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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo XXI


No dia seguinte o assunto exclusivo da conversa de Palmira foi só o marido, mas nos subseqüentes, sem se esquecer dele por um instante, pensou também um pouco no filhinho esperado; até que, daí a algumas semanas, a sua preocupação se dividia por ambos em partes iguais. E o seu ventre foi tranqüilamente crescendo, e ela foi cada vez mais se fazendo mãe, no meio dos cuidados do enxoval, que a nós duas traziam ocupadas de manhã até à noite. O Dr. César, agora que supunha a irmã fora do perigo, aparecia-nos com mais freqüência e ficava às vezes palestrando conosco durante o serão, entre o jantar e o chá. A progressiva marcha da gravidez de minha filha era fiscalizada por ele com especial solicitude.

Chegou a primeira carta de Leandro. Que alegrão para nós três! Não era uma carta de marido, era uma longa, sentida e despejada confidência de amante infeliz; comovia a força de expressão e de sinceridade, sem cair jamais no sentimentalismo patético; era simples, forte e natural, como o mesmo amor que a inspirava. Assim de longe sob o domínio absoluto de uma dor verdadeira, meu genro volvia-se homem, e nem uma só vez recorria às manhas e pieguices que tinha dantes ao lado da família. Referia-se ao filho secamente, quase com azedume, como se falasse de um importuno que viera intrometer-se na sua felicidade. E não dizia nunca "meu filho" ou "nosso filho", dizia "essa criança".

Isto perturbou-me um pouco. Teria eu, quem sabe? preparado com aquela separação uma desgraça terrível, prejudicando meu neto no seu direito de filho ao amor de seu pai?... Não seria indispensável, para a boa formação, desenvolvimento e completo remate do amor paterno, que o pai acompanhasse de perto, lado a lado, todos os fenômenos patológicos que na mulher precedem o nascimento do filho, e os que ocorrem durante e depois da parturição?... Não teria eu talvez, para conservar o amor de Leandro por minha filha e impedir que se quebrasse entre estes o encanto do desejo, roubado ao meu pobre netinho a parte que de direito lhe tocava no coração de seu pai?... Não estaria eu maquinando contra a pobre criaturinha uma tremenda maldade, com fazer que ficasse todo inteiro o coração de meu genro em posse da esposa?... Não estaria eu cometendo um crime?...

Consultei nesse sentido o Dr. César.

— Não! respondeu-me ele, sem hesitar. Não, minha amiga! Afaste do juízo semelhante apreensão. O amor de pai não se pronuncia antes do nascimento do filho e só é formado e desenvolvido com a convivência entre os dois. O amor materno, sim: existe desde a vida uterina do feto, com ele cresce, avulta quando ele nasce, e vai aumentando sempre na proporção do crescimento do filho. E está nisto a razão por que o amor de mãe é sempre, até que o filho atinja à puberdade, maior e mais intenso que ao amor paterno; é que ele, na sua carreira, sai com grande avanço. O outro, quando acorda, encontra-o já vigoroso e adiantado.

A natureza foi muito previdente na constituição destas coisas: o filho só poderia ser privado do amor de sua mãe, se alguém conseguisse de uma mulher fazê-la conceber e dar à luz sem que ela tivesse consciência disso, e ainda assim não conseguiria privá-lo dos desvelos e dos cuidados maternais: a doida concebe e tem filhos sem sentir por eles o menor vislumbre de amor, mas sem nunca aliás se descuidar, guiada só pelo seu instinto de fêmea, de prestar-lhe os socorros maternos. Faz tudo isso como qualquer bruto — pare, corta com os dentes o cordão umbilical, prepara o filho para a vida: assopra-lhe na boca, se for preciso dar-lhe aos pulmões o primeiro ar; bate-lhe nas palmas dos pés e das mãos; depois cria-o, e defende-o dos perigos materiais que o ameacem; mas não o ama. Aquele bocado de carne viva e palpitante é uma pouca da sua própria carne; e a carne, essa nunca enlouquece! Considere agora, minha amiga, que, pelo lado paterno, não há sequer esta circunstância material do desdobramento do corpo, do desdobramento da carne. Na mulher, aquele poderoso instinto animal, associado à razão e à consciência não menos poderosas, produz o que se chama o amor materno. E tudo isso se dá antes de chegar o amor paterno, que pode até nunca chegar, se não houver convivência entre o pai e o filho. Não é banal dizer que todo o homem é muito mais filho da mulher do que do homem; o que me leva a sustentar que na sociedade ele devia apresentar-se com o nome da mãe e não do pai!

Fiquei perfeitamente tranqüila com estas palavras e pus o coração à larga.

Na segunda carta, Leandro enviava o retrato à mulher, e uma poesia inspirada na saudade, acompanhando tudo um amor-perfeito colhido em certo jardim, na ocasião em que, diziam os versos, "no meio da alegria geral e do riso dos convivas — seu coração sangrava o martírio daquela terrível ausência, que o privava do estremecido objeto do seu amor..." Li e reli essa composição poética; não era um primor da arte, mas Palmira chorou de emoção ao lê-la. E comparei mentalmente aquela carta do marido de minha filha com as cartas que meu marido me escreveu na sua ausência dos oito meses. Que diferença! Que contraste!

