Linha Reta e Linha Curva/III

Tinhão-se passado oito dias depois do que acabo de narrar.

Tito, como o temos visto até aqui, estava no terreno do primeiro dia. Passeava, lia, conversava e parecia inteiramente alheio aos planos que se tramavão em roda d’elle. Durante esse tempo foi apenas duas vezes á casa de Emilia, uma com a familia de Azevedo, outra com Diogo. Nestas visitas era sempre o mesmo, frio, indifferente, impassivel. Não havia olhar, por mais seductor e significativo, que o abalasse; nem a idéa de que andava no pensamento da viuva era capaz de animal-o.

— Porque, ao menos, se não é capaz de amar, não procura entreter um d’esses namoros de sala, que tanto lisongeião a vaidade dos homens?

Esta pergunta era feita por Emilia a si mesma, sob a impressão da estranheza que lhe causava a indifferença do rapaz. Ella não comprehendia que Tito pudesse conservar-se de gelo diante dos seus encantos. Mas infelizmente era assim.

Cansada de trabalhar em vão, a viuva determinou dar um golpe mais decisivo. Encaminhou a conversa para as doçuras do casamento e lamentou o estado de sua viuvez. O casal Azevedo era para ella o typo da perfeita felicidade conjugal. Apresentava-o aos olhos de Tito como um incentivo para quem queria ser venturoso na terra. Nada, nem a these, nem a hypothese, nada moveu a frieza de Tito.

Emilia jogava um jogo perigoso. Era preciso decidir entre os seus desejos de vingar o sexo e as conveniencias da sua posição; mas ella era de um caracter imperioso; respeitava muito os principios de sua moral severa, mas não acatava do mesmo modo as conveniencias de que a sociedade cercava essa moral. A vaidade impunha no espirito d’ella, com força prodigiosa. Assim que a bella viuva foi usando todos os meios que era licito empregar para fazer apaixonar Tito.

Mas, apaixonado elle, o que faria ella? A pergunta é ociosa; desde que ella o tivesse aos pés, trataria de conserval-o ahi fazendo parelha ao velho Diogo. Era o melhor trophéo que uma belleza altiva póde ambicionar.

Uma manhã, oito dias depois das scenas referidas no capitulo anterior, appareceu Diogo em casa de Azevedo. Tinhão ahi acabado de almoçar; Azevedo subira para o gabinete, afim de aviar alguma correspondencia para a côrte; Adelaide achava-se na sala do pavimento terreo.

Diogo entrou com uma cara contristada, como nunca se lhe víra. Adelaide correu pare elle.

— Que é isso? perguntou ella.

— Ah! minha senhora... sou o mais infeliz dos homens!

— Porque? Venha sentar-se...

Diogo sentou-se, ou antes deixou-se cahir na cadeira que Adelaide lhe offereceu. Esta tomou lugar ao pé d’elle, animou-o a contar as suas mágoas.

— Então que ha?

— Duas desgraças, respondeu elle. A primeira em fórma de sentença. Perdi mais uma demanda. É uma desgraça isto, mas não é nada...

— Pois ha maior?...

— Ha. A segunda desgraça foi em fórma de carta.

— De carta? perguntou Adelaide.

— De carta. Veja isto.

Diogo tirou da carteira uma cartinha côr de rosa, cheirando á essencia de magnolia.

Adelaide leu a carta para si.

Quando ella acabou, perguntou-lhe o velho:

— Que me diz a isto?

— Não comprehendo, respondeu Adelaide.

— Esta carta é d’ella.

— Sim, e depois?

— É para elle.

— Elle quem?

— Elle! o diabo! o meu rival! o Tito!

— Ah!

— Dizer-lhe o que senti quando apanhei esta carta, é impossivel. Nunca tremi na minha vida! Mas quando li isto, não sei que vertigem se apoderou de mim. Ando tonto! A cada passo como que desmaio... Ah!

— Animo! disse Adelaide.

— É isto mesmo que eu vinha buscar... é uma consolação, uma animação. Soube que estava aqui e estimei achal-a só... Ah! quanto sinto que o estimavel seu marido esteja vivo... porque a melhor consolação era aceitar Vossa Excellencia um coração tão mal comprehendido.

— Felizmente elle está vivo.

