito um saimento,
    Que andas e esquife levava:
    Aos silvos de cobra em pégo
    Seu canto se assemelhava.

―«Um enterro á meia-noite,
    Com psalmos e com lamento,
    E eu a minha noiva levo
    Ao sarau do casamento?

Vinde, sacristão e o coro,
    O ephitalamio entoai-nos;
    Vinde, abbade, e antes que entremos
    No leito, a bençam lançae-nos.»―

Cala o som e o canto: a tumba
    Some-se: finda o clamor
    A seu mando; e o tropel voa
    Na pista do corredor.

Sempre mais alto a corrida
    Soa. Vão á fula-fula.
    Ginete e guerreiro arquejam:
    A faisca, a pedra pula.

Como á dextra e esquerda fogem
    Montes, bosques, matagaes!
    Como á dextra e esquerda fogem
    Cidades, villas, casaes!

―«Tremes, cara? A lua é pura.
    Depressa o morto usa andar.
    Temes os mortos, querida?»―
    ―«Ai, deixa-os lá repousar!»―

―«Olha! Ao redor de uma forca
    Dançar em tropel não vês
    Aereos corpos, que alvejam
    Da luz da lua através?

Oh lé, birbantes, aqui!
    Birbantes, acompanhai-me!
    Vinde. A dança do noivado
    Juncto do leito dançae-me.»―

E os vultos vem após logo,
    Ruído immenso fazendo,
    Como o furacão nas folhas
    Seccas do vergel rangendo.

E resoando a corrida
    Ei-los vão, á fula-fula.
    Ginete e guerreiro arquejam:
    A faisca, a pedra pula.

Para trás fugir parece
    Quanto o luar allumia;
    Para trás suas estrellas
    Sumir o céu parecia.

―«Tremes, cara? A lua é pura.
    Depressa o morto andar usa.
    Temes os mortos, querida?―
    ―«Ai, delles falar se escusa!»―

―«Murzelo, o gallo ouvír creio!
    Breve a areia ha-de correr...
    Murzelo, avia-te, voa;
    Que sinto o ar do amanhecer!

Nossa jornada está finda:
    Ao leito nupcial chegámos:
    Ligeiro os mortos caminham:
    A méta final tocámos.»―

D'uma porta ás grades ferreas
    Á rédea solta chegaram,
    E de fragil vara ao toque
    Ferrolho e chave saltaram.

Fugiram piando as aves:
    A corrida, emfim, parára
    Sobre campas. Os moimentos
    Alvejam; que a noite é clara.

Peça após peça, ao guerreiro
    Cáe a armadura lustrosa
    Em negro pó impalpavel,
    Qual de isca fuliginosa.

Sua cabeça era um craneo
    Branco-pallido, escarnado:
    Nas mãos tem fouce e ampulheta,
    Triste adorno de finado.

Alça-se e arqueja o ginete:
    I­gneas fai­scas lançou,
    E debaixo de seus pés
    Abriu-se a terra, e o tragou.

Dos covaes surgem phantasmas:
    Feio urrar os ares corta:
    Bate incerto o coração
    Da donzella semimorta.

Ao redor danças de espectros
    Em remoinho passavam:
    Canto de medonhas vozes
    Era o canto que cantavam:

«Aflliges-te? Oh, tem paciencia!
    Não fosses com Deus audaz.
    Teu corpo pertence á terra:
    Á tua alma o céu dê paz.»―

NotasEditar