E vamos lá! tinha eu ou não a razão para estar orgulhosa com a minha obra? Qual é aí o marido que até à presente data já escreveu versos de amor à sua mulher, durante o desgracioso período da gravidez ou da parturição? Qual é ele? Versos ao filho conseqüente, sim, muitos o têm feito, esquecidos da pobre criatura enfeiada pelo parto, que jaz molemente sobre uma cama de colchões mornos, entre mornos travesseiros, defumados de alfazema!

Na carta, onde havia uma página, toda inteira, dedicada ao Dr. César, que aliás da primeira remessa tinha já recebido uma particularmente a ele dirigida, só uma fria frase me cabia. Era esta: "Apresenta meus cordiais respeitos a tua mãe e pede-lhe, em nosso nome, que me escreva por ti, quando porventura já não possas fazer". A única frase, pois, que ele me concedia fora ainda assim determinada pelo amor de Palmira. Não me revoltei: Era o caso do doente que, desvairado pela dor, morde a mão do médico que o opera. Pois me mordesse! que me mordesse quando quisesse! contanto que aquela mesma boca, que me mordia a mão, continuasse no futuro a beijar com duplicado ardor a boca de minha filha!

Não me agastei, nem me senti menos feliz por isso.

A natureza é boa amiga! Como sabe ela dar a todas as estações da existência novos interesses de vida! novas dores e novos prazeres! Nunca pensei que fosse tão intensa a felicidade de ser avó!...

À proporção todavia que se aproximava o grande acontecimento, comecei a palpitar de impaciência e sobressalto. Desfazia-me em pequenos cuidados com a enferma; afigurava-se-me que era eu a única responsável pelo que viesse a suceder; sentia-me tão dentro daquela situação, que era como se eu fosse o pai e tivesse de ser mãe daquele filho! Talvez não acreditem, mas juro que me impressionei ainda mais do que quando eu própria estive para dar à luz pela primeira vez!

E agora, inesperadas apreensões vinham perturbar a confiança que eu até aí depositava cegamente nas ótimas circunstâncias em que fora aquele filho concebido. Não descansava um instante, não me descuidava um momento da minha Palmira. De madrugada era eu a primeira a levantar-me e vencer-lhe a indolência, e obrigá-la a vestir-se e a sair comigo, para os passeios matutinos. Arrependia-me agora de lhe ter falado tão abertamente do parto, porque ia começando a descobrir nela também receios e sobressaltos. Mas animava-a com tanto carinho e habilidade, que a boa criança nunca se atreveu a fazer-me a mais leve queixa, mesmo indireta, contra a ausência do marido.

Minha gaveta da secretária estava cheia de livros de medicina, concernentes ao assunto que inteiro me possuía. Sempre que eu pilhava alguma folga ou quando podia roubar algumas horas ao sono, devorava o Traité de l’art des accouchments de Gazeaux, e tomava notas para discutir depois com o Dr. César, que nesses últimos tempos não nos deixava de visitar todos os dias. Devia já parecer ridícula aos olhos do bom médico com as fumaças de doutora que eu agora me dava na conversa.

E a crise aproximava-se.

Eu já me não pertencia; não tinha cabeça no lugar; comia sem apetite; passava noites de insônia. Estava tão abatida, ou mais, que minha própria filha, e juro que dentro do meu coração palpitava o feto que ela trazia no ventre.

Mas afinal chegou o dia supremo. A casa revolucionou-se. César estava conosco, felizmente. Não posso afiançar que sofresse eu as dores puerperais, mais sei que sofri muito e que não abandonei minha filha um só instante, até receber nos meus braços um belo menino, perfeito, forte, com o crânio coberto já de cabelo preto.

Oh! Vitória! Vitória completa!

Saltaram-me as lágrimas dos olhos. Tive vontade de misturar meus cansados soluços de avó com aquele angelical vagido, que meu netinho me trazia do mistério da antevida, alguma coisa de um balbuciar divino, que ainda não é voz humana e também já não é simples eco de puro cântico de anjos! Minha filha, quase morta de prostração, branca e fria, como se todo o sangue e toda a vida lhe tivessem escorrido pelo ventre aberto, gemia ainda, devagarinho, e seus gemidos cortavam a alma.

Entreguei a criança ao médico e a uma parteira que nos acompanhava, e dei-me toda aos cuidados da puérpera. Não me despeguei mais do seu lado, até que ela serenou de todo.

Ah! correu tudo muito bem: confirmou-se a minha convicção de que o bom parto depende das boas circunstâncias de amor em que o filho é concebido. Transbordava-me agora o coração de alegria. Quando vi minha filha fora de perigo e prestados a meu neto os primeiros cuidados, corri ao quarto do oratório, ajoelhei-me defronte da Virgem-Mãe, e aí, com a alma também parturiente e aliviada das ânsias e sobressaltos que a pejavam, agradeci os céus, entre lágrimas consoladoras a ventura que eles nos enviavam.

Mas tornei logo para junto da enferma. Tomei-lhe a cabeça no regaço, e foi assim que Palmira adormeceu, como nos outros tempos, quando eu era moça e ela pequenina.