Diogo soltou um suspiro e disse:

— Felizmente!

E depois de um silencio continuou:

— Tive duas idéas: uma foi o desprezo; mas desprezal-os é pôl-os em maior liberdade e ralar-me de dôr e de vergonha; a segunda foi o duello... é melhor... eu mato... ou...

— Deixe-se d’isso.

— É indispensavel que um de nós seja riscado do numero dos vivos.

— Póde ser engano...

— Mas não é engano, é certeza.

— Certeza de que?

Diogo abrio o bilhete e disse:

— Ora, ouça: « Se ainda não me comprehendeu é bem curto de penetração. Tire a mascara e eu me explicarei. Esta noite tomo chá sózinha. O importuno Diogo não me incommodará com as suas tolices. Dê-me a felicidade de vêl-o e admiral-o. — Emilia. »

— Mas que é isto?

— Que é isto? Ah! se fosse mais do que isto já eu estava morto! Pude pilhar a carta, e a tal entrevista não se deu...

— Quando foi escripta a carta?

— Hontem.

— Tranquillise-se. É capaz de guardar um segredo? O que lhe vou dizer é grave. Mas só a sua afílicção me faz fallar. Posso affirmar-lhe que esta carta é uma pura caçoada. Trata-se de vingar o nosso sexo ultrajado; trata-se de fazer com que o Tito se apaixone... nada mais.

Diogo estremeceu de alegria.

— Sim? perguntou elle.

— É pura verdade. Mas veja lá, isto é segredo. Se lh’o descobri foi por vêl-o afflicto. Não nos comprometta.

— Isso é serio? insistio Diogo.

— Como quer que lh’o diga?

— Ah! que peso me tirou! Póde estar certa de que o segredo cahio n’um poço. Oh! muito me hei de rir... muito me hei de rir... Que boa inspiração tive em vir fallar-lhe! Diga-me, posso dizer a D. Emilia que sei tudo?

— Não!

— É então melhor que não me dê por achado...

— Sim.

— Muito bem!

Dizendo estas palavras o velho Diogo esfregava as mãos e piscava os olhos. Estava radiante. Que! ver o supposto rival sendo victima dos laços da viuva! Que gloria! que felicidade!

N’isto estava quando á porta do interior appareceu Tito. Acabava de levantar-se da cama.

— Bom dia, D. Adelaide, disse elle dirigindo-se para a mulher de Azevedo.

Depois sentando-se e voltando a cara para Diogo:

— Bom dia, disse. Está hoje alegre... Tirou a sorte grande?

— A sorte grande? perguntou Diogo... Tirei... tirei...

— Dormio bem? perguntou Adelaide a Tito.

— Como um justo que sou. Tive sonhos côr de rosas: sonhei com o Sr. Diogo.

— Ah! sonhou comigo? murmurou entre dentes o velho namorado. Coitado! tenho pena d’elle!

— Mas onde está Azevedo? perguntou Tito a Adelaide.

— Anda de passeio.

— Já?

— Pois então. Onze horas.

— Onze horas! É verdade acordei muito tarde. Tinha duas visitas para fazer: uma a D. Emilia...

— Ah! disse Diogo.

— De que se espanta, meu caro?

— De nada! de nada!

— Bom; vou mandar pôr o seu almoço, disse Adelaide.

Os dous ficárão sós. Tito acendeu um cigarro de palha; Diogo affectava grande distracção, mas olhava sorrateiramente para o moço. Este, apenas soltou duas fumaças, voltou-se para o velho e disse:

— Como vão os seus amores?

— Que amores?

— Os seus, a Emilia... Já lhe fez comprehender toda a immensidade da paixão que o devora?

— Qual... Preciso de algumas lições... Se m’as quizesse dar?...

— Eu? Está sonhando!

— Ah! eu sei que o senhor é forte... É modesto, mas é forte... é até fortissimo! Ora, eu sou realmente um aprendiz..... Tive ha pouco a idéa de desafial-o.

— A mim?

— É verdade, mas foi uma loucura de que me arrependi...

— Além de que não é uso em nosso paiz...

— Em toda a parte é uso vingar a honra.

— Bravo, D. Quixote!

— Ora, eu acreditava-me offendido na honra.

— Por mim?

