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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo XIV


Ai, quanto me custou a levar a cabo aquela singular conferência com meu futuro genro!... Como devia eu parecer-lhe caprichosa e ridícula!... Mas está claro que não havia de sacrificar minha filha a um falso escrúpulo de momento, a um miserável egoísmo de minha vaidade pessoal. Seria covardia indigna de mim — abandonar, à primeira dificuldade da campanha, todo o meu trabalho de tanto tempo, e comprometer para sempre a felicidade de Palmira e por conseguinte a minha própria.

Depois do pedido, principiamos logo a cuidar dos aprestos para o casamento. Mandei preparar a casa do noivo, e dispus com todo o esmero, lá em minha residência, os aposentos destinados à noiva. Eu e minha filha acompanhamos as obras com igual empenho e dedicação. Tanto em uma casa como na outra, tudo se fez para o completo conforto de um par; dir-se-ia que se tratava da acomodação, não de um, mas de dois casais.

Para meu futuro genro destaquei um pequeno e galante prédio que possuíamos em Botafogo. Ficou excelente depois de bem mobiliado e guarnecido com esmero. Para minha filha mandei arranjar, lá em nossa casa nas Laranjeiras, onde ela nascera e onde eu habitava havia vinte e dois anos, uma sala, uma larga alcova de casados, um quarto de estudo e oratório, outro de vestir, e um cômodo de toucador e banho; tudo isso independente, por modo que ela ficasse em liberdade e pudesse ter as suas entrevistas com o marido, quando as não realizasse em casa dele. Ficou tudo muito bom.

Os enxovais também foram aviados em duplicata, à exceção, bem visto, do vestido da noiva. Em qualquer das duas habitações podia um casal instalar-se comodamente. Minha filha palpitava de alegria no antegozo do seu amor, e eu sentia-me feliz por vê-la feliz; mas ninguém poderá calcular a dose de energia e a constância de caráter que tive de por em ação, para impedir que o noivo interferisse e se intrometesse nestes arranjos domésticos, e não estivesse sempre encarapichado às nossas saias. O pobre rapaz queria também, como é de costume no Brasil, vir todas as noites visitar a noiva e pespegar-se ao lado dela durante o serão até ao momento de servir-se o chá. Não faltava mais nada! desalojei-o logo dessa pretensão, declarando que a ninguém recebíamos senão às quartas-feiras; mas, o demônio insistiu, recorrendo para vencer-me a todos os carinhosos recursos da adulação; e afinal, reforçando suas súplicas com as de Palmira, conseguiram os dois apanhar-me mais um dia na semana, que ficou sendo o domingo.

Só nas vésperas do casamento permiti que se vissem todos os dias.

Por essa ocasião realizamos os três, e mais o meu velho amigo César, um belo passeio à Floresta da Tijuca.

Ao despontar de sol estávamos já á raiz da serra. Levávamos farnel e um criado para tomar conta dele. Deixamos na cocheira daquele ponto o carro que nos conduziu até aí, e tomamos, para subir a formosa cordilheira, uma vitória de dois lugares, onde eu iria com César, e em cuja boléia o criado se arranjaria com o farnel. Palmira e Leandro tinham, prontos à sua espera, dois cavalos escolhidos.

Era outubro, e a manhã saíra-nos encantadora. Foi deliciosa a subida até o alto da serra, por entre as vegetações e os penhascos da estrada, ao primeiro transbordamento do dia. A quaresma e a sucupira abriam já, na sombra azul das matas, flores roxas e amarelas. Inebriava o espírito a deslizar suavemente naquele vasto recender de aromas resinosos, ao hino matinal dos campos, que se iam, ainda mal acordados dos seus sonhos cor de opala, preguiçosamente desnevoando à dourada fulguração da luz nascente.

Não nos quisemos deter na cascatinha, e continuamos a subir para a Floresta.

A Floresta! Ah! quantas recordações não tinha eu desses lugares, onde tantas vezes passeei pelo braço de Virgílio, antes do nosso casamento, antes da nossa desilusão, quando eu ainda o amava com amor de mulher! César, ao meu lado, no carro, parecia também esquecido nas suas saudades, porque ia abstrato e mudo, olhando fixamente o misterioso horizonte de verdura, com as mãos subpostas a queixo e firmadas no castão da sua bengala.

Palmira e Leandro seguiam adiante cavalgando emparelhados, a rir e a conversar, gárrulos e donairosos. Ah! esses não ficam quietos e calados um só instante, porque iam vivendo do presente e do futuro. Avançavam a galope, resplendentes e soberbos no orgulho do seu amor e da sua mocidade, sem volver para trás os olhos enamorados; alheios a tudo, encarando com desdém o resto do mundo, como do alto da montaria olhavam no caminho as pobres cambaxilras, que esvoaçavam escorraçadas fugindo e gralheando à sua vitoriosa passagem.

Penetramos no coração da Floresta. Minha alma, de comovida, abriu-se de par em par, num êxtase contrito, num doce e profundo enlevo religioso. Tive vontade de ajoelhar-me à sombra das velhas árvores, e chorar.

