Mattos, Malta ou Matta?/VIII

Mattos, Malta ou Matta? por Aluísio Azevedo
Capítulo VIII: Novas revelações - oitava carta


Sr. Redator:
Chegado que fui a casa, em companhia do ressuscitado, disse a este que entrasse, acendi duas velas, ofereci-lhe uma cadeira e dispunha-me a ouvir com toda a atenção o fio de sua narrativa, quando ele me observou que estava a cair de fome e precisava refazer as forças com duas ou três costeletas antes de principiar de novo o diálogo.
"Isso agora é que é o diabo!" — disse eu comigo, lembrando-me de que, depois que minha mulher abandonara aquela casa, nunca mais se acendera o fogão.
O ressuscitado, como se adivinhasse o meu pensamento, lembrou que fôssemos cear a um restaurante.
— Não — respondi eu —, é melhor ficarmos aqui. Temos de conversar longamente e precisamos para isso de toda a liberdade. Eu me encarrego de arranjar o que comer; é um instante! Fique o amigo à minha espera; não me demorarei muito.
E, antes que ele apresentasse alguma objeção, sai gritando-lhe:
— Até logo.
— Veja se não se demora, hem? Tenho o estômago a gemer.
Sai de casa, meti-me no carro que havíamos deixado à porta, e fui comprar; ao primeiro hotel que encontrei; o necessário para uma ceia.
— Trouxe vinho? — perguntou-me o hóspede, logo que me viu voltar.
— Trouxe.
— Quantas garrafas?
— Duas.
— É pouco.
— Pouco?
— Decerto. Uma garrafa de vinho não chega para nada!...
— Mas eu trouxe duas...
— Uma não se conta!
— Não compreendo!
— São teorias do meu educador. E desculpe não entrar por enquanto em maiores explicações, porque lá não me posso ter de fraqueza.
Dizendo isto, o meu singular hóspede havia já desembrulhado a cesta dos comestíveis, e tirava de dentro o conteúdo, exclamando a cada peça:
— Bravo! Um frango assado! — Um pedaço de roast-beef, esplêndido! — Ostras de forno, magnifico! — Queijo de Minas, soberbo! — Pastéis de camarão, divino! — Uma lingüiça, ótimo!
— Creio que chega — disse eu.
— Pelo menos remedeia — afiançou o ressuscitado, atirando para longe o chapéu e cravando os dentes no frango. — O amigo algum dia já passou meiA Semana sem comer? — perguntou-me ele.
— Não me lembro.
— Pois aqui está quem já atravessou umA Semana inteira, sem meter para a boca um grão de arroz. Tenho curtido muito boa fome nesta heróica Cidade de São Sebastião. Aqui onde me vê, conheço todas as delicias da miséria!
— Ninguém o diria, atendendo para esse bom humor de que dispõe o amigo.
— Ah! Mas é que eu encaro o mundo de um ponto de vista muito filosófico. Não me preocupo absolutamente com a vida, nem com a morte. Que m'importa a mim que as cousas corram deste ou daquele modo? Que m 'importa que chova ou que faça frio? Acaso de desejo conservar a existência?
— O senhor é um homem singular!...
— Não, sou apenas um indiferente, sou uma sombra! Sei que nada valemos, sei que tudo isto que nos cerca desaparecerá dentro de certo tempo, sei que nós todos vivemos para cumprir uma lei indefectível da natureza, e deixo-me por conseguinte governar como um verdadeiro instrumento. Não tenho vontades, não tenho querer. Aceito a vida, aceito os fatos, sejam eles quais forem, sem lhes perguntar donde vieram, que significam ou qual o fim a que se destinam. Que diabo me pode suceder com este sistema? — A morte? — Puff!' estou me ninando para ela! — O descrédito? Mas que diabo vem a ser isso? Não aspiro posição alguma na sociedade, não pretendo nada de meus semelhantes; vivo, porque assim o determinaram os mistérios da criação; não me mato, porque seria uma maçada, e deixo correrem as cousas como elas bem entendam!
— Mas a sua filosofia não o impedirá de sofrer física e moralmente, quando for acometido por alguma dor...
— Dor?
— Então, também nega a dor?
— Decerto. Sofrem apenas os que desejam sofrer.
— Ora essa! Então se eu lhe pisar o melhor calo, o senhor não dá por isso?
— Pode ser que sinta a pressão do seu pé sobre o dedo em que se acha o calo, mas juro-lhe que não experimentarei com isso impressão mais agradável ou desagradável do que se me dessem um beijo.
— Então por que exigiu o senhor que eu fosse buscar isso com que está se regalando? Se a fome não o incomodava, para que satisfazê-la?