— Mas emendei a mão; reparei que era antes eu quem offendia pretendendo lutar com um mestre, eu simples aprendiz...

— Mestre de que?

— Dos amores! Oh! eu sei que é mestre...

— Deixe-se d’isso... eu não sou nada... o Sr. Diogo, sim; o senhor vale um urso, vale mesmo dous. Como havia de eu... Ora!... Aposto que teve ciumes?

— Exactamente.

— Mas era preciso não me conhecer; não sabe das minhas idéas?

— Homem, ás vezes é peior.

— Peior, como?

— As mulheres não deixão uma affronta sem castigo... As suas idéas são affrontosas... Qual será o castigo? Paro aqui... paro aqui...

— Onde vai?

— Vou sahir. Adeos. Não se lembre mais da minha desastrada idéa do duello...

— Que está acabado... Ah! o senhor escapou de boa!

— De que?

— De morrer. Eu enfiava-lhe a espada por esse abdomen..... com um gosto... com um gosto só comparavel ao que tenho de abraçal-o vivo e são!

Diogo rio-se com um riso amarello.

— Obrigado, obrigado. Até logo!

— Venha cá, onde vai? Não se despede de D. Adelaide?

— Eu já volto, disse Diogo travando do chapéo e sahindo precipitadamente.

Tito ainda o acompanhou com os olhos.

— Este sujeito, disse o moço comsigo quando se vio só, não tem nada de original. Aquella opinião a respeito das mulheres não é d’elle... Melhor... já se conspira; é o que me convem. Has de vir! has de vir!

Um criado allemão veio annunciar a Tito que o almoço estava preparado. Tito ia entrando quando assomou á porta a figura de Azevedo.

— Ora, graças a Deos! O meu amigo não se levanta com o sol. Estás com olhos de quem acaba de dormir.

— É verdade, e vou almoçar.

Dirigirão-se os dous para dentro, onde a mesa estava posta á espera de Tito.

— Almoças outra vez? perguntou Tito.

— Não.

— Pois então vais ver como se come.

Tito sentou-se á mesa; Azevedo estirou-se n’um sofá.

— Onde foste? perguntou Tito.

— Fui passear... Comprehendi que é preciso ver e admirar o que é indifferente, para apreciar e ver melhor aquillo que faz a felicidade intima do coração.

— Ah! sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! A final sempre a razão do meu lado,

— Talvez. Apezar de tudo, quer-me parecer que já intentas entrar na familia dos casados.

— Eu?

— Tu, sim.

— Porque?

— Mas, dize, é ou não verdade?

— Qual, verdade!

— O que sei, é que uma d’estas tardes em que adormeceste lendo, não sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emilia.

— Devéras? perguntou Tito mastigando.

— É exacto. Conclui que se sonhavas com ella é que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas.

— Concluiste mal.

— Mal?

— Concluiste como um marido de cinco mezes. Que prova um sonho?

— Prova muito!

— Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...

— Mas emfim, alguma cousa ha por força... Serás capaz de me dizeres o que é?

— Homem, podia dizer-te alguma cousa se não fosses casado...

— Que tem que eu seja casado?

— Tem tudo. Seria indiscreto sem querer e até sem saber. Á noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem um para o outro a bolsa das confidencias. Sem pensares, pódes deitar tudo a perder.

— Não digas isso. Vamos lá. Ha novidade?

— Não ha nada.

— Confirmas as minhas suspeitas. Gostas da Emilia.

— Odio não lhe tenho, é verdade.

— Gostas. E ella merece. É uma boa senhora, de não vulgar belleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viuva?...

— Sim; é natural que se embale dez vezes por dia na lembrança dos dous maridos que já exportou para o outro mundo... á espera de exportar o terceiro...

— Não é dessas...

— Afianças?

— Quasi que posso afiançar.

— Ah! meu amigo, disse Tito levantando-se da mesa e indo acender um charuto, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em taes assumptos. Entre a prudencia discreta, e a cuja confiança não é licito duvidar, a escolha está decidida nos proprios termos da primeira. O que pódes tu afiançar a respeito de Emilia? Não a conheces melhor do que eu. Ha quinze dias que nos conhecemos, e eu já lhe leio no interior; estou longe de attribuir-lhe máos sentimentos, mas tenho a certeza de que não possue as rarissimas qualidades que são necessarias á excepção. Que sabes tu?

