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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo IV


Sim, minha filha era a minha vida, porque era o meu verdadeiro amor. Se eu não tivesse outras razões para conservar-me honesta e digna, depois da ausência e da morte de meu marido, tê-lo-ia feito só pelo muito que a amava.

À proporção que Palmira se desenvolvia, fortificava-se o meu caráter, apurava-se a minha inteligência, e o meu coração fazia-se melhor. Meu pensamento pertencia-lhe quase que exclusivamente, mesmo já nos melhores tempos de minha vida de casada. Se então meu marido ganhava terreno na minha estima e eu na dele, era só porque ele era seu pai e eu sua mãe; e o desenvolvimento dessa afetuosa solidariedade estava na razão inversa do nosso amor físico.

Ah! eram inevitáveis as tristes conseqüências desse deslocamento de amor. Foi talvez dessa época que se decidiu a nossa incompatibilidade, e que se originou a nossa separação; entretanto ainda então sabíamos conter-nos um defronte do outro. Em uma nota, muito anterior àquela que ficou atrás, meu marido revela-se claramente a esse respeito. Vou transcrevê-la e será esta a última; insisto em fazê-lo, porque todo o estudo que forma cabedal deste meu querido livro foi inspirado nessas notas de Virgílio, e também porque elas dizem o que eu talvez nunca tivesse a coragem de confessar a meu respeito.

Eis o que ele escreveu. Nesse tempo, note-se, ainda se não tinha quebrado a aparente harmonia da nossa vida íntima; ainda não tinha estalado a caldeira, onde ferviam já os humores da reação:

"Noto que os sutis efeitos desse fato (refere-se ao exclusivismo do seu amor paterno) começam a patentear-se tristemente na intimidade egoísta da minha vida conjugal. Começo a perceber que o arrefecimento do meu ardor amoroso para com minha mulher vai lentamente toldando, de vaporosas mágoas, a sua calma existência de esposa infeliz e honesta. Ela se não queixa nunca, mas a progressiva expressão de desgosto que vão adquirindo os seus formosos olhos; o indefinível sorriso de resignação que lhe entreabre os lábios quando eu, ao seu lado na cama, lhe falo com entusiasmo de nossos filhos, e só deles, esquecido do resto do mundo, esquecido de tudo mais, tomado, possuído inteiramente pelo amor de pai; tudo isso me faz cair em mim e enche-me de revolta contra o exclusivismo do meu coração. Estudo-me e descubro com horror que já não há em mim a menor sombra de entusiasmo amoroso por minha mulher. — Fico indignado! Quero convencer os meus rebelados sentidos de que isto é uma indigna injustiça, e chamo em socorro dos meus deveres de bom marido a idéia dos encantos de Olímpia, evocando o ardor com que a desejei durante o noivado e durante a lua-de-mel.

É tudo inútil!

Minha mulher tem agora vinte e seis anos. Está em pleno desenvolvimento de suas graças físicas; nunca foi tão bela, tão sedutora e tão mulher. E eu, com trinta e cinco anos, na força da idade e da saúde, reconheço tudo isso, admiro-lhe os dotes físicos, tenho orgulho da sua beleza e, em consciência, não compreendo mulher mais perfeita e mais digna de amor que a minha. E contudo, o amor entra no comércio da nossa vida íntima apenas como ligeiro e fugitivo incidente. Apesar de reconhecer o seu inapreciável valimento feminil, a riqueza daquele palpitante tesouro de formas brancas e formosas, o preço daquele corpo carinhoso e casto, só vejo, só enxergo nela, a mãe dos meus filhos, só vejo o ventre sagrado, donde nasceu em ondas de sangue a minha felicidade de ser pai.

Beijo-a, acarinho-a sinceramente, ao sair de casa, ao entrar da rua; às vezes interrompo o meu trabalho para tomar-lhe as mãos, assentá-la um instante sobre os meus joelhos, passar-lhe o braço na cintura. Mas estes afagos, alheios ao transporte amoroso, são feitos de fria ternura de amigo, são meigos reconhecimentos da minha paternidade feliz.

Donde vem, pois, esta estranha coisa, esta incompreensível anomalia, de que eu ame cada vez mais minha mulher e menos a deseje amorosamente? Por quê?

Não sei, não atino com a verdadeira causa; e a convicção do fato, que no meu espírito de marido leal e virtuoso atinge as proporções de feia monstruosidade, começa a torturar-me seriamente.

Sim, sim, a certeza de que a felicidade moral de Olímpia subsiste em prejuízo da sua felicidade de mulher, atormenta-me de modo atroz. E percebo ainda, com o coração envergonhado e a consciência em revolta, que a grande dor saída dessa convicção não é determinada pelo mal que ela porventura cause à minha pobre esposa, mas pela ameaça do mesmo mal prometendo cair mais tarde sobre a cabeça de minha filha. Sim, porque minha filha há de também um dia ser esposa e ser mãe, e terá nesse caso de sofrer as mesmas injustiças que eu faço hoje à minha mulher, e que agora lhe entristecem a vida e lhe dão ao bondoso semblante aquele doloroso ar de resignação.

Pois se eu, cônscio da minha íntima probidade conjugal, amando minha mulher como a amei sempre, não pude furtar-me à cruel e misteriosa lei que me obriga, contra a própria razão, a sentir-me farto e cansado da sua ternura, quanto mais se eu fosse um esposo vulgar, sem escrúpulos, e sem domínio sobre si para chamar a consciência, o coração, e até os sentidos, ao bom e leal desempenho dos seus deveres?... O que seria então?... Que horrorosa vida não teria dado à minha mulher se não fora eu tão honestamente rigoroso no desempenho do meu papel de esposo?... Que mundo de dores e desgostos lhe teria eu proporcionado, se ela descobrisse o sacrifício com que às vezes suporto as suas carícias e a hipocrisia com que as retribuo ou provoco?...