— Porque ela assim o quer; isso não é comigo, é com o meu estômago, que funciona por conta própria, sem me consultar absolutamente. Apenas o que eu faço é auxiliá-lo, emprestando-lhe outros membros e outros órgãos. Por exemplo.
E tomou um pastel de sobre a mesa:
— O estômago deseja este pastel, para quê — não sei, nem quero saber, mas precisa dele e reclama-o. Eu, que faço? Agarro no pastel, levo-o à boca...
E, mastigando:
— Mastigo-o... Engulo-o e agora cada um que se arranje!
— E se o senhor não tivesse o pastel à mão?
— Teria outra cousa. Se não fosse hoje, amanhã ou depois ou daqui a oito dias. Com a diferença, porém, que daqui a oito dias, se não me aparecesse um pastel, ou cousa semelhante, lançar-me-ia às orelhas do primeiro cidadão que me passasse ao alcance dos dentes.
— Bem — observei, já farto de ouvir as extravagantes teorias do meu ressuscitado. — Deixemos por ora a sua filosofia e vamos tratar do que nos interessa.
— A mim nada interessa — atalhou ele.
— Perdão, mas não se trata só do senhor.
— Sim, mas eu só trato de mim...
— Pois faça o favor de abrir uma exceção nos seus costumes e responda às perguntas que lhe vou fazer.
— Ah! Isso não me incomoda e até me diverte. Quer conversar; não é verdade? Pois converse pr'aí; gosto muito de falar; porque falar é uma cousa excelente, não demanda nenhum esforço, não demanda dinheiro, nem paciência, nem energia, nem instrução. A gente abre a boca e deixa que a palavra saia, assim como agora. Vê? Eu não laço o menor esforço para dizer tudo isto... Tenho o estômago cheio, a cabeça um pouco atordoada pelo que já falta de vinho nessas garrafas; ninguém conta com a minha vida ou com a minha morte; posso, por conseguinte, levar aqui a falar deste modo, enquanto houver o que arder nos castiçais e enquanto o sono usar dos seus direitos de não fizer-me adormecer.
— Bem — disse eu —, mas o que eu desejo não é ouvi-lo falar e sim ouvir certos esclarecimentos que me são necessários. Diga-me, por exemplo, como chegou o senhor a travar as suas relações com a viúva do farmacêutico.
— Pois não! Uma noite, não sei que horas eram nem que dia dA Semana, achei'— me cansado e morto de fome. Tinha caminhado por muitas ruas e não encontrava uma casa aberta. Afinal, dobrando para um largo, vi luz numa casinha de duas janelas. Fui até lá, bati. Perguntaram-me o que queria. — "Quero falar ao dono ou dona da casa." Apareceu uma velhusca. "Quem é? — Sou eu! Faça o favor de abrir! — Que deseja? — Comer!" Iam-me fechar a porta na cara, mas não dei tempo para isso, e penetrei na casa. — "Não se assuste! — disse à velha, que parecia tremer de medo. — "Não se assuste, não lhe farei o menor mal." E, vendo que a mesa estava servida com um resto de ceia, assentei-me e comecei a comer com o mesmo apetite com que devorei o frango de ainda há pouco. Depois tomei uma garrafa e enxuguei-a. Feito o que, abri uma porta, que dava para uma alcova, e estendi-me sobre uma boa cama que encontrei.
— E a velhusca?
— A velhusca a princípio quis ir chamar a Policia, mas, à vista do meu sangue-frio e talvez do ar pacifico de minha fisionomia, contentou-se em acompanhar-me os movimentos e afinal até já me achava graça. Dormi lá essa noite, dormi perfeitamente e, como, no dia seguinte, a velhusca me deu almoço, deixei-me ficar até que as pernas me pediram exercício. Fui então passear; mas logo que me senti cansado, voltei à casa da velhusca, e assim fui fazendo até que ela já não podia estar por muito tempo separada de mim, e já pagava as cousas de que eu ia precisando e já me dava dinheiro, charutos, garrafas de cerveja e balas.
— Depois?
— Depois começou a aconselhar-me que trabalhasse...
— E o senhor?
— Eu contei-lhe a minha história, filei-lhe no Melindroso e disse que não tinha elementos para ganhar a vida e que estava disposto a ir passando à mercê do acaso, até que um bonde ou uma febre de mau caráter se lembrasse de levar-me ao cemitério.
— Mas o fato da sua prisão?
— Ah! Vou contar-lhe tudo pelo miúdo.
Sou de V.S.ª
At.º cr.º e ven.or