— Realmente, eu não sei nada.

— Não sabes nada! disse Tito comsigo.

— Fallo pela minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre vocês ambos não vinha fóra de proposito.

— Se me fallas outra vez em casamento, saio.

— Pois só a palavra?

— A palavra, a idéa, tudo.

— Entretanto, admiras e applaudes o meu casamento...

— Ah! eu applaudo nos outros muitas cousas de que não sou capaz de usar. Depende da vocação...

Adelaide appareceu á porta da sala de jantar. A conversa cessou entre os dous rapazes.

— Trago-lhe uma noticia.

— Que noticia? perguntárão-lhe os dous.

— Recebi um bilhete de Emilia... Pede-nos que vamos lá amanhã, porque...

— Porque? perguntou Azevedo.

— Talvez dentro de oito dias se retire para a cidade.

— Ah! disse Tito com a maior indifferença d’este mundo.

— Aprompta as tuas malas, disse Azevedo a Tito.

— Porque?

— Não segues os passos da deosa?

— Não zombes, cruel amigo! Quando não...

— Anda lá...

Adelaide sorrio ouvindo estas palavras.

D’ahi a meia hora Tito subio para o gabinete em que Azevedo tinha os livros. Ia, dizia, ler as Confissões de santo Agostinho.

— Que repentina viagem é esta? perguntou Azevedo á sua mulher.

— Tens muito empenho em saber?

— Tenho.

— Pois bem. Olha que é segredo. Eu não sei positivamente, mas creio que é uma estrategia.

— Estrategia? Não entendo.

— Eu te digo. Trata-se de prender o Tito.

— Prender?

— Estás hoje tão bronco! Prender pelos laços do amor...

— Ah!

— Emilia julgou que deve fazêl-o. É só para brincar. No dia em que elle se declarar vencido fica ella vingada do que elle disse contra o sexo.

— Não está máo... E tu entras n’esta estrategia...

— Como conselheira.

Torna-se então contra um amigo, um alter ego.

— Tá, tá, tá. Cala a boca. Não vás fazer abortar o plano.

Azevedo rio-se a bandeiras despregadas. No fundo achava engraçada a punição premeditada ao pobre Tito.

A visita que Tito disse ter de fazer á viuva n’aquelle dia, não se realisou.

Diogo, que apenas sahíra da casa de Azevedo, sciente das intenções da viuva, fôra para casa d’esta esperar o rapaz, embalde lá esteve durante o dia, embalde jantou, embalde aborreceu a tarde inteira tanto a Emilia como á tia, Tito não appareceu.

Mas, á noite, á hora em que Diogo, já vexado de tanta demora na casa da moça, tratava de sahir, annunciou-se a chegada de Tito.

Emilia estremeceu; mas esse movimento escapou a Diogo.

Tito entrou na sala onde se achavão Emilia, a tia, e Diogo.

— Não contava com a sua visita, disse a viuva.

— Eu sou assim; appareço quando não me esperão. Sou como a morte e a sorte grande.

— Agora é a sorte grande, disse Emilia.

— Que numero é o seu bilhete, minha senhora?

— Numero doze, isto é, doze horas que tenho tido o prazer de ter hoje aqui o Sr. Diogo...

— Doze horas! exclamou Tito voltando-se para o velho.

— Sem que aihda o nosso bom amigo nos contasse uma historia...

— Doze horas! repetio Tito.

— Que admira, meu caro senhor? perguntou Diogo.

— Acho um pouco estirado...

— As horas contão-se quando são aborrecidas... Peço para me retirar...

E dizendo isto, Diogo travou do chapéo para sahir lançando um olhar de despeito e ciume para a viuva.

— Que é isso? perguntou esta. Onde vai?

— Dou azas ás horas, respondeu Diogo ao ouvido de Emilia; vão correr depressa agora.

— Perdôo-lhe e peço que se sente.

Diogo sentou-se.

A tia de Emilia pedio licença para retirar-se alguns minutos.

Ficárão os tres.

— Mas então, disse Tito, nem ao menos uma historia contou?

— Nenhuma.