Como eu te amava ainda, casto paraíso das minhas saudades! Ó minha querida floresta! Não tinhas, como eu, envelhecido, odorante e sombrio templo de verdura! encontrei-te moça e garrida como te deixara, e como a mim tinhas visto, dantes, muito dantes, à flor da minha juventude; o que agora te não achei foi tão minha amiga, tão minha confidente e tão comunicativa como dantes. Eras alegre, paraíso! achei-te triste!

Não! já não eras para mim o mesmo éden carinhoso e sorridente, que com todas as tuas vozes me falavas de amor e de vida! Reconheci as tuas místicas estradas murmurantes; os teus brancos caminhos serpeados entre montanhas de veludo verde; as tuas árvores patriarcais, de longas barbas venerandas, em que se engrimpam e dependuram orquídeas e parasitas; o teu lago quieto e melancólico, em que as taquaras e samambaias se miram furtivamente, por entre a esparsa e mergulhada cabeleira das algas e nenúfares; reconheci a música plangente das tuas águas rebatidas, de cascata em cascata, a sombra amorável e doce das tuas grutas escondidas; reconheci tudo isso, todas essas paragens encantadas; mas já não eras a mesma para mim, Floresta, que me embalaste os sonhos de esperança!

Oh! como Palmira nesse mesmo instante devia achar-te alegre, triste Floresta! Triste e morto paraíso de saudades!

— Em que cisma, minha amiga?... perguntou-me César, tomando-me uma das mãos.

— No mesmo em que você pensava ainda há pouco — no passado... Cismas de velho!...

E suspiramos ambos, desconsoladamente.

Voltei desse longo passeio, de um dia inteiro, com uma fria impressão de tristeza, que se não dissolveu em lágrimas, mas que enlutou de sombras dolorosas o meu velho coração de mulher.

E comigo foi sempre assim, muito antes mesmo da velhice. A contemplação de belas paisagens como a da Floresta, as grandes obras de arte, a música principalmente, deixavam-me na alma um amargo ressaibo de melancolia insolúvel. Atribuía isso, então, ao fato de nunca ter sido, em nenhum tempo de minha vida, completamente feliz. Essa tristeza era como que, não a saudade, mas a desconsolação de quem entreviu, compreendeu e sentiu a ventura natural do viver inteiro e completo, sem nunca poder atingi-la sem nunca lograr desfrutá-la; e que, depois, já na velhice, se acha afinal sem esperanças de gozá-la ainda algum dia, nesta, ou noutra qualquer existência. Era o flébil ressentimento de um pobre coração espoliado e vencido.

E já agora confesso tudo: cheguei a ter uma incogitável ponta de inveja por minha filha... Mas não invejava a noiva, invejava a felicidade de mulher que a esperava, feita e preparada por mim. Ah! eu não tivera mãe, como ela me possuía!...

Entretanto, não me fartava de contemplá-la, embevecida de amor materno; e não me cansava de rever-me na sua paradisíaca ventura, achando-a mais feliz com seu amado, neste paraíso, do que no outro extinto os primitivos amantes, que esses, ai deles! só chegaram a conhecer o amor pelo prisma da maldição e do pecado. Contemplei-os feliz na minha inveja, belos como estavam, minha filha e meu genro, naquele passeio à Floresta da Tijuca! Como a inteira segurança da ventura os fazia monarcas absolutos da vida! Ainda agora, enquanto escrevo estas linhas à luz do meu candeeiro de trabalho, tenho-os nitidamente defronte dos olhos, como os vi nessa linda tarde, depois do almoço na gruta dos Dois Irmãos. Como eram um lindo par! Ele, com a sua roupa de montaria, assentado ao lado dela, fustigava com o chicote a pedra em que estavam ambos; Palmira, mais esbelta na sua amazona azul-ferrete, escutava-o sorrindo com os olhos fitos nos dele. E entre seus lábios que nunca até então se tinham juntado, havia sempre, no murmúrio das palavras um sussurrar de beijos.

E vendo-os assim, tão íntimos, tão confiantes um no outro, tão seguros da sua eterna felicidade e do seu eterno amor, lembrei-me do meu tempo de noiva, lembrei-me das minhas esperanças, e logo também das negras decepções que sobrevieram ao meu casamento. Oh! se eu não estivesse ali, para interpor-me entre eles e separá-los quando fosse preciso, aquele par, tão harmonioso, tão sinceramente unido pelo amor; aqueles dois entes, tão talhados um para o outro, como eu parecia ter sido para meu marido, seriam no fim de algum tempo, se não tivessem reagido logo, fugindo cada um para seu lado, dois míseros infelizes, dois perdidos para a vida, dois inimigos rancorosos, condenados a viver na mesma casa, e comer na mesma mesa, a dormir na mesma cama!

Quão diferente fora a minha existência, se eu tivera possuído alguém capaz de fazer pela minha felicidade um pouco do que eu fazia pela felicidade de minha filha! Oh! mas só mesmo um coração de mãe seria capaz de tanto, e só ele conseguiria as coisas extraordinárias, que ainda tenho a revelar nestas sagradas páginas.