O marido de minha filha terá, como eu, a delicadeza, a bondade, de se não revoltar, de submeter-se passivamente à convenção matrimonial, calcando no íntimo as revoltas do tédio, e resistindo heroicamente às solicitações externas, como eu resisti sempre até aqui?

A pertinaz sedução de mais de uma formosa mulher, que encontrei na sociedade, quebrou-se contra os meus princípios de moral; e Olímpia, que é inteligente, bem o percebeu e bem mo agradeceu, não com palavras, mas por delicados meios, que ainda mais me fizeram seu amigo. O marido que minha filha viesse a ter seria capaz de tanto...

Eis o que me tortura principalmente!

E minha filha será, como é minha mulher, uma virtude inquebrável, um espírito orgulhoso e forte, que resista às tentações de procurar fora de casa a felicidade que o casamento lhe terá prometido e não lhe terá dado; ou, impelida pelo fastio da vida conjugal, irá refugiar-se nas criminosas ilusões de novas crises de amor; nessa espécie de falsificadas luas-de-mel, que, a mulher adúltera inventa fora do lar doméstico, porque vê que neste não poderá nunca, nunca mais, obter a reprodução da lua-de-mel verdadeira e legítima?

E, admitindo mesmo a melhor hipótese, admitindo que Palmira herde da mãe a energia e a honestidade do caráter e o rigoroso equilíbrio do temperamento, será justo deixar que ela passe pelas mesmas provações e sofra as mesmas dúbias e lentas infelicidades que eu observo e estudo em Olímpia, e que me enchem de compaixão por ela e de revolta contra mim mesmo e contra estes meus ingratos e miseráveis sentidos? Pois será esse o belo futuro que eu preparo para minha querida filha? destiná-la a servir de instrumento de tédio a um marido, que não será talvez tão resignado como eu e que não consiga amá-la como eu amo minha mulher? condená-la a ser, por toda a melhor parte de sua vida, nada mais do que um ludibriado receptáculo de fingidas carícias? condená-la, coitadinha! a apagar com os seus beijos castos de fogo de inconfessáveis desejos, criados por outras mulheres, cuja única superioridade sobre ela será a de não serem casadas com o homem que for seu marido? E, se este não tiver o meu gênio e não conseguir arrancar de si os artifícios de delicadeza, que eu mantenho para com minha mulher, terei eu o direito de acusar minha filha, no caso que se desvie da linha inflexível dos seus deveres, e procure fora do tedioso matrimônio os regalos exigidos pela sua mocidade e pelos reclamos que, no seu sangue, pôs a natureza para garantia da espécie e segurança na intérmina cadeia da vida? Se assim acontecer, terei o direito de amaldiçoá-la; terei o direito de castigá-la com o meu desprezo e com o meu abandono?

E não será mais odioso crime punir semelhante desgraça, com outra desgraça ainda maior para ela? Para ela e para mim, e para minha esposa; pois que — deserdar qualquer filha do amor de seus pais — é sem dúvida para essa infeliz um tremendo martírio, porém nunca tão grande e tão doloroso como para os desgraçados que o infligem!"

Eis, aí fica uma sincera página, escrita por meu marido, antes da nossa crise das contendas e disputas que nos desuniram para sempre. Calculo quanto não teria ele sofrido mais tarde, pensando no destino de nossa filha e reconhecendo que nem ele próprio, que se considerava tão seguro na sua resignação conjugal e tão firme na sua energia para conter revoltas do tédio, pudera evitar a explosão nervosa e o fatal rompimento, que nos arredaram, a ele de Palmira, a mim do meu pobre filho! Como meu marido devia ter sofrido longe dela, coitado!

Mas a semente do seu amor paternal foi recolhida pelo meu coração de mãe, e já vingou, e há de crescer, florir e dar bons frutos!

Sim, meu infeliz irmão, se lá no duvidoso mundo, para onde voou teu nobre espírito, acompanha-te a mágoa do destino que terá nossa filha, e se guardas nessa outra vida memórias dos que nesta te amaram, põe à larga, o coração, porque estarei ao lado dela para evitar-lhe os escolhos, em que comigo naufragaste; estarei a seu lado, vigiadora e fiel, para preservá-la do mal que nos separou, e para dar-me toda inteira, de corpo e alma, para sempre, à conquista de um meio de a fazer feliz! Juro-te que nossa filha não passará pelas mesmas angústias por que passei, nem resvalará em nenhum dos muitos modos de ser da prostituição!

Não! Palmira não terá a desgraça de ser uma esposa adúltera e desprezível, nem será também uma vítima ridícula da sua própria virtude, privada, na idade do amor sexual, dos direitos e dos gozos que a natureza conferiu a cada uma das suas criaturas; nem será tampouco, como eu fui, a esposa-mãe, cujos beijos do marido nada mais eram que os restos frios do seu amor paterno! Não! minha filha há de amar e ser dignamente amada, com todo o ardor, com todo o entusiasmo, com toda a grande e próspera volúpia de que é capaz o verdadeiro amor! E não somente durante o noivado, mas sempre, por toda a vida, todos os dias e todos os instantes.

Minha filha há de ser feliz!