Emilia lançou um olhar a Diogo como para tranquillisal-o. Este, mais calmo então, lembrou-se do que Adelaide lhe havia dito, e voltou ás boas.

— A final de contas, disse elle comsigo, o caçoado é elle. Eu sou apenas o meio de prendêl-o... Contribuamos para que se lhe tire a prôa.

— Nenhuma historia, continuou Emilia.

— Pois olhe, e sei muitas, disse Diogo com intenção.

— Conte uma de tantas que sabe, disse Tito.

— Nada! Porque não conta o senhor?

— Se faze empenho...

— Muito... muito, disse Diogo piscando os olhos. Conte lá, por exemplo, a historia do taboqueado, a historia das imposturas do amor, a historia dos viajantes encouraçados; vá, vá.

— Não, vou contar a historia de um homem e de um macaco.

— Oh! disse a viuva.

— É muito interessante, disse Tito. Ora, oução...

— Perdão, interrompeu Emilia, será depois do chá.

— Pois sim.

D’ahi a pouco servia-se o chá aos tres. Findo elle, Tito tomou a palavra e começou a historia:


HISTORIA DE UM HOMEM E DE UM MACACO.


« Não longe da villa ***, no interior do Brasil, morava ha uns vinte annos um homem de trinta e cinco annos, cuja vida mysteriosa era o objecto das conversas das villas proximas e o objecto do terror que experimentavão os viajantes que passavão na estrada a dous passos da casa.

« A propria casa era já de causar apprehensões ao espirito menos timorato. Vista de longe nem parecia casa, tão baixinha era. Mas quem se approximasse conheceria aquella construcção singular. Metade do edificio estava ao nivel do chão, e metade abaixo da terra. Era entretanto uma casa solidamente construida. Não tinha porta nem janellas. Tinha um vão quadrado que servia ao mesmo tempo de janella e de porta. Era por alli que o mysterioso morador entrava e sahia.

« Pouca gente o via sahir, não só porque elle raras vezes o fazia, como porque o fazia em horas improprias. Era nas horas da lua cheia que o solitario deixava a residencia para ir passear nos arredores. Levava sempre comsigo um grande macaco, que acudia pelo nome de Caligula.

« O macaco e o homem, o homem e o macaco, erão dous amigos inseparaveis, dentro e fóra de casa, na lua nova.

« Mil visões corrião a respeito d’este mysterioso solitario.

« A mais geral é que era um feiticeiro. Havia uma que o dava por doudo; outra por simplesmente atacado de misanthropia.

« Esta ultima versão tinha por si duas circumstancias: a primeira era não constar nada de positivo que fizesse reconhecer no homem habitos de feiticeiro ou alienado; a segunda era a amizade que elle parecia votar ao macaco e o horror com que fugia ao olhar dos homens. Quando a gente se aborrece dos homens toma sempre a affeição dos animaes, que têm a vantagem de não discorrer, nem intrigar.

« O mysterioso... É preciso dar-lhe um nome: chamemo-lo Daniel. Daniel preferia o macaco, e não fallava a mais homem algum. Algumas vezes os viajantes que passavão pela estrada ouvião partir de dentro da casa gritos do macaco e do homem; era o homem que afagava o macaco.

« Como se alimentavão aquellas duas creaturas? Houve quem visse um dia de manhã abrir-se a porta, sahir o macaco e voltar pouco depois com um embrulho na boca. O tropeiro que presenciava esta scena quiz descobrir onde ia o macaco buscar aquelle embrulho que levava sem duvida os alimentos dos dous solitarios. Na manhã seguinte introduzio-se no matto; o macaco chegou á hora do costume, e dirigio-se para um tronco da arvore; havia sobre esse tronco um grande galho, que o bicho atirou ao chão. Depois, introduzindo as mãos no interior do velho tronco,

tirou um embrulho igual ao da vespera e partio.

« O tropeiro persignou-se, e tão apprehendido ficou com a scena que acabava de presenciar que não a contou a ninguem.

« Durava esta existencia tres annos.

« Durante esse tempo o homem não envelhecêra. Era o mesmo que no primeiro dia. Longas barbas ruivas e cabellos grandes cahidos para trás. Usava um grande casaco de baeta, tanto no inverno, como no verão. Calçava botas e não usava chapéo.

« Era impossivel aos passageiros e aos moradores das vizinhanças penetrar na casa do solitario. Não o será de certo para nós, minha bella senhora, e meu caro amigo.

« À casa divide-se em duas salas e um quarto. Uma sala é para jantar; a outra é... a de visitas. O quarto é occupado pelos dous moradores, Daniel e Caligula.

« As duas salas são de iguaes dimensões; o quarto é uma metade da sala. A mobilia da primeira sala compõe-se de dous sujos bancos encostados á parede, uma mesa baixa no centro. O chão é assoalhado. Pendem das paredes dous retratos: um de moça, outro de velho. A moça é uma figura angelica e deliciosa. O velho inspirava respeito e admiração. Das outras duas paredes pendem, de

um lado uma faca de cabo de marfim, e do outro uma mão de defunto, amarella e secca.

« A sala de jantar tem apenas uma mesa e dous bancos.

« A mobilia do quarto resume-se n’um grabato em que dorme Daniel. Caligula estende-se no chão, junto á cabeceira do dono.

« Tal é a mobilia da casa.

« À casa, que de fóra parece não ter capacidade para conter um homem em pé, é comtudo sufficiente, visto estar, como disse, entranhada no chão.

« Que vida terão passado ahi dentro o macaco e o homem, no espaço de tres annos? Não saberei dizêl-o.

« Quando Caligula traz de manhã o embrulho, Daniel divide a comida em duas porções, uma para o almoço, outra para jantar. Depois homem e macaco sentão-se em face um do outro na sala de jantar e comem irmãmente as duas refeições.

« Quando chega a lua cheia sahem os dous solitarios, como já disse, todas as noites, até a época em que a lua passa a ser minguante. Sahem ás dez horas, pouco mais ou menos, e voltão pouco mais ou menos ás duas horas da madrugada. Quando entrão Daniel tira a mão do finado que pende da parede e dá com ella duas bofetadas em si proprio. Feito isto, vai deitar-se; Caligula acompanha-o.

« Uma noite, era no mez de Junho, época de lua cheia, Daniel preparou-se para sahir. Caligula deu um pulo e saltou á estrada. Daniel fechou a porta, e lá se foi com o macaco estrada acima.

« A lua, inteiramente cheia, projectava os seus reflexos pallidos e melancolicos na vasta floresta que cobria as collinas proximas, e clareava toda a vasta campina que rodeava a casa.

« Só se ouvia ao longe o murmurio de uma cachoeira, e ao perto o piar de algumas corujas, e o chilrar de uma infinidade de grilos espalhados na planicie.

« Daniel caminhava pausadamente levando um pão debaixo do braço, e acompanhado do macaco, que saltava do chão aos hombros de Daniel e dos hombros de Daniel para o chão.

« Mesmo sem a fórma lugubre que tinha aquelle lugar por causa da residencia do solitario, qualquer pessoa que encontrasse áquella hora Daniel e o macaco corria risco de morrer de medo. Daniel, extremamente magro e alto, tinha em si um ar lugubre. Os cabellos da barba e da cabeça, crescidos em abundancia, fazião a sua cabeça ainda maior do que era. Sem chapéo era uma cabeça verdadeiramente satanica.

« Caligula, que nos outros dias era um macaco ordinario, tomava, n’aquellas horas de passeio nocturno, um ar tão lugubre e tão mysterioso como o de Daniel.

« Havia já uma hora que os dous solitarios tinhão sahido de casa. A casa ficára já um pouco longe. Nada mais natural do que chegar a policia n’essa occasião, tomar a entrada da casa e reconhecer o mysterio. Mas a policia, apezar dos meios que tinha á sua disposição, não se animava a investigar no mysterio que o povo reputava diabolico. Tambem a policia é humana, e nada do que é humano lhe é desconhecido.

« Havia uma hora, disse eu, que os dous passeadores tinhão sahido de casa. Começavão então a subir uma pequena collina... »


Tito foi interrompido por um bocejo do velho Diogo.

— Quer dormir? perguntou o rapaz.

— É o que vou fazer.

— Mas a historia?

— A historia é muito divertida. Até aqui só temos visto duas cousas, um homem e um macaco; perdão... temos mais dous, um macaco e um homem. É muito divertida! Mas, para variar, o homem vai sahir e fica o macaco.

Dizendo estas palavras com uma raiva comica, Diogo travou do chapéo e sahio.

Tito soltou uma gargalhada.

— Mas vamos ao fim da historia...

— Que fim, minha senhora? Eu já estava em talas por não saber como continuar... Era um meio de servil-a. Vejo que é um velho aborrecido...

— Não é, está enganado.

— Ah! não?

— Divirto-me com elle. O que não impede que a presença do senhor me dê infinito prazer...

— Vossa Excellencia disse agora uma falsidade.

— Qual foi?

— Disse que lhe era agradavel a minha conversa. Ora, isso é falso como tudo quanto é falso...

— Quer um elogio?

— Não, fallo franco. Eu nem sei como Vossa Excellencia me atura; desabrido, massante, chocarreiro, sem fé em cousa alguma, sou um conversador muito pouco digno de ser desejado. É preciso ter uma grande somma de bondade para ter expressões tão benevolas... tão amigas...

— Deixe esse ar de mofa, e...

— Mofa, minha senhora?

— Hontem eu e minha tia tomámos chá sózinhas! sózinhas!...

— Ah!

— Contava que o senhor viesse aborrecer-se uma hora comnosco...

— Qual aborrecer... Eu lhe digo: o culpado foi o Ernesto.

— Ah! foi elle?

— É verdade; deu comigo ahi em casa de uns amigos, eramos quatro ao todo, rolou a conversa sobre o voltarete e acabámos por formar mesa. Ah mas foi uma noite completa! Aconteceu-me o que me acontece sempre: ganhei!

— Está bom.

— Pois olhe, ainda assim eu não jogava com pichotes; erão mestres de primeira força: um principalmente; até ás onze horas a fortuna pareceu desfavorecer-me, mas d’essa hora em diante desandou a roda para elles e eu comecei a assombrar... póde ficar certa de que os assombrei. Ah! é que eu tenho diploma... mas que é isso, está chorando?

Emilia tinha com effeito o lenço nos olhos. Chorava? É certo que quando tirou o lenço dos olhos, tinha-os humidos. Voltou-se contra a luz e disse ao moço:

— Qual... póde continuar.

— Não ha mais nada; foi só isto, disse Tito.

— Estimo que a noite lhe corresse feliz...

— Alguma cousa...

— Mas a uma carta responde-se; porque não respondeu á minha? disse a viuva.

— Á sua qual?

— Á carta que lhe escrevi pedindo que viesse tomar chá comnosco?

— Não me lembro.

— Não se lembra?

— Ou, se recebi essa carta, foi em occasião que a não pude ler, e então esqueci, esqueci-a em algum lugar...

— É possivel: mas é a ultima vez...

— Não me convida mais para tomar chá?

— Não. Póde arriscar-se a perder distracções melhores.

— Isso não digo: a senhora trata bem a gente, e em sua casa passão-se bem as hóras... Isto é com franqueza. Mas então tomou chá sózinha? E o Diogo?

— Descartei-me d’elle. Acha que elle seja divertido?

— Parece que sim... É um homem delicado; um tanto dado ás paixões, é verdade, mas sendo esse um defeito commum, acho que n’elle não é muito digno de censura.

— O Diogo está vingado.

— De que, minha senhora ?

Emilia olhou fixamente para Tito e disse:

— De nada!

E levantando-se dirigio-se para o piano.

— Vou tocar, disse ella; não o aborrece?

— De modo nenhum.

Emilia começou a tocar; mas era uma musica tão triste que infundia certa melancolia no espirito do moço. Este, depois de algum tempo, interrompeu com estas palavras:

— Que musica triste!

— Traduzo a minha alma, disse a viuva.

— Anda triste?

— Que lhe importão as minhas tristezas?

— Tem razão, não me importão nada. Em todo o caso não é comigo?

Emilia levantou-se e foi para elle.

— Acha que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez? disse ella.

— Que desfeita, minha senhora?

— A desfeita de não vir ao meu convite?

— Mas eu já lhe expliquei...

— Paciencia! O que sinto é que tambem n’esse voltarete estivesse o marido de Adelaide.

— Elle retirou-se às dez horas, e entrou um parceiro novo, que não era de todo máo.

— Pobre Adelaide!

— Mas se eu lhe digo que elle se retirou ás dez horas...

— Não devia ter ido. Devia pertencer sempre á sua mulher, Sei que estou fallando a um descrido; não póde calcular a felicidade e os deveres do lar domestico. Viverem duas creaturas uma para a outra, confundidas, unificadas; pensar, aspirar, sonhar a mesma cousa; limitar o horizonte nos olhos de cada uma, sem outra ambição, sem inveja de mais nada. Sabe o que é isto?

— Sei... É o casamento por fóra.

— Conheço alguem que lhe provava aquilo tudo...

— Devéras? Quem é essa phenix?

— Se lho disser, ha de mofar; não digo.

— Qual mofar! Diga lá, eu sou curioso.

— Não acredita que haja alguem que possa amal-o?

— Póde ser...

— Não acredita que alguem, por despeito, por outra cousa que seja, tire da originalidade do seu espirito os influxos de um amor verdadeiro, mui diverso do amor ordinario dos salões; um amor capaz de sacrificio, capaz de tudo? Não acredita?

— Se me affirma, acredito; mas...

— Existe a pessoa e o amor.

— São então duas phenix.

— Não zombe. Existem... Procure...

— Ah! isso ha de ser mais difficil: não tenho tempo. E supponho que achasse, de que me servia? Para mim é perfeitamente inutil. Isso é bum para outros; para o Diogo, por exemplo...

— Para o Diogo?

A bella viuva pareceu ter um assomo de colera. Depois de um silencio, disse:

— Adeos! Desculpe, estou incommodada.

— Então, até amanhã!

Dizendo o que, Tito apertou a mão de Emilia e sahio tão alegre e descuidoso como se sahisse de um jantar de annos.

Emilia, apenas ficou só, cahio n’uma cadeira e cobrio o rosto.

Estava n’essa posição havia cinco minutos, quando assomou á porta a figura do velho Diogo.

O rumor que o velho fez entrando despertou a viuva.

— Ainda aqui!

— É verdade, minha senhora, disse Diogo approximando-se, é verdade. Ainda aqui, por minha infelicidade...

— Não entendo...

— Não sahi para casa. Um demonio occulto me impellio para commetter um acto infame. Commetti-o , mas tirei delle um proveito; estou salvo. Sei que me não ama.

— Ouvio?

— Tudo. E percebi.

— Que percebeu, meu caro senhor?

— Percebi que a senhora ama o Tito.

— Ah!

— Retiro-me, portanto, mas não quero fazêl-o sem que ao menos fique sabendo de que saio com sciencia de que não sou amado; e que saio antes de me mandarem embora.

Emilia ouvio as palavras de Diogo com a maior tranquillidade. Emquanto elle fallava teve tempo de reflectir no que devia dizer.

Diogo estava já a fazer o seu ultimo comprimento, quando a viuva lhe dirigio a palavra.

— Ouça-me, Sr. Diogo. Ouvio bem, mas percebeu mal. Já que pretende ter sabido...

— Já sei; vem dizer que ha um plano assentado de zombar com aquelle moço...

— Como sabe?

— Disse-m’o D. Adelaide.

— É verdade.

— Não creio.

— Porque?

— Havião lagrimas nas suas palavras. Ouvi-as com a dôr n’alma. Se soubesse como eu soffria!

A bella viuva não pôde deixar de sorrir ao gesto comico de Diogo. Depois, como elle parecesse mergulhado em meditação sombria, disse:

— Engana-se, tanto que volto para a cidade.

— Devéras?

— Pois acredita que um homem como aquelle possa inspirar qualquer sentimento serio? Nem por sombras!

Estas palavras forão ditas no tom com que Emilia costumava persuadir aquelle eterno namorado. Isso e mais um sorriso, foi quanto bastou para acalmar o animo de Diogo. D’ahi a alguns minutos estava elle radiante.

— Olhe, e para desenganal-o de uma vez vou escrever um bilhete ao Tito...

— Eu mesmo o levarei, disse Diogo louco de contente.

— Pois sim!

— Adeos, até amanhã. Tenha sonhos côr de rosa, e desculpe os meus máos modos. Até amanhã.

O velho beijou graciosamente a mão de Emilia e sahio.